Luzia Homem, de Domingos Olmpio

Fonte:
OLMPIO, Domingos. Luzia-Homem. Texto integral estabelecido por Afrnio Coutinho e Maria Filgueiras;
9.ed., So Paulo: tica, 1983. (Srie Bom Livro).

Texto proveniente de:
A Literutra Brasileira  O seu amigo na Internet.
Permitido o uso apenas para fins educacionais. 
Qualquer dvida entre em contato conosco pelo email dariognjr@bol.com.br.
http://www.aliteratura.kit.net

Texto-base digitalizado por:
Alexandre Gallioto, Florianpolis - SC

Este material pode ser redistribudo livremente, desde que no seja alterado, e que as informaes acima sejam mantidas.


Luzia Homem
Domingos Olmpio

I



O morro do Curral do Aougue emergia em suave declive da campina ondulada. Escorchado, indigente de arvoredo, o cmoro enegrecido pelo sangue de reses sem conto, deixara de ser o stio sinistro do matadouro e a pousada predileta de bandos de urubus-tingas e camirangas vorazes.

Bateram-se os vastos currais, de grossos esteios de aroeira, fincados a pique, rijos como barras de ferro, currais seculares, obra ciclpica, da qual restava apenas, como lgubre vestgio, o moiro ligeiramente inclinado, adelgaado no centro, polido pelo contnuo atrito das cordas de laar as vtimas, que a ele eram arrastadas aos empuxes, bufando, resistindo, ou entregando, resignadas e mansas, o pescoo  faca do magarefe. Ali, no stio de morte, fervilhavam, ento, em ruidosa diligncia, legies de operrios construindo a penitenciria de Sobral.

No cabeo saturado de sangue, nu e rido, destacando-se do perfil verde-escuro da serra Meruoca, e dominando o vale, onde repousava, reluzente ao sol, a formosa cidade intelectual, a casaria branca alinhada em ruas extensas e largas, os telhados vermelhos e as altas torres dos templos, rebrilhando em esplendores abrasados, surgia em linhas severas e fortes, o castelo da priso, traado pelo engenho de Joo Braga, massa ainda informe, spera e escura, de muralhas sem reboco, enteadas em confusa floresta de andaimes a esgalharem e crescerem, dia a dia, numa exuberncia fantstica de vegetao despida de folhas, de flores e frutos. Pela encosta de cortante piarra, desagregado em finssimo p, subia e descia, em fileiras tortuosas, o formigueiro de retirantes, velhos e moos, mulheres e meninos, conduzindo materiais para a obra. Era um incessante vai e vem de figuras pitorescas, esqulidas, pacientes, recordando os hericos povos cativos, erguendo monumentos imortais ao vencedor.

Acertara a Comisso de Socorros em substituir a esmola depressora pelo salrio emulativo, pago em raes de farinha de mandioca, arroz, carne de charque, feijo e bacalhau, verdadeiras gulodices para infelizes criaturas, aoitadas pelo flagelo da seca, a calamidade estupenda e horrvel que devastava o serto combusto. Vinham de longe aqueles magotes hericos, atravessando montanhas e plancies, por estradas speras, quase nus, nutridos de cardos, razes intoxicantes e palmitos amargos, devoradas as entranhas pela sede, a pele curtida pelo implacvel sol incandescente.

Na construo da cadeia havia trabalho para todos. Os mais fracos, debilitados pela idade ou pelo sofrimento, carregavam areia e gua; aqueles que no suportavam mais a fadiga de andar amoleciam cips para amarradio de andaimes; outros menos escarvados amassavam cal; os moos ainda robustos, homens de rija tmpera, superiores s inclemncias, sbrios e valentes, reluziam de suor britando pedra, guindando material aos pedreiros, ou conduzindo s costas, de longe, das matas do sobp da serra, grossos madeiros enfeitados de palmas virentes, de ramos de pereiro de um verde fresco e brilhante, em festivo contraste com o stio ressequido e desolado. E davam conta da tarefa, suave ou rude, uns gemendo, outros cantando lacres, numa expanso de alvio, de esperana renascida, velhas canes, piedosas trovas inolvidveis, ou contemplando com tristeza nostlgica, o cu impassvel, sempre lmpido e azul, deslumbrante de luz.

Esse concerto esdrxulo de vozes humanas em cnticos e queixumes, de rugidos da matria transformando-se aos dentes dos instrumentos, aos golpes dos martelos, de brados de comando dos mestres e feitores, essa melopia do trabalho amargurado ou feliz, era, s vezes, interrompido por estrdulos assobios, alarido de gritos, gargalhadas rasgadas e as vaias de meninos que se esganiavam: era uma velha alquebrada que deixara cair a trouxa de areia; um cabra alto de hirsuta cabeleira marrafenta, lambuzado de cal, que escorregara ao galgar uma desconjuntada e vacilante escada, e lanava olhares ferozes  turba que o chasqueava, era a carreira constante das moas e meninas para as quais o trabalho era um brinquedo; eram gritos de dor de um machucado, rodeado pela multido curiosa e compassiva, ou os gemidos de algum infeliz, tombando prostrado de fadiga, pedindo pelo amor de Deus, no estertor da hora extrema, no o deixassem morrer sem confisso, sem luz, como um bicho.

Cercava o edifcio em construo, um extico arraial de latadas, de choupanas, de ranchos improvisados, onde trabalhavam carpinteiros falqueando longas vigas de pau-d'arco, frechais de frei-jorge e gonalo-alves, ou serrando e aplainando cheirosas tbuas de cedro. Marcando a subida do morro, se alinhavam em rua tortuosa, pequenas barracas feitas de costaneiras, cascas e sarrafos, as quais serviam de abrigo s costureiras, fazendo, dos sacos de vveres, roupa para os esmolambados, envoltos em nojentos trapos que lhes mal disfaravam o pudor e a horrenda magreza esqulida. De outras barracas subia ao ar, em novelos espessos ou tnues espirais azuladas, o fumo de lareiras, onde, sobre toscas trempes de pedra, ferviam, roncando aos borbotes, grandes panelas de ferro, repletas de comida.

Ao cair da tarde, quando clida neblina irradiava da terra abrasada, esbatia o recorte das montanhas ao longe, e adelgaava o colorido da paisagem em tons pardacentos e confusos, o sino da Matriz, como um colossal lamento, troava a Ave-Maria. Cessava o rumor e o mestre da obra batia com o pesado martelo o prego, em solene cadncia, anunciando o termo do trabalho.

A multido de operrios, depois de silenciosa e contrita prece, se agrupava em torno dos feitores; e, respondido o ponto, desfilava, depositando, em determinado stio, a ferramenta e vasilhame. Fatigada, suarenta, dispersava-se, dividindo-se em grupos, seguindo vrias direes em busca de pousada, ou desdobrando-se na curva dos caminhos, nas forquilhas das encruzilhadas, at se sumir como sombras desgarradas, imersas na caligem da noite iminente.

Comeava, ento, a vida nos acampamentos, desertos durante o dia. E descantes  viola, rudos de sambas saracoteados, de vozes lmures ou irritadas, de gargalhadas incontinentes formavam incoerentes acordes com as rajadas speras de virao a silvar nos galhos secos e contorcidos das moitas mortas de jurema e mofumbo, ou nas palmas virentes das carnaubeiras imortais.

No cu lmpido, profundo e sereno, em quietitude de lago tranqilo, sem as manchas de nuvens errantes, tremeluziam em esplndidas constelaes, mirades de estrelas. Na terra escura, um colar de luzes tmidas, como crios melanclicos velando enorme esquife, cercava a cidade adormecida em torpor de monstro saciado. E no alto sinistro do curral do Aougue, erguia-se, silenciosa e solitria, a molhe sombria da penitenciria, como um lgubre monumento consagrado  maldade humana.



II

O francs Paul - misantropo devoto e excelente fabricante de sinetes que, na despreocupada viagem de aventura pelo mundo, encalhara em Sobral, costumava vaguear pelos ranchos de retirantes, colhendo, com apurada e firme observao, documentos da vida do povo, nos seus aspectos mais exticos, ou rabiscando notas curiosas, ilustradas com esboos de tipos originais, cenas e paisagens - trabalho paciente e douto, perdido no seu esplio de alfarrbios, de colees de botnica e geologia, quando morreu, inanido pelos jejuns, como um santo.

Um dia, visitando as obras da cadeia, escreveu ele, com assombro, no seu caderno de notas:

"Passou por mim uma mulher extraordinria, carregando uma parede na cabea."

Era Luzia, conduzindo para a obra, arrumados sobre uma tbua, cinqenta tijolos.

Viram-na outros levar, firme, sobre a cabea, uma enorme jarra d'gua, que valia trs potes, de peso calculado para a fora normal de um homem robusto. De outra feita, removera, e assentara no lugar prprio, a soleira de granito da porta principal da priso, causando pasmo aos mais valentes operrios, que haviam tentado, em vo, a faanha e, com eles, Raulino Uchoa, sertanejo hercleo e afamado, prodigioso de destreza, que chibanteava em pitorescas narrativas.

Em plena florescncia de mocidade e sade, a extraordinria mulher, que tanto impressionara o francs Paul, encobria os msculos de ao sob as formas esbeltas e graciosas das morenas moas do serto. Trazia a cabea sempre velada por um manto de algodozinho, cujas curelas prendia aos alvos dentes, como se, por um requinte de casquilhice, cuidasse com meticuloso interesse de preservar o rosto dos raios do sol e da poeira corrosiva, a evolar em nuvens espessas do solo adusto, donde ao tnue borrifo de chuvas fecundantes, surgiam, por encanto, alfombras de relva virente e flores odorosas. Pouco expansiva, sempre em tmido recato, vivia s, afastada dos grupos de consortes de infortnio, e quase no conversava com as companheiras de trabalho, cumprindo, com inaltervel calma, a sua tarefa diria, que excedia  vulgar, para fazer jus a dobrada rao.

-  de uma soberbia desmarcada - diziam as moas da mesma idade, na grande maioria desenvoltas ou deprimidas e infamadas pela misria.

- A modos que despreza de falar com a gente, como se fosse uma senhora dona - murmuravam os rapazes remordidos pelo despeito da invencvel recusa, impassvel s suas insinuaes galantes. - Aquilo nem parece mulher fmea - observava uma velha. alcoveta e curandeira de profisso. Reparem que ela tem cabelos nos braos e um buo que parece bigode de homem...

- Qual, tia Catirina! O Lixande que o diga! - mandou uma cabocla rolia e bronzeada, de dentes de piranha, toda adornada de jias de pechisbeque e fios de mianga, muito besuntada de leos cheirosos.

- No diga isso que  uma blasfmia  atalhou Teresinha loura, delgada e grcil, de olhar petulante e irnico, toda ela requebrada em movimentos suaves de gata amorosa.

- Por ela eu puno; meto a mo no fogo...

- Havia de sair torrada. Isso de mulher, hoje em dia,  mesmo uma desgraceira.. .

- Mas voc no pode negar que ela viva no seu canto sossegada sem se importar com a vida dos outros e fazendo pela sua, como uma moira de trabalho. Vocs, suas invejosas, no a poupam; no tendo para dizer dela um tico assim, vivem a maldar, a inventar intrigas e suspeitas. Nem que ela fosse uma despencada do mundo...

- Tu a defendes, porque s pareceira dela...

- Antes fosse! ... Outros galos me cantariam. No andaria aqui, sem eira nem beira, metida nesta canalhada de retirantes. Quem me dera ser como Luzia, moa de respeito e de vergonha,

- Quem perdeu tudo isso para ela achar?.. obtemperou numa rasgada gargalhada de sarcasmo brutal, a rolia cabocla de agudos dentes.

- Qual? ... Vo atrs da sonsa! ...

- Deixem estar que h de ser como as outras. Em boniteza, verdade, verdade, mete vocs todas num chinelo. Aquilo  mulher para dar e apanhar - disse chasqueando um soldado de linha, destacado no Curral do Aougue para manter a ordem, pois no raro rixavam e se engalfinhavam mulheres, ou se esboroavam homens por fteis pretextos: houvera mesmo srios conflitos e lutas sangrentas, to abatido estava, naquela pobre gente

o senso moral.

- Vo ver que voc, seu Crapina, tambm est fazendo roda a Luzia-Homem?!...

Crapina, o tal soldado, era mal afamado entre os homens e muito acatado pelas mulheres, graas  correo do fardamento irrepreensvel, os botes doirados, o cinturo e a baioneta polidos e reluzentes: todo ele tresandando ao patchouli da pomada, que lhe embastia a marrafa e o bigode, teso e fino como um espeto. Possua, apesar das duras feies, o encanto militar, a que  to carovel o animal caprichoso, e ftil, a mulher de todas as categorias e condies sociais, talvez porque, sendo fraca, naturalmente, se deixa atrair pelas manifestaes da fora.

Contavam dele histrias emotivas, aventuras galantes, feitos de bravura, faanhas na perseguio de criminosos clebres; ele estivera nas escoltas que prenderam o facnora Jos Gabriel e o cangaceiro Z Antnio do Fechado, cavaleiro e bravo  antiga, de raa de heris, os Brilhantes, Atades, e Vicente Lopes do Caminhadeira, representantes dispersos, atvicos, espcimens ferozes de banditismo que foi a glria de Portugal, e lhe conquistou mundos, descobrindo-os, roubando-os com a indmita coragem de piratas, consagrados pela imperecvel gratido da ptria  pstera venerao.

No faltavam ao soldado feitos que lhe aumentassem o prestgio de pessoa bem conformada, sem vcios que lhe dessem o realce de um afortunado. Dizia-se,  puridade, nos colquios da protrvia popular, que, antes de ser recrutado por audcias sensuais, e envergar a farda, fora guarda-costas de um famigerado fazendeiro da Barbalha, onde executara proezas cruis, de pasmar, em verdes anos, pois mal lhe despontava, ento, o buo. Tinha o ativo de trs mortes e outros crimes menores, valendo-lhe isto por ttulo ao temeroso respeito do povo.

A insinuao de Romana ferira certo o alvo, e assanhara a secreta cupidez de Crapina, que no se conformava com os modos retrados e a impassvel frieza da mulher-homem, resistncia passiva e calma, ante a qual se amesquinhava a sua fama e sentia arranhado o amor-prprio de vitorioso em fceis conquistas. Sempre que a encontrava, dirigia-lhe, com saudaes reverentes, palavras de ternura e erotismos incontinentes, olhares e gestos de desejos mal sofreados. E, to frequentes se tornaram esses meios de obsesso, que um dia a moa os rebateu secamente, com firmeza inelutvel:

- Deixe-me sossegada. No se meta com a minha vida. Eu no sou o que o senhor supe...

- Deixa-te de luxos, rapariga - respondeu Crapina, mostrando-lhe um grosso anel de ouro. - Olha a memria de ouro que tenho para ti... No te zangues com o teu mulato...

Desde ento entrou a acompanh-la, a persegu-la por toda a parte, nas horas de trabalho na penitenciria, nas caminhadas ao rio e a rondar durante a noite pela vizinhana da casinha velha, l para as bandas da Lagoa do Junco, onde ela morava com a me, velha e enferma, a boa, a santa tia Zefa. 

Exasperada por essa obsesso afrontosa, cada vez mais ardente e descomedida, Luzia queixou-se ao administrador que obteve do tenente, comandante do destacamento, a remoo do temerrio galante para outros servios, guarda e faxina da priso e, nos dias de folga, a polcia da feira.

O to severo, merecido castigo penetrou fundo no duro corao do soldado, remexendo a vasa de instintos, ali sedimentada em demorado repouso. Mais ainda lhe moeram os melindres, os comentrios irreverentes, os aplausos, as insinuaes ferinas e o chasco de ser punido por queixa da mulher apetecida, a quem ele, com fingido desdm, chamara uma retirante -toa, sem eira nem beira, toda arrebitada de luxos e medeixes. E ainda mais o estomagava o ser a opinio, em esmagadora maioria, favorvel ao castigo.

Acharam todos fora acertada providncia tirar aquela ona do pasto para tranqilidade e segurana das moas e das mulheres casadas, pois j era demasiada a falta de respeito escandalizadora. Aquele homem de maus bofes, era um perigo. E surdiam histrias de crimes, anedotas grotescas, revelao de casos repugnantes, verdadeiros ou inventados pela fantasia do populacho nos excessos de saborear a vingana, denegrindo-lhe a reputao e deturpando-o para transform-lo de pelintra quente e apaixonado, em reles monstro horripilante.

Crapina sabia dessas ms ausncias, das calnias e falsos testemunhos que lhe levantavam, cobardemente, pelas costas; das pragas e esconjuros, arrogados pelas suas vtimas e desafetos. Safados uns, ingratos outros. Corja de mal-agradecidos, que j se no lembravam dos benefcios de ontem. A muitos deles, desses que agora o malsinam por intrigas de mulheres, havia morto a fome. No se tinha em conta de santo, confessava; fizera certas vadiaes de homem solteiro, que no tinha contas que dar; mas ningum lhe podia lanar em rosto o haver aforciado mulheres honestas. Quanto  remoo, at dava graas a Deus por se ver livre daquela cambada de retirantes nojentos e leprosos, cujo aspecto, em jejum, causava engulhos; seria, entretanto, melhor sair da obra por sua livre vontade e no por queixa... E logo de quem? De Luzia-Homem... Oh? o diabo daquela sonsa era capaz de virar pelo avesso o juzo de uma criatura, e provocar muita desgraa por causa daquele imposo de querer ser melhor que as outras... Tirando-lhe a fora bruta, no passava de uma pobre tatu, que s tem por si o dia e a noite.

- Voc est... - mas  fisgado pela macho e fmea - arriscou o camarada Belota que lhe ouvia a confidncia - Aquilo tem mandinga... Quem sabe se no te enfeitiou! ... Olha que ela tem uns olhos que furam a gente.. . E ento - aquela cabeleira... Acho melhor pedir  Chica Serid uma orao forte para desmanchar quebrantos e fechar o corpo contra mau olhado.

- Qual, o qu!... - retorquiu Crapina, com afetado desdm - Eu at nem gosto dela... No lhe acho graa... Depois... com semelhante fora... nem parece mulher...

- Tira o cavalo da chuva e conta a histria direito, Crapina. Todas as mulheres so iguais e merecem tudo; a demora  grelar no corao o capricho, principalmente, quando resistem. Fora ela um monstro da natureza; paixo no enxerga nem repara e, quando nos ataca,  como o sarampo: at jasmim de cachorro  remdio. E deixa falar quem quiser, que  soberba, sonsa, mal-ensinada... Ela no  nenhum peixe podre. No reparaste naqueles quartos redondos, no caculo do queixo. Na boca encarnada como um cravo?! E o buo?! ... Sou caidinho por um buo ... Ela quase que tem passa-piolho, o demnio da cabrocha...

- O que mais me admira  que no se diz dela tanto assim  afirmou Crapina pensativo, riscando com a unha do polegar a ponta do indicador.

-  por ser mais velhaca que as outras... Pergunta ao Alexandre...

- Que Alexandre? Aquele alvarinto que servia de apontador na obra: e passou depois para o armazm da Comisso? ... Aquilo  defunto em p. No  qualidade de homem para um como eu.

- O caso  que ele gosta dela. Esto sempre perto um do outro, ao passo que o Crapina velho foi posto fora, como um cachorro tinhoso, e est aqui gemendo no servio...

E como o soldado, em cujo corao se derramara fel, ficasse a cismar, Belota afastou-se com um gracejo ferino: 

- Ali  ver com os olhos e comer com a testa ou lamber vidro de veneno por fora, como rato de botica. Toma o meu conselho. No te metas com a bruxa que cheiras vara!

Crapina no o ouviu. Contorcendo-se no martrio de ona acuada, com o corao caldeado no peito, estremecia  suspeita de um rival venturoso na disputa da cobiada presa.





III



A populao da cidade triplicava com a extraordinria afluncia de retirantes. Casas de taipa, palhoas, latadas, ranchos e abarracamentos do subrbio, estavam repletos a transbordarem. Mesmo sob os tamarineiros das praas se aboletavam famlias no extremo passo da misria - resduos da torrente humana que dia e noite atravessava a rua da Vitria, onde entroncavam os caminhos e a estrada real, traado ao lado esquerdo do rio Acaracul, at ao mar, Eram pedaos da multido, varrida dos lares pelo flagelo, encalhando no lento percurso da ttrica viagem atravs do serto tostado, como terra de maldio ferida pela ira de Deus; esqulidas criaturas de aspecto horripilante, esqueletos automticos dentro de fantsticos trajes, rendilhados de trapos srdidos, de uma sujidade nauseante, empapados de sangue purulento das lceras, que lhes carcomiam a pele, at descobrirem os ossos, nas articulaes deformadas. E o cu lmpido, sereno, de um azul doce de lquida safira, sem uma nuvem mensageira de esperana, vasculhado pela virao aquecida, ou intermitentes rodomoinhos a sublevarem bulces de p amarelo, envolvendo como um nimbo, a trgica procisso do xodo.

Luzia viera na enxurrada, marchando, lentamente, a curtas jornadas, e fora forada a esbarrar na cidade, por j no poder conduzir a me doente. Do capito Francisco Maral, o homem mais popular da terra, to procurado padrinho, que contratara com o vigrio pagar-lhe uma quantia certa, todos os anos, por esprtulas dos batizados, obtivera, por felicidade, uma casinha velha e desaprumada, onde se aboletou com relativo conforto. A vida lhe correu bem durante seis meses. Havia trabalho e ela ganhava o suficiente para se prover quase com fartura, Mas o corao pressentia, ento, com vago terror, o perigo das pretenses de Crapina e ela procurava, por todos os meios, evit-lo. Seu primeiro impulso, depois que lhe ele ousara falar em termos desabridos, foi anoitecer e no amanhecer; emigrar, confundir-se nas levas de famintos em busca das praias ubertosas, com os lagos povoados de curims, em cardumes assombrosos, os tabuleiros irrigados por orvalho abundante, cheios de plantaes, e confinando, em contraste consolador, com a plancie seca e estorricada.

Alm se desdobrava o grande, o soberbo mar infindo e glauco, a rugir lamentoso, despejando, envolta em rendas de espuma, a generosa esmola de peixes, moluscos e crustceos saborosos. Com a proteo de Maria Santssima venceria a travessia. Vinte lguas galgam-se depressa. Talvez tombasse, como os mseros, cujas ossadas alvejantes, descarnadas pelos urubus e marcars, iam marcando o caminho das vtimas da calamidade.

E a me, a querida mezinha, que era o seu tudo neste mundo? No era possvel abandon-la a cuidados estranhos, doente, quase entrevada, como estava, a deitar a alma pela boca, quando a acometia o implacvel puxado. Os brincos e o cordo de ouro, que lhe dera a madrinha, vendidos aos mascates da misria, no dariam com que pagar o transporte da pobre velha em carroas puxadas por homens atrelados dois a dois, como animais de tiro. Era esse, naquela quadra de infortnio, o veculo das famlias abastadas, que j no possuam cavalos e muares de carga e montaria.

Nessa triste conjuno, venceu o dever. Luzia ficou resoluta a enfrentar, de nimo sereno, o destino, e aparelhada para suportar os mais dolorosos lances da adversidade. Continuaria a trabalhar sem desfalecimento, retraindo-se quanto pudesse para evitar encontros com o importuno soldado. Por fortuna sua, Alexandre, o amigo dedicado e afetuoso, que se lhe deparara entre a multido de desconhecidos e indiferentes, moo de maneiras brandas, muito paciente, muito carinhoso, com a tia Zefa, passando seres, noites em claro junto dela e da filha, num recato de adorao muda e casta, lhe poupava o vexame de ir  cidade: era ele que ia ao mercado comprar a quarta de carne fresca para o caldo da enferma, os remdios e consultar o mdico, mister em que era auxiliado pelo Raulino, outro amigo da famlia.

Uma tarde, ao voltarem juntos da obra, Alexandre, impressionado pelo tom de penosa preocupao bem acentuado no semblante de Luzia, disse-lhe a medo:

- Se a senhora no se zangasse, eu acabava com essa reinao, dando um ensino ao Crapina ...

- No quero  retorquiu Luzia vivamente  No tenho medo daquele miservel, mas no desejo dar nas vistas dessa gente desabusada. Depois que ho de dizer? ... Voc no  nada meu para tomar dores por mim ... Aquilo no tem entranhas de cristo:  um malfazejo ...

Alexandre sentiu-se humilhado, supondo que a moa desconfiasse do seu valor, e, continuou com brandura tmida:

- No seria a primeira vez ... No sou nada seu, mas sou um homem capaz de jogar a vida em defesa de uma mulher de bem. Pensei que no se agravaria comigo ...

- Agravar-me?! ... No pensei nisso. No quero que se sacrifique por mim, que j muito lhe devo  favores que s Deus pagar. Imagine a briga de dois homens, pancadas, ferimentos, um crime e o meu nome detestado passando de boca em boca., Luzia-Homem causadora de tudo... No quero, no. Faa de conta que aquele mal-encarado homem no existe ... No tenha receio, Alexandre, eu sei defender-me. De mais a mais. .. tudo passa ...

Luzia confiava na ausncia, me do esquecimento, para conjurar o perigo; entretanto, um ms depois, recebeu uma carta de Crapina, transbordante de frases de amor, em prosa e verso  protestos lnguidos e trovas populares, escritas em pssima letra sobre papel de cercadura rendilhada, tendo, no ngulo superior,  esquerda, um corao em relevo, crivado de setas, desfechadas por travessos Cupidinhos alados. E leu-a com assombro e clera, como se as letras disformes, enfileiradas em tortuosas linhas, e o pensamento sensual nelas expressado, lhe vergastassem cruelmente o rosto.

- Este homem ser o causador da minha desgraa - murmurou ela com um soluce de pranto sufocado.

- Que tens, filha?  inquiriu a me...  Ests to alterada? ... Que houve?

- Nada, mezinha  respondeu Luzia, disfarando a emoo que a conturbava   este labutar constante, sem esperana de melhoria, e a sua doena que me apertam o corao ...

- Tu me encobres alguma coisa. Ests afrontada?

O peito de Luzia arfava descompassado, e seus rijos seios espetavam, em sacudidos golpes trmulos, a delgada camisa.

- Tenho ouvido dizer  continuou ela  que banhos salgados so bons para reumatismo. Se pudesse lev-la para as praias... Bastava chegarmos com vida  Barra. Da para os Patos  um pulo. Ficaramos acostados  gente do meu padrinho Jos Frederico, que  rico e bom para os pobres.

- Tenho medo... Nunca vi o mar. Dizem que  bonito, perigo e traioeiro. Inda que fosse essa viagem a salvao. Como queres que me mexa? No vs? Estou impossibilitada de andar neste quarto, quanto mais para fazer a travessia deste serto inclemente! ... Ai! ... Deus no quer, filha. So os meus pecados, que me encaranguejam as pernas. J fiz uma promessa a So Francisco das Chagas de Canind para que ele me pusesse em estado de caminhar com os meus ps; e... nada ... Cada vez mais me incham as juntas e se me entortam os ossos. . .

Subjugada pelo impossvel evidente, inelutvel, a moa estraalhou com as unhas pontudas a carta fatal. A me tinha razo. Deus no queria. Era foroso ficar, amarrada quele poste de amor e sacrifcio, onde morria, em lento martrio, a me adorada, arrostar o perigo pressentido, o acinte da paixo do lbrico soldado. Era formoso ficar exposta ao insulto daquela atrevida e grosseira insistncia repugnante; e sucumbir, talvez, assoberbada de vilipndio e ultrajada como as outras desditosas, arrastadas pela misria  crpula abjeta.

Sob os msculos poderosos de Luzia-Homem estava a mulher tmida e frgil, afogada no sofrimento que no transbordava em pranto, e s irradiava, em chispas fulvas, nos grandes olhos de luminosa trevas





IV



Quando lhe serenou o nimo atribulado, teve mpetos de repelir o insulto com represlias violentas, castigando, ela mesma, o insolente, custasse-lhe isto, embora, muita vergonha, muito oprbio, ou procurar auxilio na dedicao cega de Alexandre, com a qual sabia poder contar para a vida e para a morte; mas, demoveram-na desse passo, ponderaes das conseqncias de escndalo, um crime possvel e a punico. No queria arriscar o moo, cuja alma impetuosa e forte, parecia adormecida sob aparncias de mansido e doura, como a lmina de uma faca acenada, escondida em bainha de veludo. Raulino era demasiado ardente; tinha o corao na goela e seria capaz de estripulias graves. Demais, por lhe haver catado valioso servio, pareceria exigir a paga com o apelo ao seu concurso. Alm desses, no tinha um corao amigo onde fosse haurir conselho e procurar o inefvel alvio da confidncia, vlvula benfica para o escoamento das mgoas, pesares e desgostos. As moas da mesma idade, ainda no contaminadas pelo vrus pecaminoso, que empestava o ambiente, evitavam-na com maneiras tmidas, discreto acanhamento, como no fossem iguais na condio e infortnio. Muitas se afastavam dela, da orgulhosa e seca Luzia-Homem com secreto terror, e lhe faziam a furto figas e cruzes. Mulher que tinha buo de rapaz, pernas e braos forrados de pelcia crespa e entonos de fora, com ares varonis, uma virago, avessa a homens, devera ser um desses erros da natureza, marcados com o estigma dos desvios monstruosos do ventre maldito que os concebera. Desgraa que lhe acontecesse no seria lamentada; ningum se apiedaria dela, que mais se diria um rprobo, abandonado, separado pela cerca de espinhos da ironia malquerente, em redor da qual girava o povilhu feroz a lapid-la com chacotas, dictros e remoques. Tal se lhe figurava, atravs dos exageros pessimistas, a sua triste situao.

Uma vez, estando ela a banhar-se, depois de cheio o grande pote, na cacimba aberta no leito de areia do rio, em stio distante dos caminhos e aguadas mais freqentadas, surpreendeu-a Teresinha, a rapariga branca e alourada, bem-parecida de cara e bem-feita de corpo, que era flexvel como um junco, de sbrias carnaes e contornos graciosos.

Estava ainda longe o dia. As barras apenas despontavam no levante em plido claro e alguns farrapos de nuvens rubescentes. Exposta  bafagem da madrugada, Luzia de p, em plena nudez, entornava sobre a cabea cuicas d'gua que lhe escorria pelo corpo reluzente, um primor de linhas vigorosas, como pintava a superstio do povo o das mes-d'gua lendrias, estremecendo em arrepios  lquida carcia, e abrigado em manto da espessa cabeleira anelada que lhe tocava os finos tornozelos. Ao perceber desenhar-se no lusco-fusco da nebrina matinal, j perto, o vulto da moa a contempl-la, soltou um grito de espanto e agachou-se, cruzando os braos sobre os seios.

- No tenha receio, sa Luzia. Sou eu - disse Teresinha, atirando o pote sobre a areia  Vim tambm lavar-me com a fresca.  to bom, neste tempo de calor, poder molhar o corpo...

- D-me a camisa por favor - suplicou Luzia, transida de pejo, apontando para a roupa amontoada.

Teresinha no despregava dela os olhos, em xtase de admirativa curiosidade. Deu-lhe a roupa, e, despindo-se sem o menor resguarde, banhou-se rapidamente.

- Voc tem vergonha de outra mulher, Luzia? Eu, no. No sou torta, nem aleijada, graas a Deus ...

Vestida a camisa que se lhe amoldou ao corpo molhado, como leve tnica de esttua, Luzia no ousava erguer os olhos, to confusa e perturbada estava.

- Agora sou sua defensora  continuou a outra torcendo os cabelos ensopados  Hei de punir por voc em toda parte, porque vi com os meus olhos que  uma mulher como eu, e que mulhero! ... Sabe? Outro dia estava numa roda conversando sobre moas que no h nenhuma honrada para aquelas lnguas danadas, Falou-se de voc e o Crapina, que estava ouvindo, disse que, por bem ou por mal, lhe havia de tirar a teima.

- O Crapina? - exclamou Luzia com irrepressvel terror.

- Sim. Aquele infame soldado, muito metido e apresentado, que anda perseguindo a gente.  um gabola para quem no h mulher sria. No se fie daquele malvado. Conheo muitas que ele desgraou com partes de promessa de casamento; e no teve coragem de dar-lhe um pedao de pano para fazer uma saia. A mim andou ele a afrontar com o anelo de ouro que traz no dedo, como isca para as tolas. Eu no sou mais moa, confesso a minha desgraa, mas no me sujo com semelhante desalmado.

Luzia ouvia calada, com os olhos fitos na cacimba, onde a gua marejava lentamente.

- Dizem que  criminoso. Muito provocante e atrevido, outro dia quase teve uma pega com o Alexandre por causa de umas liberdades, que quis tomar com a Quinotinha.. No foi por cime que o outro avanou em defesa da menina, uma criana inocente, coitadinha, que ainda no desceu o embainhado da saia. S visto se acredita. Era preciso ter cabelos no corao para fazer o que ele fez e ter sangue de barata para suportar tamanho desaforo.

- Ento o Alexandre?! ... 

- Avanou para ele que nem uma fera, e o cabra ficou branco como um defunto. Todo o homem de ms entranhas,  traio, , cascavel, mas, peito a peito,  medroso. Alexandre j andava com ele de olho por sua causa ...

- Por mim?

- Ora, eu sei que ele gosta de voc, mas no tem coragem de se declarar. Olhe, minha camarada, procurando com uma vela acesa, no encontrar homem de bem igual a ele.  pessoa de considerao e procedente de boa famlia. Dizem que deixou moradas de casa e uma fazenda nos Crates; mas essa desgraa da seca acabou com tudo e o obrigou a andar trabalhando para arranjar um bocado para comer ... Ah! tambm eu j tive muito de meu e agora vivo nesta misria. Quando sa de casa com o Cazuza, meus pais, graas a Deus, ainda possuam muita farinha, muito milho e muito arroz, na despensa, no falando nas matalotagens. Depois, andamos vagando pelo serto como casados, at que o perdi. Morreu de bexigas, o pobre ... Eu sara de casa com a roupa do corpo. Vi-me sozinha no mundo, sem ter com que comprar uma tigela de feijo ... Fiz ento, o que me mandou a minha ruim cabea... E por aqui ando como um molambo, sem uma criatura que se doa de mim... Ainda hei de contar-lhe a minha vida.

Teresinha limpou os olhos com as costas da mo, e suspirou. Sentada, em desalinho, traava na areia mida, figuras cabalsticas, entremeados de letras que logo apagava, como se simbolizassem importunas e saudosas recordaes da felicidade, para sempre perdida.

A cacimba transbordava. Os potes estavam cheios. Luzia torcia em rodilha um trapo de antiga toalha, para equilibrar o seu sobre a cabea, esperando que Teresinha lhe restitusse a cuia com que se banhava.

Nisto ouviram vozes e tropel humanos. Teresinha vestiu-se s pressas. Era o triste cortejo da faxina diria da cadeia. Dous presos, ligados pelo pescoo por comprida corrente de ferro, carregavam pendurada de um caibro, polido pelo uso, a grande cuba contendo os dejetos da vspera, para despej-los, longe da cidade,  margem do rio, nas vazantes onde, em tempos prsperos, medraram meles e melancias. Acompanhava-os uma escolta de soldados, da qual se destacou Crapina, que se dirigiu s duas moas com maneiras de afetada severidade.

- Ento, suas vadias! Esto a sujar a gua que a gente bebe? ... Corja de porcas... estas retirantes ... Ai, Jesus! ... No tinha reparado na sa dona Luzia, milagrosa santa dos meus olhos pecadores...

- Deixe a gente sossegada, seu Crapina  atalhou Teresinha.

Siga o seu caminho e no se importe com o que no  da sua conta...

- No estou falando contigo, tbua de bater roupa. O meu negcio  com esta feiticeira soberba que furtou meu corao...

- Voc diz isto  replicou Teresinha   por estarmos aqui sozinhas. Soldado relaxado...

- Olha  retrucou Crapina enfurecido  Toma a bno ao furriel que est ali na escolta. Se eu no estivesse de servio te ensinava quem  relaxado, cachorra....

- Cachorra  tua me, cabra safado...

A esta injria Crapina cerrou os punhos, num gesto bruto de ameaa; mas ,  chamada do furriel, teve de partir, dirigindo  moa uma praga obscena.

- Deixa estar que me pagars. Esta no caiu no cho.

Voltando depois para Luzia, trmula e confusa, inanida de surpresa e vergonha, acrescentou, requebrando os olhos congestionados: 

- Adeus, meu bem ... Tenha pena de seu mulato... Me responda; faa uma fezinha para me consolar o peito, sua ingrata... Ai, ai, corao!...

Luzia continuava a preparar, automaticamente, a rodilha, no ousando, erguer os olhos para o sinistro homem.

- O demnio te carregue, peste  resmungou Teresinha quando Crapina se reuniu  escolta  Tu s prestas para carregar porcaria de preso. Por estas e outras  que eu no ando de mos abanando. Era encrespar-se para mim aquele excomungado, metia-lhe no bucho este canivete at o cabo.. .

- E tinha corarem? - perguntou Luzia encarando na franzina moa e na fina lmina da arma, que ela trazia oculta no cs da saia.

- Ora, ora, ora! ... Fisgava-o sem d nem compaixo. No me importava de ser presa, nem tenho a vida para negcio ... desgraa por desgraa... Ah! minha camarada, j sofri tudo de ruim deste mundo; passei por vexames e desgostos... S lhe contando isso por mido ... Deixe estar que os desaforos daquele cabra miservel no caram no cho. Paga-me mais cedo ou mais tarde, to certo como chamar-me Teresa de Jesus...

- Ferir, matar um homem! ... Seria horrvel.

- Qual horrvel, qual nada. J vi gente morrer  minha vista. No foi uma nem duas criaturas. Tivera eu a sua fora, no precisaria de arma: quebrava-lhe a cara safada que ficaria a panos de vinagre. Quando ele me dissesse alguma liberdade, dava-lhe tamanho tabefe...

- Vamos que so quase horas de ir para a obra... Ah! nem me lembrava que hoje  dia santo. .. Esta minha cabea...

- Olhe para mim, Luzia; mire-se no meu espelho Eu j lhe quero bem, como parente minha, por isso falo-lhe assim. Veja como estou pagando os meus pecados; veja a minha desgraa e a quanto estou sujeita...

-  pena, voc, uma moa branca, andar assim na vida ...

O cu plido clareava, e a aurora, que irrompia, punha nas coisas o rbido fulgor das suas pompas. Ranchos de mulheres e de meninos macilentos se endireitavam  cacimba; e, falando e rindo, os pequenos, quase nus, sacudidos por quintos de tosse rouca, levavam grandes cabaas para colherem o precioso lquido, ainda nas entranhas da terra ressequida e flagelada.





V



Mal restabelecida da comoo do encontro com Crapina, Luzia sentia-se humilhada pelos grosseiros galanteios que ele lhe dirigira sem o menor rebuo, com desabrida petulncia e desenvoltura sensual, como se ela fora uma dessas desgraadas, cujo acesso no  j resguardado pelo prestgio da virtude. Pouco atenciosa  incessante tagarelice de Teresinha, e remordida pela afronta, meditava na turra de Alexandre com o soldado, persuadida de que a defesa de Quinotinha fora o pretexto para a exploso do dio latente. Seu corao estremecia, vacilante,  idia de um conflito entre os dois homens, e o jbilo de sentir-se amparada por dedicao superior a todos os sacrifcios.

E flutuava nesse consolador eflvio de reconhecimento, arrebatada  regio dos sonhos, das coisas ideais, sobranceiras ao plago da tristeza e sofrimentos humanos.

Quando chegou a casa, e deps o grande pote sobre as trs garras de uma forquilha de sabi, fincada no solo, a me, sentada  rede armada a um canto do quarto, gemia,  surdina, em atitude de vtima resignada ao martrio da implacvel molstia. 

- Sua bno, mezinha?

- Bno de Deus, filha. Vens to cansada. Teimas em carregar gua nessa jarra... Ests a botar a alma pela boca...

- No  o peso do pote ... So pesares...

- Hoje  dia santo. Achava bom ires  missa ...

- J fiz as minhas oraes, mezinha. O meu lugar - Deus me perdoe -  aqui a seu lado, tratando-a, a ver se podemos deixar	logo esta terra.

- O qu!! ... A terra no tem culpa do que padecemos. Admira de pensares ainda em semelhante coisa. Desengana-te, filhinha da minha alma. Havemos de ficar e talvez morrermos aqui, quando Deus for servido ...

- Tambm, mezinha, no faz caso dos remdios, que tm custado um dinheiro. Se tomasse de verdade os da receita do doutor Helvcio... Olhe ele quase sarou a me da Grabina. Muito mais doente e com molstia ruim, teria ficado boa, se no se metesse com meizinhas e feitiarias ensinadas. Pelo menos conseguiu viver muito...

- Porque a hora no era chegada.

- S queria que melhorasse. Era capaz de carreg-la nas costas, como criana de peito, at  Barra. Tenho visto mulheres, mais franzinas que eu, conduzindo ao colo filhos crescidos, quais rapazes, doentes, ou meio mortos. Tenho f em Deus que me dobraria as foras para fazermos, em paz e salvamento, a viagem. Depois Alexandre havia de ir conosco e nos ajudaria, ao menos, carregando os nossos terns ... Pensar que em cinco dias poderamos estar na praia, livres deste inferno ...

Enquanto tentava demover a me a empreender a viagem, a moa torcia as madeixas dos fartos cabelos negros, embebidos d'gua, at secarem  presso de suas mos, mos delicadas de mestia, pequeninas e elegantes. Enrolado no alto da cabea o cabelo, que ela tratava carinhosamente, passou aos cuidados domsticos matinais: atiar o fogo, preparar o caf e uma sopa com grandes bolachas duras, quebradas em pedaos midos.

Nisto ouviu um forte silvo de fadiga. Era Alexandre que chegava, trazendo provises em um uru, funda bolsa de malha tecida com palhas de carnaba.

- Bom dia, sa Luzia. Como passou tia Zefinha? - disse em tom prazenteiro.

- Deus te abenoe, meu filho! - gemeu a velha com esforo. 

- Passei por uma madorra; mas,  primeira cantada dos galos, despertei e no houve meio de tornar a pegar no sono.

- Que h de novo?  inquiriu Luzia.

- Ouvi estarem falando, na casa da Comisso, que o doutor Jos Jlio deu ordem para facilitar a sada do povo. Quem quiser embarcar deve procurar a Barra ou o Camocim, onde h vapores para conduzir a gente. Quem quiser ficar tem trabalho na estrada de ferro e nos audes. Mas, assim mesmo, no se pode dar vencimento ao potici de povo, que vem derramado por esse serto a fora. Disse-me o capito Maral que vo principiar as obras do cemitrio novo e da estrada para a Meruoca. J esto engenheiros medindo a ladeira da Mata-Fresca. Era o caso de irmos nos trabalhar na fresca da serra, onde ainda h olhos-d'gua vivos. Pelo meu gosto j no estava mais aqui.

- Quem impede?  perguntou Luzia, ocupada em dar a sopa  me.

- Ningum  respondeu Alexandre surpreendido pela inesperada pergunta, feita em tom de indiferena. Ningum, nada me impede... Mas a gente nem sempre faz o que quer. Muita vez a cabea vira para um lado e o corao para outro. Quando morreu minha me e vi-me s no mundo, estive em termos de assentar praa, porque quando um homem  soldado vira outro, fecha a alma e no se pertence mais. Estava maginando nisso, em me afastar da terra da sepultura, onde descansava a minha defunta velhinha, quando topei com voc, sa Luzia, servindo no trabalho da cadeia. Por sinal que, nessa ocasio, lembra-se? a maltratavam. Era uma canzoada de mulheres e meninos, gritando: Olha a Luzia-Homem, a macho e fmea! O povo todo corria de morro baixo e eu tambm fui ver o que era. Voc vinha subindo, trazendo nos braos Raulino Uchoa, quase morto, ensangentado e coberto de poeira. Contou-me, ento, o Antonio Sieba, pai daquela moa bonita, que canta como um canrio, o que se havia passado. O Raulino apostara derribar, a toda a carreira, um boi pelo rabo. Na verdade o homem corria como um veado e, era pegar na saia da rs e vir-la, na poeira, de pernas para o ar; mas, naquele dia, foi caipora; falseou-lhe o p; o boi voltou-se como um gato e mataria o pobre diabo se, dentre o povo, que disparava espantado, no surgisse uma moa afoita e destemida que agarrou o bicho pelas galhadas e o sujicou que nem um cabrito.

- No valia a pena lembrar isso.

- O capito Joo Braga, aquele corao de oiro, mandou recolher o ferido  casa da administrao; e, voltando-se para mim, disse-me: Seu Alexandre aliste esta moa para trabalhar e d-lhe cinco mil ris como molhadura pelo ato de coragem. Voc no quis receber o dinheiro. Ficou at meia estomagada..

- Por fora ... Eu no devia receber pagamento pelo que fiz por caridade.

- Eu tomei por soberba. Cem anos que viva, terei sempre diante dos olhos e do pensamento, a sua figura, de cabelos soltos, rompendo a multido, com o Raulino nos braos, como se fora uma criana. Lembrava-me um registo do Anjo da Guarda, levando a alma de um inocente para o cu.

Luzia ouvia-o complacente e admirada, porque Alexandre, de ordinrio to retrado e acanhado, estava, nesse dia, expansivo, e loquaz.

- Desde, ento  continuou ele  no pensei mais em assentar praa, nem abandonar esta terra. Quando sube que tinha me e conheci a tia Zefinha, meu corao se abriu consolado, como se houvesse ressuscitado a minha defunta me, que Deus haja em glria.

Voc hoje  Observou a velha, amparando da luz os embaciados olhos, com as mos, trmulas e mirradas  trouxe o uru cheio! ...

- O pobre tem seu dia...

E afastou-se para entregar as compras a Luzia, esvaziando o uru que deixara sobre o jirau do alpendre.

- Aqui tem uma libra de carne fresca e um corredor, uma quarta de toicinho, afora a rao do governo. A farinha  meia grossa, mas tem muita goma.

- Ningum dir, com semelhante fartura,  gracejou Luzia  que somos retirantes.

- Agora  disse-lhe Alexandre, baixando a voz, tmido e comovido  tenho uma coisa para voc; um mimo que me trouxe um camarada meu da Meruoca.

E tirou do bolso interior da jaqueta de brim pardo uma laranja, onde estava plantado um cacho de cravos sanguneos e cheirosos.

Aqueceu-se o rosto moreno de Luzia, como inundado de um fluxo de sangue abrasado. Seus olhos negros brilharam em fugaz eflvio de prazer fitando-se no fruto e nas rubras flores sensuais, preciosas jias da natureza avara naquela quadra de desolao. Ela as tomou a duas mos, meigamente; hauriu com voluptuoso anseio o perfume dos cravos; e, mal articulando as palavras, dirigiu-se  me:

- Aqui tem, mezinha, um presente de Alexandre. Tome a laranja; eu fico com os cravos. Que bonitos!...

E, com gestos de casquilhice infantil, cravou-os nas ondas do cabelo. Depois, voltando-se para Alexandre, que no ousava contempl-la, lhe disse  puridade:

-	Muito agradecida. Mas ... estou zangada com voc ...

-	Comigo! ? ...

-	Sim. Teresinha contou-me a sua briga com Crapina.

- No houve nada. Juro-lhe  f de Deus! Estvamos na casa da Comisso: eu no meu lugar fazendo a relao da gente que era demais; ele, numa reinao, intimando com as mulheres. Chegou a Quinotinha em procura da rao do pai, que desmentira um p; e o desaforado entrou a bulir com ela at faz-la chorar. Aquilo foi me inchando no corao; perdi a pacincia, e no me pude conter. Meti os ps; cresci pra cima do cabra, e disse-lhe por aqui assim: "Se o senhor no respeita a farda para provocar uma menina inocente, h de respeitar um homem!..." Ele estremeceu; quis se endireitar pra mim, mas eu no o deixei esfriar, e acrescentei: "Uma pouca vergonha que a gente no se atreve... Tamanho homem e, de mais a mais, soldado, andar aqui todos os dias, que Deus d, com desaforos, at com meninas donzelas! Fique sabendo que no me mete medo; no me vou queixar ao sargento Carneviva, nem ao Comandante!..." O mulherio abriu em roda; e o Crapina, vendo que eu estava decidido para o que desse e viesse, murchou; ficou fulo de raiva e foi saindo, l ele, por estas palavras: "Est bom! No quero baticum de boca comigo..." E o povaru caiu em cima dele com dictrios que faziam uma zoada doida: - Olha o valento! ... Meteu o rabo entre as pernas!... Cabra frouxo!... Vi que ele ficou danado, mas, nem como coisa, continuei sossegado o meu servio. Quando o capito Jos Silvestre soube do caso, disse-me que eu tinha feito muito bem.

- Que tinha voc de comprar briga ...

- A gente no faz essas coisas por querer. Quando d f est feito... Tal qual voc, quando tirou o Raulino debaixo do boi... O corao no se governa, nem pede licena. para bater...

- Mas voc j estava de ponta com ele ...

- Andava, falo a minha verdade. E no era para menos ver aquele safado, com partes de ser cangaceiro e criminoso, andar intimando com Deus e o mundo. Todo o gabola  mofino ...

- Faa-me um favor...

- Que no farei eu por voc, Luzia?...

- No se meta mais com a vida do Crapina ...

- Est dito!... Por essas e outras  que eu desejava trabalhar fora daqui...

- Ningum est livre de uma traio...

- Ah! Bem se v que ele tem cara de cascavel de tocaia...

- Evite; evite aquele homem, Alexandre... Eu lhe peo por alma de sua me...

- Juro!...  afirmou o moo, solene, erguendo-se e estendendo a destra, com um gesto resoluto e sincero.

- Confiem em Deus, minha gente  observou a velha, que do quarto os ouvia.

- No h mal que sempre dure. Ele  pai de misericrdia. H de ter pena de ns e desta terra...

- Se ns dois  disse Luzia, aps alguns momentos de meditao  botssemos mezinha numa rede e a carregssemos at a Barra do Acaracu?

- E tu a teimares, filha...

- Eu era muito homem para fazer isso  respondeu Alexandre  mas vinte lguas, lguas de beio, muito puxadas, por uma estrada de guas difceis e com esta soalheira!?...

Luzia no replicou.

- Mais fcil seria  continuou ele, irmos trabalhar na obra da ladeira. J estou com uma casinha de olho: a que fica quase defronte da Cova da Ona. Daqui at l levamos a tia Zefinha de um s flego...

- E ficaremos sozinhas naquelas brenhas?  ponderou Luzia.

- Se no levassem a mal eu ficaria morando com vocs... Sempre  bom ter homem em casa...

- E as ms lnguas?... Acha pouco o que j rosnam de ns? ...

- Ento no sei como h de ser... S se...

Alexandre estacou enleado, no ousando externar a idia que lhe ocorrera...

Recobrado o nimo, titubeou, a meia voz, trmulo quase comovido:

- S se... ns... nos casssemos...

Luzia surpreendida pela proposta. estremeceu, corando.

No mesmo instante, passava pelo terreiro, rente  casa, um magote de mulheres, com trajes domingueiros, grazinando em desbragada conversa.

- Que lhes dizia eu?... Vote!... J esto bem principiados no namoro!  exclamou uma delas indicando, com um gesto do mento, Luzia e Alexandre, transidos de pejo, como delinqentes apanhados em flagrante crime de amor.

O grupo desapareceu correndo e tagarelando, aos empurres e palmadas, com maneiras desenvoltas. Dominava o murmrio de risos e chacotas grosseiras, a gargalhada estridente e sarcstica de Romana, a lbrica, a rolia e quente cabocla de dentes pontiagudos.





VI

Setembro de 1878 ia em meados, e no apareciam no cu lmpido, de azul polido e luminoso, indcios de auspiciosa mudana de tempo. No se encastelavam no horizonte, os colossais flocos a estufarem como iriada espuma; nem, pela madrugada, cirros, penachos inflamados, ou, em pleno dia, nuvens pardacentas, esmagadas em torres.  noite, constelaes de rutilante esplendor tauxiavam o firmamento, e a lua percorria, melanclica, a silenciosa senda.

Como que se percebia no abismo do espao infindo, a eterna gestao do cosmos, operoso e fecundo, em flagrante criao de mundos novos. E, na gloriosa harmonia dos astros, na expanso soberba da vida universal, a terra cearense era a nota de contraste, um lamento de desespero, de esgotamento das derradeiras energias, porque o sol sedento lhe sorvera, em haustos de fogo, toda a seiva.

Olhares ansiosos procuravam, em vo, o fuzilar de relmpagos longnquos a pestanejarem no rumo do Piau, desvelando o perfil negro da Ibiapaba. Nada; nem o mais ligeiro prenncio das chuvas de caju.

O serto ressequido estava quase deserto: campos sem gados, povoaes abandonadas. E a constante, a implacvel ventania, varrendo o cu e a terra, entrava, silvando e rugindo, as casas vazias, como fera raivosa, faminta, buscando e rebuscando a presa, e fazendo, com pavoroso rudo, baterem as portas de encontro aos portais, num lamentoso tom de abandono.

As pastagens de reserva, nos ps de serras, protegidas por espessa facha de catingas impenetrveis, onde se criavam famosos barbates bravios, haviam sido devoradas ou estrudas e pesteadas pela acumulao de rebanhos em retiradas numerosas. E,  grande distncia, sentia-se o fedor dos campos inficionados por milhares de corpos de reses em decomposio.

No havia mais esperana. Os horscopos populares aceitos pela crendice, como infalveis: a experincia de Santa Luzia, as indicaes do Lunrio Perptuo e a tradio conservada pelos velhos mais atilados, eram negativas, e afirmavam uma seca pior que a de 1825, de sinistra impresso na memria dos sertanejos, pois olhos-d'gua, mananciais que nunca haviam estancado, j no merejavam.

Os socorros, distribudos pelo Governo, no pcdiam chegar aos centros afastados, por falta de conduo, ou eram os comboios de vveres assaltados por bandos de famintos, malfeitores e bandidos, organizados em legies de famosos cangaceiros.

Em to aflitiva conjuno, era natural que os retirantes, por instinto de conservao, procurassem o litoral, e abandonassem o serto querido, onde nada mais tinham que perder; onde j no podiam ganhar a vida, porque  misria precedera o fatal cortejo de molstias infecciosas, competindo com a fome e a sede na terrvel faina de destruio.

Luzia encontrara em Sobral, abrigo e fceis meios de subsistncia; mas pressentia iminente perigo do capricho ou paixo brutal de Crapina. Era foroso procurar outro refgio, e por isso espreitava, ansiosa, os mais ligeiros sintomas da molstia da me, sinais de melhora, para empreenderem a anelada viagem aonde a distncia a preservasse dos contnuos sustos e vexames afrontosos. No confiava no projeto de mudana para a ladeira da Mata-Fresca, dependente de condio, que no resolvera ainda aceitar, alm de que ficaria a duas lguas, apenas, da cidade.

J no ia, diariamente, ao trabalho. Ficava em casa, tratando com desvelado carinho, a pobre me, cada vez mais trpega. Felizmente, o capito Joo Braga lhe abonava as raes, e Alexandre no se descuidava de repartir com elas, quanto ganhava, apesar da relutante recusa, oposta  sua espontnea generosidade. Ele vivia folgadamente, porque passara de apontador a fiel do armazm, onde havia grande depsito de mantimentos e todos os valores do almoxarifado. Tinha de mais para si, e doa-lhe no corao no poder aliviar as necessidades dos pobres, seus companheiros de infortnio.

Um dia, pela manh, encontrou Luzia desanimada: a me passara mal a noite, inquieta, afrontada, como se lhe apertassem o peito ou no houvesse bastante ar respirvel no estreito quarto.

- Deus no quer, filha  dizia a velha com o seio ofegante e mal articulando as palavras  Deus no quer... Seja feita a sua ... santa... vontade...

- Mezinha tem tido isto tantas vezes  ponderava Luzia, afetando serenidade  Isto  puxado... Cheire este frasco...

- Parece que tenho ar encausado... aqui... Olha, sinto uma bola... qualquer coisa que me tapa o flego. Abre bem a porta... Abana-me... Se eu tomasse o vomitrio de papaconha...

- Corno est, tia Zefinha?  inquiriu Alexandre, chegando  porta do quarto.

- Como quem est se acabando... Ai Jesus!... Que aflio!...

- Por que no toma aquela garrafa que o doutor receitou?...

- Tenho medo...Disse-me a Chica Serid que tem veneno... doreto...

- Ento ela sabe mais que o doutor?!... Tome, experimente... 

- Ah, Alexandre; j pedi, roguei, no sei mais que fazer para mezinha tomar a receita  observou Luzia, quase em lgrimas.

- H de ser o que Deus for servido...

- Mas tome sempre, tia Zefinha. Faa-me esta vontade.  para seu bem...

- Enfim  concluiu a velha condescendendo  v l... No meu estado, s um milagre... No quero que voce diga que no o atendi antes de morrer...

E tomou uma colher da poo, administrada pela filha.

- Aqui est, na garrafa  disse Alexandre repetindo o que estava escrito no rtulo  uma colher das de sopa antes de cada refeio. Quando voltar do servio, quero encontrar vosmec aliviada. Adeus, Luzia! O sol j est alto. Vou andando... E eu que devia estar no armazm s seis em ponto...

Desde o dia em que foram alvo das chufas da malta de vadias, capitaneadas pela Romana, Alexandre apenas uma vez pedira a Luzia, com muitos rodeios e acanhamento, resposta  proposta de casamento. Ela, porm, nada lhe respondera, limitando-se a, com um gesto de desnimo, indicar-lhe a me, como se a doena dela fosse invencvel obstculo.

Ocultava ao moo, resignado, nutrido de esperanas, o haver recebido cartas de Crapina, qual mais apaixonada, qual mais recheada de expanses de amor, acrisolado pela resistncia; todas salpicadas de aluses iradas ao outro mais afortunado, e ameaas de no poder sofrear os estos de cime que o devoravam, ou de acabar com a prpria vida, porque para ele s havia Deus no cu e ela na terra.

Ao menino, que lhe levava as cartas, Luzia respondia invariavelmente: - Diga esse homem que me deixe sossegada, que no se meta com a minha vida! Mas, por um impulso de curiosidade, muito humano e sobretudo muito feminino, tivera a fraqueza de l-las, o que ela considerava uma vergonha, seno crime injustificvel. Tambm no ousara contar a Alexandre que o soldado havia aparecido vrias vezes na residncia. Uma noite passava ele com o Belota e tivera o atrevimento de fazer-lhe uma serenata cantando  viola, quase no terreiro da casa, modinhas e canes erticas, que terminavam nesta saudosa endecha:



"Vou me embora, vou me embora,

Como fez a saracura;

Bateu asas, foi cantando:

Mal de amores no se cura!..."



Ouvindo-o, Luzia tremia de indignao e terror, suspirando de alvio, quando se sumiu ao longe, o pesqueiro batido, acompanhando a voz fanhosa de Belota, a cantar:



"Quem quiser ser bem-querido,

No se mostre afeioado, 

Que o afeto conhecido,

 sempre o mais desprezado."



- No sei como essa gente ainda tem coragem de cantar  gemia a velha Zefa   uma falta de corao...

Pouco depois da partida de Alexandre, prometendo voltar cedo com o doutor Helvcio Monte, surdiu o pequeno mensageiro com uma, carta, que deixou sobre o pilo, por ter Luzia recusado receb-la. Entretanto no pde ainda resistir  curiosidade, e reincidiu na culpa nefanda de abri-la. E leu:

"Minha Santa Luzia  Esta tem por fim unicamente, dizer-lhe que se h de arrepender da sua ingratido e quem lhe diz isto  o seu amante fiel at a morte  Crapina."

-  preciso acabar com isto, custe o que custar,  murmurou a moa inflamada de clera  Este malvado me h de desgraar...

Passou o dia preocupada, e procurando espairecer com desvelos  me, mais acalmada com a poo de iodureto de potssio, o venenoso remdio, que, na opinio da Serid, fazia apodrecerem os ossos, carem os dentes e pr o estmago em carne viva, quando seria mais eficaz a purga de mel de abelha e um emplastro de sabo da terra com um pinto pisado vivo; ou com o vomitrio de cardo-santo, ch de erva-doce para desempachar o ventre, e raiz de pega-pinto por causa da reteno de ourinas.

- Com esses remdios sarara a defunta Desidria  afirmava a feiticeira  que padecia de um puxado com apertos do corao e uma dor que lhe tomava o flego, respondia  l nela  nas cruzes e alastrava pelo brao esquerdo, que s vezes ficava esquecido. Vivera a enferma muito tempo, trabalhando como uma negra, apanhando sol e chuva; e, se no fora um ataque violento que no deu tempo para nada ainda estaria vivendo, com a graa de Deus. Remdio de botica havia levado muita gente desta para melhor vida.

Luzia inquietava-se com a demora de Alexandre, que era pontual  hora do jantar, servido sobre uma tosca mesa improvisada com uma tampa de caixo de pinho, apoiada em quatro forquilhas.

O sol descambava, deixando as cumeadas ridas da serra do Rosrio, quando apareceu Teresinha quase a correr e de semblante apavorado.

- Que foi?  perguntou Luzia sobressaltada  Que aconteceu? Que  do Alexandre?...

Teresinha tomou-lhe do brao, levou-a para fora do alpendre e disse-lhe, com voz sacudida de tristeza:

- Uma desgraa! ...

- Brigaram?  inquiriu Luzia ansiosa, encarando no semblante da moa ruiva para lhe aprender a misteriosa notcia.

- Imagina que eu voltava da obra e, quando dei por mim, foi com a gralhada de Romana, aplaudindo com as parceiras. Aquelas no-sei-que-diga riam como doidas varridas. Uma dizia: Foi bem feito! A outra resmungava: Bulir com o de-comer dos pobres!... Que misria!... Se fosse s feijo  grazinava a deslambida da Romana  meu Deus, perdoai-me... Passou as unhas no dinheiro. Quem havera de dizer  rosnava a Joana Cangati, aquela sirigaita, que tem o bucho cado  que aquele sonso...

- Mas... que aconteceu, mulher de Deus?

- Cheguei-me a elas e sube ento... Imagina como fiquei estatelada, e ca das nuvens quando me disseram que Alexandre estava preso...

- Preso!...  exclamou Luzia aterrada  Preso?! ... Preso por qu?...

- Foi o que perguntei. Ento a avoada da comeou a caoar: Ora o moo precisava preparar-se para o casrio; no teve dvidas; passou a mo...

- Mas...  mentira!...

- Eu tambm tenho Alexandre em conta de pessoa incapaz de se sujar com o alheio; mas a verdade  que foi preso e l est, na casa da Comisso, com o Delegado...

-  impossvel, Teresinha. Voc no acha que Alexandre  incapaz de tamanha misria?...

-  o que lhe estou dizendo, minha camarada. Est preso e no tem quem puna por ele: todos o acusam, porque tinha a chave do armazm; apareceu hoje fora de horas...

- Oh! Meu Deus! Era s o que faltava! Juro que  falso! Caia eu morta, se no tenho certeza do que digo.

E, dirigindo-se, firme e resoluta, ao quarto, abrigou-se no amplo lenol branco, dizendo  me, surpreendida pelos modos agitados. 

- Volto j, mezinha...  um instantinho ... Teresinha fica ...

Sem atender s observaes da velha, passou rpida ao alpendre, e suplicou:

- Voc faz companhia quela pobre... minha amiga. Faa-me esta esmola pelo amor de Deus...

- Que vai fazer?

- No sei ... Deixe-me ...

Com um movimento violento desvencilhou-se de Teresinha, que tentara det-la, e partiu em desvairada corrida.





VII

Alm da habitual aglomerao de retirantes na rua do Menino Deus,  porta do armazm da distribuio de, socorros, algo havia de extraordinrio, a julgar pelos modos assustadios, os olhares de maligna curiosidade do mulherio, que se acotovelava aos empuxes para observar o que se passava no interior, onde estavam reunidos os membros da Comisso, o delegado de polcia e o promotor pblico. Dois soldados, Belota e Cabecinha, guardavam a porta, com ordem de vetar a entrada a quem quer que fosse. Crapina girava entre o povilhu, contendo, com maus modos, os exaltados, que protestavam contra a demora da distribuio das raes, principalmente as mulheres que haviam deixado em casa filhos pequenos, sem um gro de farinha para fazer um mingau.

- Cessa rumor! Cambada  intimava Crapina, com a costumeira impostoria  Vocs ou ficam quietos e calados ou arribam daqui. Em fariscando comida, ficam logo assanhadas...

E continuava a ronda, sob um chuveiro de imprecaes e motejos, que a sua excessiva grosseria provocava.

Os cidados incumbidos pelo Governo da penosa tarefa de distribuir socorros, desempenhavam com excepcional e caridosa dedicao, os seus deveres, mantendo o mais escrupuloso zelo e probidade na administrao do servio. No houvera ainda um caso de muamba, coisa muito vulgar em outros centros de afluncia de retirantes, nos quais se explorava escandalosamente a misria, e se desviavam, para serem vendidos por excessivo preo, os vveres destinados aos infelizes famintos. Era, pois, natural que, ciosos de to honrosos precedentes, ficassem muito impressionados com o roubo de gneros e de duzentos mil ris em dinheiro, denunciado, naquela manh, pelo almoxarife.

A porta do armazm fora encontrada aberta, sem o menor vestgio de violncia, caixas com fazenda abertas e a gaveta que continha o dinheiro arrombada. Estavam bem patentes os indcios do crime, pegadas, do ladro impressas na poeira, pingos de velas de carnaba sobre as caixas e o instrumento, empregado para forar a gaveta, um grande formo de carpinteiro.

Quem seria o audacioso criminoso? O nome de Alexandre, pronunciado por lbios annimos, no meio da turba, foi logo envolvido pela sinistra atmosfera da suspeita. Ele guardava as chaves do armazm; era empregado de inteira confiana, conquistada pelo mais irrepreensvel procedimento, e os mais abonados precedentes; mas no se podia eximir da responsabilidade do fato, seno por desdia, por falta de vigilncia. Demais, naquele dia, ele sempre pontual, chegara tarde, notando-se-lhe no semblante profunda perturbao ao encontrar a porta aberta, e o almoxarife, que o interrogava com o olhar severo. No pudera, no primeiro momento, se justificar ou explicar as circunstncias que o denunciavam. Indicaes vagas, circulando na massa de retirantes, aludiam a fatos que davam corpo s suspeitas. Ele estava para casar; pretendia deixar a cidade; era bem possvel que a paixo por Luzia-Homem o alucinasse ao ponto de arrast-lo a tamanha desgraa. Por outro lado, alguns amigos que o no abandonaram na hora do infortnio, alegavam que, tendo as chaves, no necessitaria de deixar a porta aberta, apenas encostada, recorriam aos precedentes de porte ilibado, a doura de carter, maneiras de pessoa bem-ensinada e de boa procedncia.

Entre os pr e contra, prevaleceu o depoimento de Crapina, afirmando haver visto,  meia--noite, mais ou menos, um vulto com uma trouxa volumosa subir apressadamente a rua na direo da igreja. No jurava que fosse Alexandre, por no ter, em conscincia, absoluta certeza, e para que no dissessem que o acusava por andar enticado com ele; mas a verdade  que tinha o mesmo andar e a mesma estatura. No o perseguira por no lhe passar, ento, pela cabea, a idia de um crime to vil. Belota confirmava, em todas as mincias, a histria do camarada, protestando todavia, que, at  vspera, seria capaz de meter a mo no fogo por to bom moo; mas... a ocasio fazia o ladro...

Alexandre foi interrogado. Estava to abatido pela comoo, que fez declaraes incongruentes, contraditrias e inverossmeis, nem pde explicar, de modo plausvel, a demora. Acossado pelas questes da autoridade, limitava-se a protestar com voz angustiada:

- Juro que sou inocente, seu Delegado. Eu nunca me sujei com o alheio. Antes me secassem as mos e me faltasse a luz na hora da morte!

Continuava o interrogatrio, alis conduzido com imparcialidade complacente, quando a audincia fo interrompida por estranho rumor, gritos e imprecaes ameaadoras, estrugindo na rua. Aquecidas as faces pela fadiga da caminhada, os grandes olhos lampejantes de chispas fugitivas e o traje em desalinho, Luzia penetrou nos densos magotes humanos, que lhe embaraavam a passagem, com mpeto irresistvel; e foi abrindo larga brecha, afastando aos empurres homens e mulheres, sob uma saraivada de remoques, queixumes e improprios.

- Arreda, que l vem Luzia-Homem, como uma danada! ...

- Mulher do demnio, voc no enxerga a gente, sua bruta?! ...

- Esta excomungada est com o diabo no coiro!...

- Vote! malvada! ...

- Ficou como lacraia assanhada, por causa do macho...

Luzia era insensvel s queixas e insultos, foi avanando sem desfalecimento, sem hesitao. Ao enfrentar a porta, Belota pretendeu tolher-lhe o passo, mas foi repelido com possante e rpido movimento. Igual sorte tiveram Cabecinha e Crapina. Este lhe no ousou tocar, inanido por estranho terror. Surdiu, enfim, na sala, e parou indecisa, espantada por se achar entre pessoas notveis, aturdidas pela surpreendente invaso. Depois se dirigiu a Alexandre, que a contemplava estupefato, num misto de assombro e alvoroo.

- Que foi isto, seu Alexandre? ...

- Nada  respondeu ele, baixando os olhos  Um impute, que me fizeram ...

- Mas  falso!... No ?...

- Juro por alma da defunta minha me...

E grossas lgrimas lhe deslizaram pelas faces tostadas, embebendo-se na barba crespa e aloirada.

- Seja homem, Alexandre  disse-lhe ento a moa, com voz vibrante e enrgica  Deus  grande!... Quem no deve, no teme! ...

- Choro de vergonha, porque nunca me vi em semelhante desgraa...

Ela, animando Alexandre com a protetora carcia de um olhar inefvel, voltou-se resoluta e calma para os circunstantes. Do desalinho das roupas, o lenol pendido do brao a arrastar pelo cho, o cabeo de renda emoldurando o seio nu e palpitante, as desgrenhadas madeixas a lhe carem em ondulaes fulvas de serpentes negras; dos olhos, do gesto e da voz, um concerto de convico e firmeza, irradiava sobrenatural encanto, empolgando o auditrio, subjugado pela esplndida e fascinante exibio da fora e da beleza, harmonizadas naquela admirvel criatura.

- Sabero vossas senhorias  exclamou, em vibraes fortes e sonoras  que este homem no  nada meu!... Nem parentes somos, seno por Ado e Eva. Posso morrer sem confisso. Meu corpo no tem pechas, nem pecados a minh'alma...

E estendeu os braos, num gesto largo e franco de inocncia que se exibe:

- Entre essa gente maligna que faz pouco de mim, essa gente desalmada que me persegue, como se eu fora uma excomungada ou um bicho brabo, encontrei nele um amigo, um irmo; e hoje, abaixo de Deus,  ele quem me ajuda a sustentar os dias de minha me, entrevada dentro de uma rede. Estas noites temos passado juntos fazendo quarto  pobre velha que gemia com dores de fazer cortar corao. Hoje, de manhzinha, esteve l em casa e pedi-lhe que fosse procurar o doutor... Ah! meus senhores, at os bichos so agradecidos, quanto mais criaturas crists. E aqui est, em pura verdade, porque eu puno por ele e juro que est inocente...

- No temos provas  observou o Delegado  Por ora s h contra ele suspeitas, indcios...

- Ento por que o prenderam? Pois se envergonha um homem sem qu nem para qu, por um impute?...

Em benefcio dele; para apurar a verdade...

E se no conseguirem isso?  perguntou Luzia impaciente  Ficar preso toda a vida?!...

- No se aflija  ponderou o promotor, intervindo, e no intuito de amenizar a pungente cena  Sente-se, repouse. A senhora est muito exaltada, acalme ... Que estupendo tipo! Que formoso cabelo  observou  puridade, voltando-se para um dos comissrios.

Luzia reparou, ento, em seu desalinho, e sentiu um calefrio de pejo, como se a lambessem aqueles olhos que a fitavam com insistncia, olhos mortos de volpia. Colheu os cabelos, toda aflita e ruborizada; enrolou-os rapidamente, e os prendeu com um gesto gracioso no alto da cabea, e abrigou-se no lenol branco de babados de cambraia de salpicos.

- Donde  natural?  inquiriu o Promotor.

- Eu me chamo Luzia Maria da Conceio. Sou filha do Ipu. Meu pai, que Deus haja, era vaqueiro das Ipueiras do Major Pedro Ribeiro... Est ouvindo, seu doutor?

Ela aludia a gritos e gargalhadas do povilhu, bradando na rua: Luzia-Homem!... Metam ela na cadeia que se descobre tudo!.. Aviem os pobres que esto aqui esperando com fome!..

- Por que lhe deram essa alcunha?

- Eu lhe digo, seu doutor. Desde menina fui acostumada a andar vestida de homem para poder ajudar meu pai no servio. Pastorava o gado; cavava bebedores e cacimbas; vaquejava a cavalo com o defunto; fazia todo o servio da fazenda, at o de foice e machado na derrubada dos roados. S deixei de usar camisa e ceroula e andar encoirada, quando j era moa demais, ali por obra dos dezoito anos. Muita gente me tomava por homem de verdade. Depois meu pai, coitadinho, que era forte como um touro, e matava um bode taludo com um murro no cabeloiro, morreu de molstias, que apanhou na influncia da ambio de melhorar de sorte, na cavao de ouro no riacho do Jur. Da em diante, comeamos a desandar. Minha me, sempre muito doente, e ns duas muito pobres de tudo, menos da graa de Deus, vendemos as mias e cabeas de gado, que tiramos  sorte da produo da fazenda, os animais de campo e at o meu cavalo castanho-escuro, calado dos quatro ps e com uma estrela na testa ... o meu querido Temporal... Tudo isso para no morrermos de fome quando veio esta seca...

Soluos lhe embarcaram a voz, e desatou em copioso pranto.

- Sossegue moa  disse-lhe o Delegado compassivo  A sua sorte nos interessa. Est entre amigos de quem s deve esperar benefcio; mas ...  preciso ter pacincia. Alexandre tem por defesa os melhores precedentes e todos o abonam; entretanto  indispensvel que fique detido enquanto duram as diligncias do inqurito ...

- Preso?! ... No  possvel!  exclamou Luzia  Vossa senhoria no far tamanha injustia. Eu lhe peo por vida de seus filhinhos... Alexandre  inocente! ...

E rojou-se de joelhos, aos ps do Delegado.

- Tenha pacincia!  murmurou este comovido, e tentando ergu-la.

Luzia no se conformava com a horrvel idia da priso; e continuou a suplicar, muito condolente.

Alexandre j no podia suportar aquele espetculo, que lhe macerava a alma. Suspirou de alvio quando o Delegado mandou conduzi-lo; e, ao passar por ela, disse-lhe com firmeza:

- Tenha coragem. Cadeia no se fez para animais. Espero em Deus sair limpo desse impute que me levantaram ... V para junto da tia Zefa que eu me arranjo...

Tanto que o preso partiu escoltado pelos soldados Belota e Cabecinha, Crapina assomou na sala, mesmo em frente de Luzia, cujo olhar dolente acompanhava o moo e se fixava na porta por onde o levaram. A figura do soldado, detestvel de arrogncia triunfante, substituindo o preso, no campo da viso desvairada, interrompeu imediatamente a aniquiladora impresso de mgoa; e a moa, transformada por encanto, estremeceu num esto de dio, que lhe faiscou no olhar, como um corisco.

- Aqui est, seu doutor  exclamou ela, indicando o soldado, com um soberbo gesto de indignao  Aqui est o asa-negra que me persegue, pensando que eu sou da laia dele... Este homem me atormenta com malcriaes, com cartas... Espere... Tenho uma comigo...

E retirou do seio, de envolta com o cacho de cravos murchos, a ltima, carta de Crapina.

- Eis  continuou trmula de clera  a carta que este... no-sei-que-diga... me mandou hoje...

O Promotor tomou a carta; leu-a, sorriu-se e passou-a ao delegado, segredando-lhe:

- H, talvez, em tudo isso um drama de amor.,

- De pouca vergonha, seu doutor, atalhou Luzia  Ele devia saber que sou uma rapariga direita...

Depois de ler a carta, voltou-se o Delegado para o soldado, que at ento mantinha ares de basfia:

- Que quer dizer isto?...

- Saber vossa senhoria que no  nada...  balbuciou ele, sorrindo irnico.

- Nada!... Que significam as suas palavras de ameaa?...

-  um modo de falar para fazer medo e caoar com ela... Negcio de namoro...

- Namoro, seu atrevido... Pois o senhor fica responsabilizado por qualquer falta de respeito, ou tudo quanto suceder a esta moa...  Por causa disso  observou o escrivo Antnio Rufino   que ele foi removido da polcia do Curral do Aougue...

- Eu no quero fazer mal a ela, seu Delegado. De mais a mais no  crime a gente querer bem e pretender uma moa dessas...

- No admito observaes. Retire-se... Veja como se porta!...

Crapina fez continncia e deu meia volta, com inexcedvel garbo militar, lanando a Luzia sarcstico olhar de desafio.

- V descansada, moa  disse-lhe o Promotor, com meiguice  Sua me reclama os seus cuidados. Quanto a Alexandre, a justia empregar todos os meios e esforos possveis para descobrir o verdadeiro autor do delito. Estou persuadido que  inocente.

- Deus lhe pague, meu senhor... Deus lhe d sade e felicidade... Queira perdoar a minha ousadia... Fiquei fora de mim...  Suspirou ela, com lgrimas na voz.

E compondo as dobras do amplo lenol de mandapolo, saiu lentamente, desconsoladamente, acabrunhada de dor e vergonha.

O Promotor voltando-se, ento, para o Delegado e os Comissrios, ponderou:

- No ser esta carta um indcio precioso?... Na minha opinio, deve ser vigiado aquele soldado.





VIII



Teresinha informara a tia Zefa do caso de Alexandre, procurando, com tortuosas e vagas digresses, amortecer o choque demasiado rude, e substituir a filha ausente, preparando o caldo, ,ajudando a velha a mudar de posio, e convencendo-a de tomar o remdio, que tinha um sabor mau de azinhavre.

- Deus te pague  repetia a velha, fazendo uma careta de repugnncia e escarrando com rudo  e perdoe os teus pecados. Bem sabia que o teu corao  bom... Ai... o que te falta  cabea...

- A minha sina  que no foi boa...  observou a moa com requintes de ternura e meiguice  Se a gente pudesse adivinhar; se soubera o que me havia reservado quando sa de casa...

- E Luza que no volta!...

- Se no fossem os cuidados estaria melhor, porque o puxado vai passando...

-  o remdio... Tome outra vez...

- J estou encharcada de mezinha... Coitada da minha filha!...

- Descanse que ela no tarda a...

- Pobrezinha! ... O dia inteiro, com uma triste xcara de caf escoteiro.

Ao escurecer regressou Luzia. Vinha taciturna e triste, rendida de fadiga. Tomou a bnco  me; apertou Teresinha contra o seio, numa demorada e silenciosa expanso de reconhecimento, e deixou-se cair acocorada  soleira da porta do quarto, em postura de desnimo, os cotovelos fincados sobre os joelhos e a cabea apoiada nas mos.

- Seu de-comer  disse-lhe Teresinha  est guardado...

- No tenho fome...

- Ao menos uma xcara de caf...

- Deixa-me descansar.

- E Alexandre, filha?  inquiriu a velha plangente.

- Est preso!... Levaram-no para a cadeia como um mal-feitor...

- Diz-me o corao  atalhou Teresinha  que ele est penando injustamente... Mas... deixem estar que vou farejar o ladro... Conheo uma velha que faz a adivinhao da urupema e sabe rezar o respnsio de Santo Antnio. No h furto que no descubra. Uma coisa  ver, outra  dizer. Parece que tem parte com o co...Meu Deus perdoai-me...

- So abuses  murmurou a velha.

- Pois amanh cedo vou atrs dela, da Rosa Veado, que mora na Fortaleza, nos quartos da Lianor, e vosmec h de ver...

- Pode ir embora, Teresinha  disse-lhe Luzia, quebrando o longo silncio  Voc j fez muito por ns...

- Eu?!... Ai, gentes! Que grande incmodo!... Agora  que fico mesmo aqui ajudando. Durmo ali, na esteira, junto do jiral, ou em qualquer parte. Basta ter onde encostar a cabea...

E, acendendo fogo num cigarro de papel amarelo, continuou contando casos maravilhosos da feitiaria de Rosa Veado que, alm dessa habilidade, era insigne parteira, muito cuidadosa, muito feliz.

Teresinha ficou. Passou a. fazer parte da famlia pois no tinha nimo de abandonar as duas criaturas, repassadas de amargos sofrimentos, sozinhas naquela casa, sem uma alma condoda que as consolasse. Sabia quanto custava a privao sbita da companhia afetuosa de um ente querido; tinha a dolorosa experincia do abandono e das fatais conseqncias da orfandade do corao. Era quem cuidava da doente nas ausncias de Luzia, muito preocupada no andamento do inqurito sobre o roubo. s provises que, escassamente, chegariam para mant-las, ajuntava o pouco que podia conseguir: algumas gulodices, ovos, manteiga e acar, adquiridas por preos absurdos. Tomara a seu cargo os servios da casa, menos os braais, como rachar lenha e pilar caf, porque era aberta dos peitos cuspia sangue sempre que abusava dos seus delicados msculos.

Procurara, conto dissera, Rosa Veado para rezar o respnsio; esta, porm, exigira dinheiro para comprar duas velas para o santo, luz sagrada, indispensvel para o xito do sortilgio, circunstncia que ela no revelou a Luzia, por querer que o descobrimento do criminoso fosse devido, exclusivamente,  sua iniciativa.

Arguta rapariga, afeita ao contacto do vcio e do crime, a perceb-los por intuio, estava convencida da inocncia de Alexandre, e julgava obra de malvados, a infamante imputao.

- Ele no tem cara de ladro  dizia  Conheo pela pinta quem pega no alheio; e nunca me enganei... No se me dava de apostar... Enfim, no quero condenar a minha alma, levantando falso a ningum; mas... deixem estar que hei de desmascarar os safados, que no tm conscincia para fazerem sofrer um pobre...

As reticncias irritavam Luzia que, por sua vez, s pensava em deslindar o mistrio.

- Ah! Se eu tivesse dois mil ris!...  suspirou Teresinha.

- Para que queres dois mil ris?...

- Para uma coisa que s eu sei...

E passaram-se dias.

Da frugal comida Luzia separava, todos os dias, uma poro que levava a Alexandre. Apesar dos remoques de Belota e dos encontros com Crapina, ela cumpria, pontualmente, o dever de visitar o preso e conversava com ele alguns momentos, por entre as grades da cadeia, uma grande sala, no andar trreo da casa da Cmara, onde estavam empocilgados mais de cem homens.

Alexandre no se conformara com a promiscuidade entre criminosos dos mais abjetos. Havia ali assassinos, condenados a penas mximas, envelhecidos naquele recinto miasmtico; ladres que narravam, com repugnante bravata, faanhas deprimentes; moos impulsivos, culpados de crimes passionais, cometidos sob a influncia nefasta de paixes incoercveis, e alguns idiotas, manacos que apodreciam caquticos, rodos de molstias, vegetando, como plantas daninhas, conservados naquela srdida estufa de podrido e de vcio. No ambiente escuro da priso cruzavam-se redes em todas as direes, umas sobre outras, paralelas ou atravessadas, todas sujas e nauseabundas. A um canto estava o barril d'gua; noutro, a cuba do despejo; e, defronte do amplo porto, das quatro janelas largas, abertas para a praa, protegidas por dupla grade de grossos vergalhes de ferro, trabalhavam os sentenciados em sapatos, chapus de palha e obras de funileiro. Essas janelas eram o parlatrio e o balo dos negcios. Diante delas estavam, continuamente aglomerados, agentes de comrcio, ou pessoas da famlia, mulheres, mes, irms ou amantes dos reclusos no ergstulo fedorento e imundo, que a piedade dos Comissrios ia extinguir, construindo a penitenciria no morro do Curral do Aougue.

Dentro de dez dias de priso, Alexandre foi acometido de fortes dores de cabea e imensa fadiga fsica e moral. Privado de sol, a tez do rosto perdera o vivo colorido, fez-se plida e baa; a barba e os cabelos castanhos pareciam pardacentos como erva crestada, e os olhos amortecidos ,e encovaram nas rbitas rouxeadas. Toda a sua pele estava seca e fria, coberta de descamao esbranquiada, que lhe zebrava o corpo quando se coava. Queixou-se ao carcereiro, ao Juiz da priso, que era o Galucho, antigo cangaceiro, portador de um rosrio de crimes.

-  assim mesmo  respondeu-lhe o facnora  Nos primeiros tempos, a gente estranha; fica banzeira. Depois se acostuma. Estou aqui h dez anos; ainda me faltam quatro e pretendo, se Deus no mandar o contrrio, sair com foras para liquidar contas velhas. Olhe, moo, para essas dores de cabea s h um remdio: sair, pela manh, com a faxina...

Mas, a Alexandre repugnava o carregar a infecta cuba de resduos e secrees, ligado a um criminoso por comprida corrente de ferro, atada ao pescoo pela gargalheira, fechada a cadeado. Mil vezes a morte, intoxicado no ambiente meftico,  vida maculada pela infmia, que lhe custaria alguns momentos ao ar livre.

As noites infinitas, cruciantes, ele as passava encolhido perto de uma das janelas, o sono cortado pelos brados de alerta das sentinelas e contando as horas pelo sino do relgio da Matriz fronteira, at ao toque de alvorada, que lhe repercutia no corao, evocando a nsia de tornar a ver Luzia com informaes do processo, e talvez mensageira da liberdade.

Quase todos os dias ela passava pela casa do Promotor, sinceramente interessado na sorte de Alexandre, para se consolar com promessas. A ltima fora que, terminado o balano dos gneros armazenados, o inqurito seria rapidamente concludo.

At ento nada se havia adiantado para esclarecer a justia. Permanecia a situao indecisa de presunes, meras suspeitas, indcios pouco veementes; e nenhuma prova de alcance jurdico fora colhida, alm dos depoimentos dos soldados e de duas mulheres de m vida, a Romana e a Cangati. O fato de ser Alexandre depositrio das chaves deixava de ter importncia por se haver verificado que a fechadura da porta do armazm, antes to corrente, estava perra, denotando a introduo de outra chave ou de qualquer instrumento de violncia. Nada ocorrera, entretanto, para encaminhar a ao da polcia em direo a outro responsvel, tendo sido infrutfera a vigilncia, secretamente feita, em volta de Crapina.

E, nessa incerteza, dias de penar, noites mal dormidas sucederam-se: Alexandre estiolado na priso, como planta silvestre, privado de ar e luz; Luzia nutrida de esperanas, que se adelgaavam em quimera fugitiva.

Num dia desses, regressando a casa, ela respondeu com um gesto de desnimo aos olhares interrogativos da me e de Teresinha:

- Por ora... nada... amanh... amanh...

- Ah!  suspirou Teresinha  Se eu tivesse dois mil-ris!... 

- Para qu?  inquiriu Luzia impacientada pelo estribilho, repetido toda a vez que se queixava da ineficcia das diligncias para libertar Alexandre.

- Mortifica-me com essa cantiga... J vendi os meus brincos de ouro; a vara de cordo, que havamos reservado para um aperto, tambm passara a outras mos... Nada mais temos, nem com que comprar um par de chinelas... Veja?... As minhas j esto com boca de sapo...

- A voc, tornou Teresinha  puridade  nada devo ocultar - Eu queria os dois mil-ris para o respnsio...

- O respnsio?!...

- Sim, para comprar duas velas de libra... A Rosa no reza sem isso...

- Como h de ser? Onde irei achar tanto dinheiro!...

- Fosse eu voc, Luzia, era s pedir por boca...

- Que fazia?

E cravou na companheira, um prescrutador e sereno olhar, desses que traspassam o corpo e devassam a alma.

- Eu  balbuciou a moa confusa e dominada  Eu?... No fazia nada... Foi uma asneira que me veio  cabea... No pode ser... no se faz a reza... E eu que tinha uma f...  melhor tirar da o juzo...

- E acredita que Rosa Veado  capaz de descobrir?...

- Ora... ora... ora!...  dito e feito... Tenho f cega em Santo Antnio. Em casa de meu pai havia um deste tamaninho e milagroso como ele s. Quando se perdia alguma coisa, bastava prometer-lhe dois vintns; a gente achava logo sem saber como. E, no se cumprindo a promessa, era castigo certo. De uma feita, desapareceu urna vaca leiteira. Meu pai, desconfiando que a houvessem furtado, chamou o pai Pedro, negro velho ladino e rastejador, e disse-lhe: "No quero saber de histrias; vosmec d-me conta da vaca, ou come relho." Quando o velho falava assim, era aquela certeza. O negro coou a cabea, lastimou-se e saiu resmungando. Bateu capes de mato; esgravatou grotas e j estava desesperado, pensando no que lhe aconteceria, por voltar com as mos abanando, quando se lembrou de prometer dois vintns a Santo Antnio. Mal tinha feito a promessa, olhou para uma banda e o que havia de ver? A vaca pastando muito de seu, no lugar onde escondera o bezerro. Pedro pulou de contente, laou a vaca, e partiu. Em caminho, entrou a pensar que o santo nada havia feito; ele  que estava banzando sem prestar ateno. Por que, ento, lhe havia de dar o dinheiro?... Nisto , o animal deu um safano; arrancou e deitou a boca no mundo: Que santo desconfiado!... Eu estava caoando... Pago os dois vintns e at mais!... A vaca voltou ao curral com os ps dela e foi o que valeu ao pai Pedro. Olhe, Luzia, tenho visto verdadeiros milagres...

- Amanh  afirmou Luzia jubilosa como se lhe houvesse ocorrido o meio de resolver a dificuldade  amanh arranjarei os dois mil-ris...

- Como? Que vai fazer?... Ah! Luzia, no se guie pela minha ruim cabea ...

- No se arreceie...

- Que  que vocs tanto conversam?  perguntou a velha.

- Nada, tia Zefinha  respondeu Teresinha  Bobages de moas. Eu dizia que se pudssemos pagar um dout para soltar Alexandre...

- No h, ento, uma criatura que faa de graa essa caridade?...

- Qual!... Neste mundo tudo se move a peso de dinheiro... Dout  como padre que no diz missa sem dinheiro... O saber  a foice e o machado deles...

- No so todos  observou Luzia  O Promotor  um dout muito bom... Tem feito o que pode pelo pobre que est penando naquele inferno... Amanh... Amanh...

Teresinha preparou a candeia de azeite de carrapato; espevitou o pavio de algodo torcido; acendeu-o, soprando com fora num tio, e colocou-a no carit, donde, bruxuleando, vacilante e fumarenta, iluminou em tons melanclicos, em firmes e vagarosos contrastes de claro e escuro, como nas telas imortais de Rembrandt e Espanholeto, um quadro admirvel e emotivo, cena ntima da pobreza sofredora e resignada.





IX



Apagavam-se no cu plido os astros e a estrela-d'alva desmaiava, lvida, quando Luzia deixou a rede. Espreguiando, estremunhada ao fresco terral da manh, que lhe agitava o traje com suave carcia, desfez os cabelos impregnados de forte fragncia de mulher amorosa, como se a prpria essncia da fora e da sade evolasse deles em capitoso filtro sensual; e, tomando de um largo pente de chifre, comeou a desembaraar as densas madeixas, que se afofavam e intumesciam crespas e lustrosas. Aos seus ouvidos, chegavam os clamores vibrantes do toque de alvorada, recordando-lhe Alexandre encerrado na priso infecta e escura, entre celerados, quela hora despertados do profundo sono perturbado pelos sonhos de remorsos implacveis.

Nos arredores, at onde o olhar podia chegar fendendo a vaporosa nebrina da madrugada, surgiam massas pardacentas de moitas desgrenhadas em gravetos ressequidos, espectros de rvores, a terra poeirenta e as casas ainda fechadas, donde partia o surdo rumor de choro de crianas, ranger de chaves nas fechaduras perras, prolongados bocejos, resmungando frases de vago, quase imperceptvel queixume.

No quarto prximo, a velha me ressonava com intermitentes gemidos. Teresinha dormia ainda, estirada na esteira, seminua, num abandono ingnuo, debuxando-se-lhe as formas delgadas e graciosas. No alpendre esmoreciam, na extremidade dos grossos ties, grandes brasas rubras, sob tnue camada de cinzas brancas.

Ao espetculo do alvorecer sem alegria, o campo desolado, sem cnticos de pssaros e rumores harmoniosos do trabalho venturoso e fecundante, ela revia a infncia, na fazenda Ipueiras: a campina verdejante umedecida de orvalho congregado no cncavo das folhas em gotas trmulas, os cabeas-vermelhas gorjeando nos mais altos ramos dos juazeiros frondosos; caranas airosas papeando em volatas vibrantes nos leques das carnaubeiras esguias, rolas arrepiadas e friorentas aguardando, aos casais quietos, bem juntinhas, os primeiros raios do sol. Ouvia o mugir lamentoso das vacas presas nos currais, o gemido soturno e tmido dos bezerros e monjolos famintos; o balir das ovelhas irrequietas no fumegante chiqueiro; o gaguejar dos bodes lbricos, brios de luxria; e o relincho triunfante do fogoso cavalo castanho, a galopar peado das mos, de crinas eriadas, de orelhas espetadas e de rbidas narinas acesas. E com o cheiro do pasto florido, dos aguaps flutuantes na lagoa azulada, nenfares de caoilas entreabertas, sentia o fartum da prodigiosa terra exuberante, e o bafio agro dos rebanhos fecundados. Recordava-se do banho na lagoa, que espalhava o cu, e a paisagem pitoresca, e onde ela nadava como as marrecas ariscas; mergulhava e voltava a flux, espadanando a gua com o aoite de cangaps acrobticos, espantando os paturis e jaans medrosos, os graves socs pousados sobre uma perna e os bandos de alvas garas elegantes. Como era saboroso o leite morno, espumando nas cuias, o tassalho de carne-do-sol chiando no espeto, o cuscuz vaporoso e os queijinhos de cabra, em forma de peito de moa; as merendas e o mel de rapadura e macaxeira, o mocunz com coco da praia, a coalhada escorrida e os fofos manus assados em folha de bananeira?!...

Nessa evocao saudosa de um passado morto, ressurgiram as adorveis peripcias da infncia, os episdios da vida de adolescente na penumbra da puberdade, salteada pelas primeiras investidas dos instintos; as festas, os Sos Gonalos, os Bumba-meu-boi, as vaquejadas, as caadas de avoantes nos bebedoiros, a colheita dos ovos que elas, abatendo-se em nuvens sobre as vrzeas, punham aos milhes, junto dos seixos, das toiceiras de capim, ou nas barrocas feitas, durante o inverno, pelas patas do gado. Sentia ainda zumbir o vento nos ouvidos, quando, em desapoderada carreira, o castanho perseguia, atravs dos campos em flor, as novilhas lisas ou os fuscos barbates, que espirravam dos magotes; o ecoar da voz gutural do pai, cavalgando,  ilharga, o melado caxito, e bradando-lhe, quente de entusiasmo: Atalha, rapariga!... No deixes ganharem a catinga!... E quando ela, triunfante das faanhas do campeio, o castanho a passarinhar nas pontas dos cascos, garboso, vibrtil de rdego, as ventas resfolegantes, os grandes e meigos olhos rutilantes, todo ele reluzente de suor, como um bronze iluminado, o enlevo do pai a contempl-la, orgulhoso, e indicando-a aos outros vaqueiros: Vejam, rapaziada!... Isto no  rapariga,  um homem como trinta, o meu brao direito, uma prenda que Deus me deu... E as moas, suas companheiras, murmuravam espantadas: Virgem Maria! Credo!... Como  que a Luzia no tem vergonha de montar escanchada!...

Paisagem, fatos, coisas, criaturas queridas perpassavam, confundidos, ss, ou em torvelinhos fantsticos: tudo ao longe, num horizonte de nebrinas, como recordaes truncadas e vagas de um delicioso sonho interrompido.

......................................................................................................................

O sol surgia rubro, sem pompas de nuvens, destoldado.

Teresinha apareceu  porta do quarto, bocejando e fazendo cruzes sobre a boca escancarada:

- Credo!...  murmurou  Pegou-me o sono que no foi graa... Bom dia, Luzia... Voc  muito faceira com esses cabelos...

Bom dia, Teresinha!  respondeu Luzia com uma das madeixas presa aos dentes para lhe poder desembaraar a extremidade  E mezinha?...

- Est dormindo, coitadinha, que nem uma criana. Que santo remdio! ... Somente  j reparou?  de vez em quando ela a modos que se engasga...

-  da molstia...

- Que inveja tenho dessa cabeleira! Que  que voc fez para crescer assim?

- Nada... gua do pote e pente duas vezes por dia...

- Qual! Isso  do calibre da gente... Eu tenho usado tudo quanto me ensinam: leo de coco, enxndia de galinha, uma poro de porcarias... Cheguei at a botar nos meus, remdio de botica... Foi mesmo que nada... Sempre ficaram nestes rabichos que nem me chegam s cadeiras...

- Veja s. Ningum est contente com a sua sorte... Eu, por mim, no se me dava que os meus fossem como os seus. Dariam menos canseira para os desembaraar e alisar todos os dias...

- Enfim, cada um como Deus o fez...

- Por que no os ensaboas com raspa de ju? Todas as moas, na redondeza das Ipueiras, tm cabelos lindos, que crescem depressa  dizem  por causa da gua de l, que  virtuosa, e da tal raspa... 

- Vou experimentar.

Houve longa pausa. Teresinha, de olhos apertados, sufocada pela fumaa, soprava os ties. Luzia subjugava os cabelos em grande coc, no alto da cabea.

- s vezes  disse Luzia  tenho vontade de cortar os meus bem rente. Para que pobre quer cabeleira?...

- Que horror!  exclamou Teresinha  Ficar sura?!... Nem falar nisso  bom.

- No faz mal. Cabelo  bem de raiz: quanto mais se corta mais cresce. Assim foi com os meus.

- H gente que usa cabelos postios. A Maria Caiara, aquela cara de lua cheia, que  caseira do Belota, tem um enchumao, que parece dela mesma. Algumas moas brancas e ricas tambm gostam disso. Dizem at que compram cabelos de defuntas, cortados pelos coveiros do cemitrio... Credo!... Eu teria um nojo...

Nessa ocasio, chegou Raulino, sertanejo muito afamado, alto, todo msculos, de cabelos vermelhos e olhos azuis, genuno tipo de breto, bravo e meigo, contador de histrias maravilhosas de grande voga. Trazia, em balana, nos ombros, uma grande toalha de algodo da terra, com uma trouxa em cada extremidade.

- Bons dias, meninas! Como vai tudo por esta casa?

- Assim, assim  respondeu Luzia  E voc?

- Eu? Como pobre. No estou bem em p, mas encostado, e vou furando, como Deus  servido, o oco deste mundo, at topar na morte. Esto aqui as raes: a sua, sa Luzia, e mais a da velha. Como vcc no pde ir trabalhar o capito Jos Silvestre me perguntou se eu podia traz-las. Ento respondi: Que  que eu no farei por semelhante gente? Era para vir ontem de tarde, mas porm fui pegar um veado de estimao, que fugiu da casa do doutor e s pude dar com o bicho  boca da noite, l perto do crrego da Roa. Ento resolvi vir agora de manhzinha.

- Deus lhe pague.

- Ainda no lhe paguei eu, sa Luzia, a esmola que me fez... Se no fosse voc, abaixo de Deus, o boi me desgraava daquela feita...

- Ora, ora, ora... Grande coisa!...

- Mangando, mangando, eu ia, mas era sendo varado pelas galhadas do bicho traioeiro... Ainda estou com este p meio esnocado, mas j lhe piso em riba com vontade...

Luzia desatou as trouxas, e arrumou, cuidadosamente, os vveres, que elas continham, sobre o tosco jirau, enquanto Teresinha torrava caf em um caco de pote, mexendo os gros que se coloriam de castanho, exalando saboroso cheiro.

- Bom, agora vou para a obra  disse Raulino  At mais ver...

- Espere o caf. A Luzia pila num instantinho.

- Caf  comigo. No posso enjeitar  respondeu o sertanejo, com mesuras de agradecimento  No bebendo de manh, passo todo o dia com a cabea dolorida e as fontes latejando...

Teresinha despejou o caf fumegante no pilo, e Luzia tomando da mo pesada de pau-d'arco, em poucos minutos, a golpes firmes e cadenciados, reduziu os gros a leve p inebriante.

Pouco depois Raulino sorvia, a largos tragos, o adorado lquido, que ele entornava no pires e soprava, to quente estava. Ao terminar, puxou do cs da ceroula um grande corrimboque de retorcido chifre de carneiro, cuja tampa, de casco de cuia, estava presa pelas correias a um velho leno vermelho; sorveu enorme pitada do caco, e partiu troteando em ligeiro chouto de andarilho.

A velha, cujo sono j causava estranheza  filha, despertou muito melhorada. Havia muito, no lhe fora dado dormir uma hora a fio.

-  do remdio, mezinha  dizia-lhe Luzia com alegria infantil, beijando-lhe a mo, trmula e descarnada  Se Deus for servido, vai ficar boa, aliviada desse martrio. Tambm j basta, tanto tempo dentro de uma rede!... Mais dias, menos dias, estamos de viagem...

A velha, sorriu-se, complacente e irnica.

- A demora  continuou a filha   soltarmos Alexandre...

s nove horas, partiu ela para a cidade, levando a comida do preso. J estava quase na volta do caminho, quando Teresinha gritou por ela:

- No esquea o que me prometeu ontem.

- Deixa estar  respondeu Luzia, fazendo de longe, um gesto de certeza, e desapareceu.

A entrevista na grade da priso foi a de todos os dias: palavras de consolaes de esperana. Alexandre desanimado e doente, para espairecer as amarguras da recluso, trabalhava para um sentenciado sapateiro que lhe dera, em pagamento do salrio, um par de chinelos de marroquim verde para Luzia, presente muito oportuno, porque os dela j os no podia quase sustentar nos ps, to estragados estavam.

Depois da refeio  disse-lhe o moo  puridade:

- Tenho que lhe dizer; mas s quando no estiverem outros presos perto de ns...

- O que ?...

- Uma intrigalhada... Imagine que levantaram...

A confidncia foi interrompida pela aproximao de Crapina, que estava de servio.

- Vamos isso  bradou ele, afetando energia, e piscando sensualmente o olho para a moa  No quero paleios com os presos. Aqui no  lugar de namoro, nem de bandalheiras.  fazer o que tem de fazer e muscar-se. So as ordens...

Luzia, perturbada com a sbita presena do terrvel soldado, no ousou proferir palavra; comps a trouxa, e partiu, rapidamente, para no ouvir as graolas, que lhe dirigia a meia voz:

- Ingrata! No se zangue comigo, meu benzinho... Tenha pena de seu mulato, feiticeira da gente...

Alexandre tiritava de raiva, murmurando entre os dentes cerrados:

- Deixa estar, miservel!... No hei de ficar preso toda a vida... Nossa Senhora h de me tirar daqui e ento aprenders a respeitar os outros... Peste!...

- No quero conversa com presos e, de mais a mais, gatunos...

A injria feriu certeira o corao de Alexandre, que se conteve para se no agravar.

O Promotor recebeu Luzia com a benevolncia com que sempre lhe ouvia as queixas, as censuras, com ingnuo desembarao feitas  morosidade da justia e das diligncias, principalmente o tal balano que nunca mais se acabava.

- Voc tem razo, em parte  dizia-lhe, com brandura, o jovem bacharel  Mas a justia  cega, no pode correr; deve andar com muita cautela, e, por no tropear, muito devagar. Alm disso; essa demora, que a impacienta,  favorvel a Alexandre, para que ele saia limpo de to malfadado incidente. Tenha pacincia, espere mais alguns dias. H uma pequena complicao por esclarecer.

Luzia ouvia em silncio, torcendo e destorcendo a ponta do lenol...

- Noto que est hoje muito preocupada. Que lhe aconteceu?...  Nada...  respondeu ela de olhos baixos, hesitante - Sempre que topo com aquele soldado, o corao me bate ao p da goela e fico meio sufocada...  preciso ter muita pacincia...

-Fez-lhe alguma?...

- Fez... Mas no  disso que eu queria falar a vossa senhoria... Era...

- Diga sem hesitao...

- Eu queria pedir-lhe um favor, pelo bem que quer a sa dona...

- Fale...

- Lembrei-me que achou os meus cabelos bonitos...

- Sim,  verdade  afirmou o Promotor corando - E... depois?...

- Ento vim aqui para lhe vender... 

- Vender os cabelos, Luzia?!...

- No tenho mais o que vender...  a necessidade... Contento-rne com dois mil ris por eles... No  caro...



Dois mil ris por esse tesoiro?!... Eis um bom negcio, Matilde  disse, dirigindo-se  esposa, formosa senhora, que, em adorvel traje matinal, um roupo de cambraia e rendas, entrava no gabinete - Esta moa quer vender os cabelos...

- Oh!  horrvel  exclamou Matilde penalizada.

Deslumbrada com a presena da senhora, cujos belos olhos, claros e suavssimos, se fitavam nela compassivos, ergueu-se e arrancando o pente, deixou carem as fartas, fulvas madeixas encaracoladas.

- Magnficos  continuou Matilde - Mas... para que serviriam? So muito diferentes dos meus...

Faa-me esta esmola, minha dona. Veja, no  por me gabar, parece cabelo de branca... Pegue neles, no tenha nojo...

Matilde, aps curta hesitao, tomou as madeixas nas mos alvas e delicadas; fixou nelas os finos dedos, com unhas de ncar, e apertou-os a rangerem como meadas de retrs.

- Que belos, que extraordinrios cabelos!... Com que os trata?

- Pente e gua do pote. Ento? Fique com eles que tenho muito gosto nisso...

- Fico, sim...  respondeu Matilde, tomando sbita resoluo  Dou-lhe cinco mil ris por eles; mas... imponho uma condio. 

- Quer cort-los j?...  atalhou Luzia, vivamente.

- Ao contrrio  continuou a senhora  no os cortar. So meus, mas ficam na sua cabea.

Iluminou-se o semblante de Luzia de irrepressvel alegria; seus olhos se umedeceram e os lbios, trmulos, murmuraram:

- Deus lhe pagar, santa criatura!... Nossa Senhora lhe d uma boa sorte ... Oh! a senhora no parece deste mundo... Perdoe-me!... Eu tinha um grande aperto aqui, no corao... Faz-me bem chorar...

- Aqui tem o dinheiro  disse o Promotor, entregando uma nota a Luzia  Amanh, talvez tenhamos boas notcias...

- Amanh?...  perguntou Luzia, guardando o dinheiro no seio e compondo os cabelos.

- Sim. Creio que teremos novidade... V descansada, que aqui fica o seu advogado  disse ele, indicando Matilde.

E voltando-se para ela, enquanto Luzia partia, alastrando agradecimentos, disse-lhe em tom de afetuoso carinho, muito enternecido:

- Bom negcio fizeste, meu amor! Belssima ao praticaste... s um anjo de bondade...





X



Rosa Veado voltara extenuada de penosssimo trabalho. Sentada  porta da casa de taipa, onde morava com os filhos entre o cemitrio velho e a Fortaleza, contava o caso s vizinhas atentas, acocoradas em redor dela, curiosas e admiradas.

-  o que digo a vocs. As outras comadres no lhe puderam dar volta e no tiveram remdio seno me procurarem, porque, no  por me gavar, todo o mundo sabe que eu sou a tira-teimas. Que horror! A mulher tinha a criana atravessada, l nela; era cheia de dengues; e, quando vinham as dores, no havia meio de ter mo nela. Eram gritos, exclamaes!... E botava a boca no mundo, que no era para graas... Tambm era a primeira barriga, coitada!... Eu lhe dizia: Tenha pacincia, comadrinha...  assim mesmo. - Mas eu j no posso mais, sinh Rosa. Estas dores me arrebentam  respondia ela, com as mos fincadas nas cadeiras  Ai... ai... ai... que estou me acabando!...   porque vosmec no est afeita... A primeira vez custa um bocado... Nisto, vinha-lhe o sono... Ela passava por uma modorra, como se no tivesse nada. De repente, estremecia...  L vem ... l vm elas  repetia espantada. Ai... ai... Minha Santa Virgem!... Ah, meu maridinho... da minha alma... Ai!... Ai!... E eram ais de cortar o corao de quem no labuta, como eu, desde rapariga. Estava eu j esfalfada; no sabia mais como enganar a pobre, quando ela teve um puxo forte e quebraram-se as guas. Ento eu disse: daqui a um nadinha, se Deus quiser, est a a criana.  As dores foram amiudando, umas em riba das outras e... nada... Por fim a mulher no tinha mais foras: os puxos se espaaram muito escassos, estava lavada em suores, branca como um pano, os olhos revirados e o nariz afilado... Credo! Parecia uma defunta...  Tenha coragem, minha comadre. Mais uma vez e estar livre... Ela no falava; berrava como uma bezerra. Peguei-me, ento, com o Senhor So Raimundo e rezei o Magnificat. J estava para mandar tocar, no sino da Matriz, sinal de mulher de parto, quando me veio uma f... Mandei sujic-la por outra mulher, que estava junto, e vistoriei-a  fina fora, porque, toda cheia de luxo e de vergonhas, me dava com os ps como uma desesperada. O menino estava mesmo atravessado.  Vo ver uma botija, minha gente  disse eu. Trouxeram, uma botija de zinebra vazia, onde eu mandei que ela assoprasse com toda a fora. - Sopre... sopre de verdade... Vamos... vamos... mais... mais um bocadinho... Agora... agora... Nisto dei um jeito que s eu sei... A mulher largou um grito rasgado e a criana pulou!... Estava roixo corno uma berinjela... Mal se viu aliviada, era s arremetendo para ver o filho... Eu, com medo de dizer que a criana parecia morta, tinha mo na me... A criana no dava sinal de vida. Amarrei-lhe o embigo; arrumei-lhe quatro palmadas fortes; meti-lhe o dedo na boca cheia de gosma... Foi dito e feito: chorou logo com fora, pois era um menino macho, com a graa de Deus... A mulher ficava cada vez mais branca e com uma sede de engolir quartinhas d'gua. Era um frouxo danado. Parecia que se havia sangrado um boi... Ento mandei assoprar outra vez na botija. E, como as prias no se despregassem, chamei o marido, mandei que botasse o p em cruz na barriga da mulher enquanto esta rezava comigo: "Minha Santa Margarida, no estou prenha, nem parida, mas de vs favorecida." Ao cabo da terceira vez, estava tudo acabado. Arre! Que nem com dez mil ris me pagavam o trabalho e o susto... Ainda tenho uma dor aqui, na ponta da costela mindinha, de uma feita que ela me empurrou o p para fazer firmeza... Credo!...

- Vosmec tem muita sorte, tia Rosa!...

- Qual! O que eu tenho  f em Deus.

- No sei como, em semelhante sequido, ainda h quem se lembre de ter filhos...

- Voc no v como esto cheios de crianas os abarracamentos de retirantes?! ... At parece imundcie, tanto menino...

-  s o que Deus d aos pobres...

-  um morrer de crianas que at parece praga...

- Se no morressem, mulher, o mundo j no cabia mais a gente. Depois, anjinhos, no faz mal morrerem... Vo para o cu rezar pelos pais...

- Assim mesmo  retorquiu uma gorda matrona que tinha junto quatro crianas  eu no quero que os meus morram... J que nasceram  melhor que se criem...

- Pois eu tive cinco  atalhou outra  que Deus chamou  sua santa glria. Foram para o cu direitinho, s passaram pelo purgatrio para vomitar o leite pecador...

Em meio da conversa, chegou Teresinha.

- Que fim levou voc?  perguntou-lhe Rosa.

- Ando por a mesmo. Boas tardes a vosmecs todas...

As mulheres corresponderam, friamente,  saudao de Teresinha; e, desconfiando que vinha tratar de algum particular, foram saindo, uma a uma. Era muito comezinho receber a parteira visitas misteriosas, em busca das suas artes, das suas maravilhas.

- Trago aqui os dois mil-ris  dizia Teresinha quando se acharam a ss.

- Hoje talvez no possa fazer a reza  disse Rosa, tomando a cdula e examinando com os olhos pequeninos e cinzentos; armados duns culos de cangalha, remendados com cera  Estou que no posso me mexer de cansada de um trabalho que me ps sal na moleira...

E repetiu o caso com peripcias novas, apesar da impacincia da moa.

- Enfim  condescendeu a parteira  como voc tem pressa, vou ver se, com a ajuda de Deus, posso fazer hoje alguma coisa...

- Faa, sa Rosa.  em beneficio de um pobre que j no se astreve com a cadeia...

- E tem razo. Preso nem para ganhar doce. S d'eu pensar naquela sepultura, tapa-me o flego...

- Podia fazer a esmola de experimentar hoje...

- Eu tinha de servir uma dona, separada do marido, que foi para o Amazonas e nunca mais se soube dele; nem novas, nem mandados... Ela, que esperou tanto tempo, pode esperar mais alguns dias... Vamos l... Entra para dentro de casa ...

E conduziu Teresinha a um quarto estreito, sombrio, atravessado de frechas esguias de sol que, das fendas do telhado, iriadas de doirado p irrequieto, o iluminavam, e marcavam no cho mornos discos palidos. No centro, sobre uma esteira, havia um banco, envernizado pelo uso e marcado com pingos de cera. Tirou, depois, de uma velha mala, carcomida e desconjuntada, duas velas e uma pequena imagem de Santo Antnio, to amarrado e enrolado em fitas de cores tantas, que s lhe aparecia a cabea tonsurada e o microscpico Menino Jesus, nuzinho, sentado sobre o livro vermelho e estendendo os bracinhos para abraar o santo.

Um gato negro, de olhos fulvos, veio lentamente, a passos tardos e preguiosos, encolher-se perto do banco.

Dominada por secreto terror do contacto com o mistrio, Teresinha acompanhava, com o olhar espantado, os preparativos. Quando a parteira acendeu as velas, que espargiram mortia claridade no ambiente, e aspergiu os quatro cantos do quarto com uma palha benta, molhada na gua do copo, colocado defronte da imagem, se sentiu aniquilada e caiu de joelhos, baixando os olhos para no encontrarem os dela, pequeninos e vivos como os do gato, a fitarem-na com insistncia e energia, como se lhe prescrutassem a alma.

- Reze o Creio em Deus Padre  ordenou Rosa Veado, com voz soturna.

Enquanto a moa repetia, maquinalmente, a orao, ela murmurava o responsrio, que terminou implorando a Santo Antnio, deparador do perdido queles que recorriam  sua intercesso junto do Trono do Altssimo, fizesse a graa de indicar o ladro por quem estava padecendo um inocente.

Rosa Veado saiu, ento, do quarto, como um espectro, a deslizar sem rudo, e fechou a porta cautelosamente.

Teresinha ficou s no stio de mistrio e esconjrio. Seus olhos esgazeados acompanhavam os movimentos sensuais do gato, que entrou a caminhar de um para outro lado, farejando e chamando a feiticeira com plangentes miados. Havia, no ambiente enfumarado, sombras adejantes, a atravessarem cleres, os traos luminosos das frestas, como enormes pssaros negros. Toda ela tremiam em arrepios aflitivos. Um formigueiro subia-lhe pelas pernas frias, entorpecidas. Gelado suor colava-lhe s tmporas, as loiras madeixas. Arfava-lhe o seio, angustiado por mortal compresso. Quis gritar, mas a voz esbarrou na garganta, embargada por um n. Fixou o olhar fascinada no brilho do copo e viu se moverem nele, como em uma cmara clara, confusas figuras humanas, mulheres e homens, arrebatados por um furaco, com doidos volteios de dana macabra. Ao mesmo tempo, experimentava a impresso de alar-se do cho, sorvida pelo enorme e poderoso hausto de colossal boca invisvel. Cresciam as figuras; tinham feies de pessoas conhecidas; riam com esgares ferozmente sarcsticos; envolviam-na; arrastavam-na no galope diabrino... Ela desmaiava de gozo,  deliciosa sensao de adejar no espao, subtrada  gravitao, como um floco de nuvem, alma sem corpo.

Em plena alucinao, no perdera, todavia, os sentidos e a idia, fixada e dominante em seu crebro conturbado: o crime imputado a Alexandre e a infamao do castigo. As suspeitas, que lhe haviam cavado largo sulco no esprito, se acentuavam com o testemunho dos olhos, porque via, nos vultos cabriolantes em redor, autores e cmplices do delito, indicados por Santo Antnio. O responsrio produzira o apetecido efeito. Quando, entretanto, empregava enorme esforo por apreender bem os traos dos semblantes deformados por horrveis caretas, tnue fumaa, de cheiro inebriante, comeou a invadir o quarto. As figuras mais se adelgaaram, imergiram outras nos rolos vaporosos, para surgirem, depois, mais confusas, mais disformes e misturadas, at desaparecerem em treva densa.

Teresinha despertou, sacudida por forte acesso de terror, e vomitou um bolo de saliva efervescente.

As velas ardiam, lacrimejantes, ao lado do pequenino santo. De um fogareiro de barro, cheio de brasas amortecidas, subia tnue fio de fumo, cheiroso, dum azul delido. Rosa Veado, de joelhos, fitava nela os olhinhos fulvos como os do gato negro, que ressonava, ento, estirado na esteira.

- No se assuste...  observou baixinho, a feiticeira  O incenso consagrado foi-lhe aos grogomilhos...

- Vosmec no saiu daqui?...  perguntou a moa, com voz magoada e dbil, esfregando os olhos lacrimosos e congestos.

- Sa, sim. Fui buscar o fogareiro e o incenso...

- E	no viu?!...

- O qu?!...

- Eles... pelo ar...

- Vi, mas foi voc, de queixos cerrados e olhos esbugalhados, sem responder s minhas perguntas... Que rapariga medrosa!... Credo!... Nem que lhe houvesse aparecido alguma visagem!...

- Pois vi mesmo... Estou bem certa... D-me uma pinga d'gua... que tenho uma coisa... aqui... na boca do estmago. Um entalo...

- Tome um golinho deste copo...

- Deste, no!...  atalhou vivamente Teresinha, com um gesto de repugnncia  No quero, est enfeitiada... Ai... que tenho as pernas bambas, sem ossos...

-  o que eu digo. Tudo isso  medo... Bem se v que voc nunca assistiu a respnsio. Da, bem pode ser que o glorioso Senhor Santo Antnio tivesse feito o milagre...

- Fez... fez... Eu vi tudo, muita coisa; mas no lembro bem... Espere... Era uma poro de gente maluca; era... Oh! tenho a cabea a andar  roda e besoiros nos ouvidos...

Rosa Veado apagou as velas, guardou-as com o santo e conduziu Teresinhia, que mal podia caminhar, vacilante, trmula, para fora do quarto.  impresso violenta da claridade e do ar livre, ela esfregou, de novo, os olhos, e espreguiou-se fatigada, em contores felinas...

- Quando estiver com o juizo assentado  ponderou a feiticeira - h de recordar tudo... Agora  esperar com f, e ver como a coisa se descobre, quando menos pensar. Quando pilhar uma ocasio, farei a adivinhao da urupema, que nunca falhou... Deixe por minha conta... J sei que, nessa histria, anda metida alguma mulher...

Confusa, envergonhada, todos os seus membros desmantelados, Teresinha partiu perseguida pelos olhares matreiros do mulherio da vizinhana, mal podendo arrastar as pernas trpegas e doloridas, com as articulaes a estalarem de perras e as virilhas traspassadas por alfinetadas pungentes.

Quando se viu longe da casa da Rosa, murmurou, irada e suspeitosa:

- Aquela bruxa me botou quebranto...





XI



Contra a expectativa de Luzia, Teresinha regressou desanimada e lnguida, sem a natural vivacidade e rapidez de movimentos, que lhe assinalavam a ndole instvel, a indiferena, quase inconsciente, da torpeza a que a fatalidade a arrastara. Tinha amortecidos e sombrios os olhos faceiros, e a comissura dos lbios, sempre arqueada pelo hbito do sorriso desdenhoso e irnico, se dilatava, desgraciosa, em torvo trao de sofrimento.

- Ento?...  inquiriu Luzia, com nsia.

- Quase morro...  respondeu ela, comprimindo os quadris magoados  Nunca mais... me meto em outra... Credo!... Quem de uma escapa...

- Que houve?... Que te aconteceu?...

- Um horror!...

- E o respnsio?...

- A Rosa rezou...

- O ladro no  Alexandre...

- No sei...

- Fala, mulher, pelo amor de Deus.  preciso que a gente esteja a te espremer...

- Ainda tenho a cabea meia atordoada e as pernas lassas... Sinto ainda uma dor aqui nas cadeiras...

Teresinha gemia as palavras e contorcia-se em requebros lascivos e dolentes. Depois, fixando, com esforo, as idias, que lhe giravam dispersas no crebro, como reminiscncias de fatos remotos, fez a narrativa dos episdios da bruxaria, com mincias exageradas, tocadas do forte colorido de fetichismo e alucinao.

- Quando vi, minha negra, as horrendas figuras crescerem danarem como demnios do inferno, so os ladres  disse comigo  mas no lhes pude divisar bem as feies, tantas e to feias era as caretas que me faziam. Parecia um bando de papangus.

- E no os reconheceu?...

- Qual!... Aquilo foi, por fora, arte do co... Que horror!.. Disse-me a Rosa que esperasse com f... Vamos ver...

- Descansa...  possvel que, depois de assentares o juizo, te lembres melhor...

- Ningum me tira da cabea que aquela esconjurada, meu Deus perdoai-me, botou-me coisa ruim no corpo...

- No pensa nisso, criatura... Voc est nervosa.

- Isto  doena de moa rica...

- Doena no quer saber de branco nem de preto, no respeita fortuna nem pobreza... Venha c  acrescentou, empolgante, com o olhar spero e desconfiado  Voc viu alguma coisa, mas no que ser franca...

Teresinha fez com a cabea um gesto negativo, e sentou-se acabrunhada. Luzia continuava a contempl-la ansiosa. Seus olhos reluzentes de aflio, exprimiam a esperana no milagre e a revelao anelada para restaurar a honra de Alexandre, e restitu-lo  liberdade...

Quanto tempo teria ainda de esperar? Quantos dias e quantas noites seria ainda o msero obrigado a passar entre aquelas quatro paredes infectas?... E se no fosse possvel salv-lo; se a justia descobrisse provas contra ele; se, na verdade, fosse o culpado de to feio crme?!...

Tais dvidas empanavam, como nuvens fugaces, o atribulado esprito de Luzia.

Alexandre teria energia para suportar a priso, o vilipndio da pena infamante; ela, porm, no se podia conformar com a idia de reconhec-lo criminoso, acusado de ladro e maculado para sempre. Preferiria v-lo morto, estirado no cho, fulminado por um corisco.

- Ningum me tira da cabea  acentuou Teresinha, emergindo da prostrao que a subjugara  que aquilo  obra de soldado...

- Tambm eu  ajuntou Luzia  j pensei nisso... Um homem, como Alexandre, no teria astcia para tanto... Alm disso haviam de, por fora, desconfiar dele...

- Com efeito... Era preciso ser muito besta para furtar coisas do armazm, fazendas, mantimentos, dinheiro...

- Sim, coisas que davam logo na vista... Quem s vive do trabalho, que mal d para o de-comer e arranjar um molambo para cobrir, no poderia esconder semelhante furto... Quando aparecesse com roupa nova ou fizesse gastos...

-  mesmo. Perguntava-se: onde foi o fogo, onde arranjou isso?... Quem cabras no tem e cabrito vende... Eu, por mim, no se me dava de jurar que no foi Alexandre... Gente que tem furto na conscincia no olha direito para os outros... Cara de ladro no me engana...

- Ah! Teresinha!...  Santo Antnio quem est falando pela tua boca... Os anjos digam amm...

- Tanto hei de teimar que descobrirei tudo... No  a primeira nem ser a ltima vez que eles fazem das suas e botam a culpa nos outros...

Ocorreu, ento, a Luzia o que lhe havia dito Alexandre, aludindo em termos vagos, a uma intriga que no queria revelar diante do outros presos. O Promotor tambm lhe falara, com meias palavras de uma pequena complicao, naturalmente alguma coisa desfavorvel, algum indcio de culpa... Que seria?... Que intervenco diablica frustara o milagre, perturbando a viso de Teresinha, lhe ofuscando a memria? Quem sabe se ela no vira o ladro e, por natural delicadeza, se esquivava de lhe patentear a dolorosa realidade para no a magoar, privando-a do inefvel conforto da esperana com a desiluso e a tristeza esmagadora de deparar a verdade fria e implacvel?!

A razo  a luz; a dvida  a treva, congeminao de contrastes engendrados pela mesma causa. Felizes os irracionais, porque no duvidam.

Apesar da sua energia mscula, ela se sentia aniquilada, num colapso de nervos enrijados  contnua tenso de tantas amarguras e cuidados, vexames, a pobreza, duras privaes de haveres, a molstia da me, o pressentimento de perd-la a qualquer momento e a obsesso do soldado, alm da orfandade, o desamparo pela priso de Alexandre, a nica pessoa que a poderia ajudar a viver.

No lhe bastavam para tormento constante, as prprias aflies? Para que se mortificar com a sorte dele? No era seu parente; nada os ligava, a no ser recproca troca de favores, a gratido, orvalhando o grmen da simpatia instintiva e um projeto vago, a proposta de se aliarem pelo matrimnio.

Quem sabe  pensava ela  se, em vez de partir de impulso do corao, no fora feita por generosidade, compaixo, ou desejo sensual de possu-la, oner-la com a responsabilidade da famlia, filhos, que aumentariam os vexames j oprimentes, para depois, como tantos outros, abandon-la, inflingir-lhe a abjeo de ser preterida por outra mulher, crime que os homens cometem como um direito do sexo, ou divertimento cruel, igual ao de matar rolas e desmanchar ninhos?!

Culpado e punido, ficaria livre de penar por ele, do compromisso de gratido e das conseqncias funestas do triste consrcio de dois pobres. Sozinha no mundo, poderia, com a graa de Deus, e os seus msculos, trabalhar para viver, ou emigrar para a praia em busca da proteo e amparo do padrinho Jos Frederico.

Tais pensamentos, bons e maus, perversos ou generosos, acudiam, em tumulto, disparatados e contraditrios, ao seu crebro perturbado pela dvida. Acariciava-os ou lutava para expungi-los; e vinha-lhe, por fim, o remorso de haver pecado por soberba, por falta de caridade, julgando mal Alexandre, quando, em verdade, os sofrimentos dele repercutiam no seu corao com dobrada intensidade, como se ele fora parte de seu ser, poro de sua alma.

Seria isso bem-querer, como imaginava; duas criaturas confundidas de corpo e alma em harmonia ininterrupta de afetos e idias, vivendo da mesma nutrio moral, dos mesmos anelos, eternamente ligados no prazer e na dor, na vida e na morte?!

Sentia-se incapaz de amar; carecia-lhe a fraqueza sublime, essa languidez atributiva da funo da mulher no amor, a passividade pudica, ou aviltante da fmea submissa ao macho, forte e dominador, irresistvel, como aprendera na intuitiva lio da natureza; essa comovente timidez de novilha ante a investida brutal do touro lascivo, sem prvios afagos sedutores, sem carcias de beijos correspendidos, como nos idlios das rolas mimosas. No; no fora destinada  submisso. Dera-lhe Deus msculos possantes para resistir, fechara-lhe o corao para dominar, amando como os animais fortes: procurar o amor e conquist-lo; saciar-se sem implorar, como ona faminta caindo sobre a presa, estrangulando-a, devorando-a. No era mulher como as outras, como Teresinha, para abandonar a famlia, o lar, a honra, por um momento de ventura efmera, escravizando-se ao homem amado, contente do sacrifcio, orgulhosa do crime, insensvel ao vilipndio, sem olhar para trs onde ficaram os tranquilos afetos, para sempre perdidos; e, por fim, consolada  torpeza do repdio infame,  margem da estrada da vida, como um resduo intil, condenado a vis serventias, trapo que foi adorno cobiado, molambo que vestiu damas formosas, casca de fruto saboroso e aromtico.

No; no fora feita para amar. Seu destino era penar no trabalho; por isso, fora marcada com estigma varonil: por isso, a voz do povo, que  o eco da de Deus, lhe chamava Luzia-Homem.





XII

A velha dormia tranqilamente, e as duas moas continuavam a conversar no alpendre.

Queria voc muito bem ao Cazuza?  perguntou Luzia a Teresinha, de sbito emergindo de um vago cismar.

- Se queria!...  respondeu-lhe ela, com saudoso suspiro. Por ele larguei pai, me e irm de quem eu era um ai-Jesus! Era o seu tudo e sentia-me to feliz com ele que, desde o dia em que Deus o levou, fiquei insensvel como uma pedra, vivendo por viver, rolando  toa pelo mundo...

- Nunca teve inclinao para outro?

- Eu, no. Vendo-me sozinha e desacostumada a trabalhar para comer, no tive remdio seno me resignar  minha sorte e estar por tudo. Quando algum homem se engraava de mim, eu fingia gostar dele. Encontrei um desalmado que me queria como uma fera; tinha maus bofes e me trazia, ciumento como o demnio, que nem negra cativa. Aquilo no era homem; era o co em figura de gente. Por qualquer suspeita ficava danado como se me quisesse comer viva. De uma feita, arranchou-se na casa em que morvamos como marido e mulher, um moo rico e bonito, que se ps a olhar muito para mim; e eu, ao levar-lhe o caf, cai na asneira de sorrir para ele. Ah! Luzia, se voc me visse naquele tempo!... No  por me gabar, alva como uma imagem, com duas rosas nas faces e carnes rijas como pau!... Meus cabelos pareciam de oiro e meus olhos eram azuis e claros como duas contas. O mundo e a pobreza estragam a gente. Hoje, veja como estou murcha, engelhada, cheia de sardas... Mas, para encurtar razes, quando o moo foi embora, o homem ps-me de confisso; e, no sabendo eu o que lhe dizer para me desculpar de falta que no me passara pela cabea, disse-me uma poro de desaforos porcos, nomes de me; chamou-me sem-vergonha, safada, deslambida, e, agarrando-me pelos cabelos, deu-me tabefes...

- E voc?  perguntou Luzia, indignada.

- Eu chorei muito; lamentei a minha desgraa; jurei por todos os santos do cu, que era inocente, at que ele, com um pontap, me atirou para dentro da camarinha, berrando possesso: "Anda, peste!... Amanh no me ficas aqui em casa; ponho-te fora na estrada, onde te apanhei como uma cachorra vadia... "E fechou, com estrondo, a porta. Fiquei na escurido, maginando no que faria de mim, quando amanhecesse. Ao mesmo tempo que me fervia o corao, estava contente com ver-me livre de semelhante bruto; mas tive medo de apanhar outra vez, e esperei quieta o que desse e viesse.  Que me importa  disse comigo  Hei de achar quem me queira ... E, pensando no moo causador daquela desgraceira, peguei no sono, deitada numa rede velha que ali estava armada. Quando os galos estavam amiudando, ouvi bulir na porta; levantei-me de um pulo; fui deitar-me no mesmo lugar onde havia cado e pus-me a soluar baixinho. Abriu-se a porta, e a claridade do copiar, alumiado por uma vela, deu em cheio sobre mim. Eu estava derreada, no cho, sustendo o corpo com a mo esquerda, enquanto tapava os olhos com as costas da direita, olhando por baixo. O desalmado entrou devagarinho; chegou perto de mim; ficou alguns minutos parado e disse-me, depois, em voz sumida e zangada: "V se deitar no seu quarto... " Eu no respondi, nem me mexi; entrei a soluar mais forte. Tocou-me, ento, de mansinho, no brao, dizendo, j com outra voz, manhosa e adocicada  "Teresa, voc est zangada comigo?" Repeli o agrado com um safano do cotovelo. Ele continuou, procurando abraar-me: - "Este meu gnio!... s vezes fao coisas!... Veja: estou arrependido... do que fiz..." Estava quase acocorado junto de mim. "S o que falta - resmunguei, soluando mais forte   mandar-me surrar pelos seus vaqueiros com um n de peia." - "Perdoa, corao  continuou, tentando ainda me abraar  Eu no sou mau, mas o cime me tira o juzo. Esquea tudo, minha cunhzinha da minha alma... Prometo nunca mais te ofender. Pede o que quiseres, benzinho; serei teu escravo..." E, suspendendo-me do cho, levou-me ao colo como uma criana... Todo ele tremia; eu sentia-lhe o baticum do corao; suava e bufava como um novilho... Eu, nem como coisa: zangada, gemendo e soluando. No outro dia, enquanto ele se derretia e se babava em agrados e promessas, eu maginava no moo e no Cazuza que, l do cu, me pedia vingana...

- Voc no abandonou logo esse malvado?!...

- A falar a verdade, no era de todo mau. Fiquei por medo e por no ter coragem de comear a vida de novo... J tinha padecido tanto, que mais um pouco no me fazia mossa. Mal com ele, pior sem ele, que, tirante as venetas de cme, era bom para mim; dava-me tudo: era s pedir por boca, como dona de casa... Maridos, casados na igreja, batem nas mulheres, quanto mais... Ora, deixei-me estar, mas pensando sempre que o meu adorado Cazuza nunca me havia maltratado, e que eu devia, mais cedo ou mais tarde, tomar desforra; porque, apesar de franzina, ningum mas faz, que no as pague, to certo como Deus estar no cu.

- Vingou-se ento?...

- Ora, ora, ora!... Eu lhe conto. Seu Berto (ele se chama Bartolomeu, mas tcdos o tratavam assim) foi em fins d'guas fazer a ferra em uma fazenda dos Crates. O outro parece que soube disso, e se apresentou uma tarde, debaixo de um p d'gua, que se diria vir o cu abaixo. Eram relmpagos e troves de encandear e ensurdecer a gente. Aboletou-se e passou a noite. Soube, ento, que era um tal capito Bentinho, de famlia muito rica e poderosa. Trajava bem, gibo, guarda-peito, e perneiras de coiro de capoeiro, muito macio, bordados de flores, pospontadas  sovela, com abotoadura e esporas de prata. No imagina como tinha a cor fina e branca, e uma barba parecida, comparando mal, com a de Jesus Cristo. Como estou falando com o corao aberto, no tenho vergonha de confessar que me engracei dele, acho que por capricho ou por ser em tudo diferente do outro. De madrugada, ainda chuviscando e antes que a gente da casa acordasse, arrumei algumas peas de roupa e meti-as em sacos com alguns pataces dados pelo Berto; e fugimos: ele montado num possante quartau pedrez, eu  garupa. Arre! que foi uma viagem de arrebentar. Tivemos de atravessar muitas lguas de serto, passando rios a nado, dormindo no mato e comendo de alforje at chegarmos a uma povoao, perto da fazenda onde moravam os pais dele. A fui aboletada em casa de uma velha. Passamos trs dias como noivos: ele, fino como seda; eu, cheia de denguices e manhas, como rapariga donzela. E contudo, Luzia, voc no  capaz de acreditar que, amimada pelo Bentinho, todo delicadezas e cerimnias, tinha saudades do Berto com o seu sangue na gueira, aqueles olhos devoradores, aquela brutalidade...

-  possvel?!... Pai do cu!...

- Voc no sabe de quanto o bicho mulher  capaz, quando vira a cabea.

- Anda; conta o resto.

- Eu fazia idia da fria, da danao dele, quando deu por falta de mim, da cunhzinha russa. Imaginei os berros, os despropsitos, as pragas, que me irrogou, as ameaas de desforra, pois sabia que no era homem para se conformar com o roubo da mulher. Meu dito, meu feito. Um dia chegou Bentinho muito assustado, recomendando que me escondesse, porque lhe haviam inculcado gente do Berto nos arredores da povoao. Fiquei mais morta do que viva. No me podia levar para a fazenda, porque a famlia, que tudo ignorava, no consentiria nisso. A velha que quase no dava f de mim e vivia muito ocupada na criao, entrou a tomar precaues para ningum suspeitar a minha estada em sua casa. Um dia, era dia de, feira, e eu tinha um desejo doido de ver a reunio de gente de uma redondeza de vinte lguas, vendendo legumes, farinha, rapadura e outras produes da lavoura; mas a megera no consentiu que eu botasse o nariz de fora. Ali por volta de meio-dia, ouvimos tiros de bacamarte e uma algazarra dos demnios, um bate-boca desadorado. Pouco depois soubemos que houvera um pega entre cangaceiros, desconhecidos no lugar, e a gente do Bentinho, e que j havia morrido um homem... Que seria?... Fiquei numa aflio, tremendo de susto, mas experimentava uma secreta satisfao que fosse por minha causa a briga e o sangue derramado.

- Que horror!...

- Estava num p e noutro para ter notcias certas do barulho, quando, entrou, de repente, Bentinho. Vinha muito amarelo, com a mo enrolada em um pano e acompanhado por dois cabras, armados at os dentes.  Que foi?  perguntei-lhe assustada - "Nada, um arranho no pulso, respondeu com voz sacudida  amarre-me, endireite-me isto, sa Quitria." Enquanto a velha punha mezinha na ferida, um talho que ia da palma da mo esquerda ao meio do brao, Bentinho, for do seu natural, com os olhos espantados, a voz surda e seca, ainda trmulo de raiva, contou-me que, chegando  feira, fora desfeiteado por uns cabras, novatos na terra, j muito encachacados e intimando com todo o mundo. Chamou a gente para amarr-los, mas um deles, saltando como um gato sobre o ginete, disse-lhe: - Voc pensa, seu alvarinto, que amarrar homem  furtar,  traio, mulher alheia? Nisto chegou,  toda, o Joo Brincador com trs homens escolhidos, e eu disse-lhe: - Amarra essa cambada de desordeiros.  Em cima das minhas palavras, riscou o Berto, e foi dizendo: Voc, pode amarr-los seu filho desta, filho daquela, mas depois de ne pagar e ajustarmos as contas.  Eu e os meus demos de rdea para sairmos do meio do povo; eles, rente, atrs da nossa poeira. A certa distncia rodamos sobre os ps os animais, e os cabras que tambm estavam bem montados, quase esbarram em riba de ns.  Agenta, rapazes!  disse ao Joo, que me respondeu sorrindo: No h novidade, capito. Deixe eles para ns. Palavras no eram ditas, o Berto papocou-me fogo. Abaixei-me, e a bala tirou um taco da beira do chapu do Joo O cabra mata seu Bentinho!  gritou ele  Os outros cangaceiros atiraram, e os meus responderam com uma descarga. O cavalo de um deles empinou-se e rodou morto por cima do cavaleiro, tambm ferido. O Berto, ento, veio seco em cima de mim, e correu dois palmos de faca do Pasmado  Tenha mo, capito Berto  disse-lhe eu, aparando o golpe, com a minha parnaba  Tenha mo que se desgraa. Mas o homem estava roxo de raiva; espumava como um touro feroz. Avanou outra vez num mpeto, que no era para graas. Suspendi o russo-pombo passarinhando como um gato; salto pra aqui; pulo pra acol, e o homem decidido atravessando-se na minha frente, com o cavalo preto e ligeiro que nem um tigre. Na terceira investida, meteu-me o ferro com vontade. Rebati com a mo; mas quando senti o ao ranger-me na carne e o sangue espirrar, saquei da garrucha. O homem estava cego, arremeteu de novo e meteu-me o ferro outra vez aqui na aba do gibo. Vendo, ento, que o diabo me matava mesmo, e que eu no podia com vantagem brigar com ele a ferro frio, perdi as cerimnias, e lasquei-lhe fogo... O homem soltou um berro; abriu os braos como se quisesse abraar o vento, e derreou pra trs. O cavalo, sentindo falta de rdea, deu quatro gales e meio, como um poldro brabo e desembestou desapoderado, arrastando Berto enganchado no estribo. Morreu?!...  perguntei, tiritando de frio, e batendo os dentes como se tivesse sezes. "No sei. Foi batendo por troncos e barrancos at desaparecer de nossa vista com os dois cabras restantes metidos em uma nuvem de poeira. Dois dos dele ficaram no barro. Da minha rapaziada,, o Chico Pintado levou uma bala aqui na coxa  l nele -; o Borburema perdeu o gibo, e foi ferido com um pontao nas cruzes; o Brincador ficou com o chapu, novo em folha, estragado. Todo o mundo sabe que ele tem o corpo fechado. Enquanto brigvamos, o povo fazia um barulho medonho. Todos viram que me defendi o mais que pude, negaceando, para lhe poupar a vida. O diabo do ferro cortava como navalha. O talho est doendo de verdade. "E voltando-se para mim, disse: - "No chores, Teresa. Isto, com sumo de angico ou de ma de algodo, sara depressa....  uma arranhadura de nada." Supunha que eu chorava por ele; mas, naquela ocasio, meu pensamento acompanhava Berto, desfigurado pelos encontres, coberto de sangue e p, arrebatado pelo Moleque, cavalo de estimao que eu bem conhecia. Minha vontade era correr atrs do pobre, apanhar os pedaos da sua carne, arrancados pelos tocos e pedras. Talvez o encontrasse ainda vivo para pedir-lhe perdo... Desde esse dia, ficou decretada a minha desgraa. Bentinho me achava sempre triste e sucumbida. Eu tinha repugnncia daquele homem manchado com o sangue do outro. No era j a mesma mulher... Ele parece que percebeu isso, e foi tambm esfriando, at que me participou o seu casamento com uma prima bonita e rica. Eu respondi que lhe fizesse bom proveito... Deu-me um mao de dinheiro e no voltou mais a casa da velha Quitria.

Luzia, embebida nas palavras de Teresinha, acompanhava a narrativa com intenso interesse, intenso abalo.

- E... depois?  perguntou.

- Depois? Enquanto durou o dinheiro, quase um ano, fiquei com a tal velha que foi a minha asa-negra. Tomou conta de mim como de uma besta de carga; fazia de mim o que queria; mandava e eu me sujeitava, calejada, estando por tudo sem protestar, sem me aborrecer. A. velha, que era toda agrados enquanto eu estava rica, virou para me insultar e, uma vez por outra, me atirava  cara que era necessrio ganhar com que pagar o piro que eu comia, porque no era minha escrava...

- No prenderam Bentinho?...

- Qual priso, qual nada!... Ficou solto, e respondeu o jurado quando muito bem quis. O pai dele, o coron Manel Fernandes era o maioral dono da terra.

- Ficou um ano, dizia voc...

- Pouco mais ou menos, contando do dia da briga, at quando a velha morreu de um n na tripa. Dei graas a Deus por me haver livrado de semelhante bruxa, e resolvi voltar para a casa de meu pai, embora ele, que era teimoso e rspido, me matasse; mas, em caminho, tentou-me o demnio e fui rolando de um lado para outro, de povoao em povoao, at que a seca me apanhou. E a est, minha camarada, como vim bater aqui.

Ela, com efeito, peregrinara pelo vasto serto, de misria em misria, rastolhando, perdida como um pedao de pau arrastado pela correnteza do rio, caindo nas cachoeiras, mergulhando nos rebojos, surgindo adiante, para bater de novo sobre pedras, tornando a ser arrebatado, at que, ao baixar das guas, pra, coberto de paul e ervas secas, garranchos e flores, que transportou de longe, esperando a enchente na prxima estao, e continuando a trgica jornada, at apodrecer em ribas desoladas, ou perder-se na imensidade do oceano.

 essa a histria da peregrinao mundana das desgraadas, que se desterram no seio amigo da famlia, quebrando o suporte dos afetos puros, e vagando sem rumo, na ebriedade de gozos efmeros,  merc da fatalidade intangvel e cega.



XIII



Esteve-se Luzia absorta, fitando em Teresinha demorado olhar aceso de admirao, como se lhe ela se revelasse sob a forma estranha e sugestiva de uma herona provada nos mais rudes lances da luta pela vida, e conservando ainda o coraco sensvel aos nobres impulsos de ternura, de dedicao e piedade do infortnio alheio. Os episdio romanescos, que ouvira num enlevo de surpresa e espanto, como as criancas ouvem, tmidas, maravilhosas histrias de fadas e princesas encantadas, ou as proezas de lobisomem e cavalos sem cabea, vagando pelos campos, nas noites ttricas em que os jacurutus sinistros piam  beira dos rios; todos aqueles casos da paixo dominadora arrastando, lentamente, para a voragem, a rapariga franzina, indiferente ao perigo, sem saudades da casa paterna e sem remorso da culpa que a polura, incapaz de resistir, e reincidindo no pecado como um vicioso na absoro de licores capitosos que o intoxicam, flutuando na embriaguez da volpia e despertando maculada e resignada  prpria vergonha, assumiam, na sua imaginao excitada, propores gigantescas de feitos valorosos, extraordinrias faanhas de uma criatura forte, disfarada sob ilusrias aparncias de debilidade doentia. Disseram-lhe que o sofrimento embotava as delicadas fibras do corao; que o pecado o esterilizava, como o sol esteriliza a terra, e estiolava as floraes sadias da semente do bem; entretanto, Teresinha era a negao viva dessas verdades afirmadas por uma moral de conveno, sentimental e absurda. Tinha a superioridade da mulher contente de sofrer pelo seu amor, como um crente pela sua f, o martrio ultrajante do desprezo, o vilipndio de viver execrada; aceitara, com resignao de forte, as conseqncias todas do primeiro passo, dado no enlevo de um sonho delicioso, para o declive fatal, onde ningum mais se detm e se equilibra. Deveriam ser fortes, admirveis, as mulheres que sobrevivessem s provaes do oprbio, com a alma imaculada; e Luzia, apesar de seus msculos exuberantes, se sentia aniquilada, ao pensar em ser colhida por um s dos incidentes da pitoresca vida de Teresinha; morreria extenuada como um pssaro cativo na arapuca. Seria horrvel ver morrer o homem amado, o abandono, o ser surrada pelo amante, brutalmente sensual, e, todavia, lamentar-lhe a morte... Seria horrvel, seria monstruosa essa escravido da mulher desbriada ao senhor do seu corpo, essa passividade de animal, de coisa a mudar de dono. Ocorria-lhe, ento, que no havendo experimentado essa abjeo, no tinha direito de maldizer da sua sorte, incomparavelmente mais propcia que a de Teresinha, a herica rapariga que se no queixava.

Surgia no horizonte o Cruzeiro rutilante, reclinado nos coxins nebulosos da Via-Lctea e a bafagem morna da madrugada parecia o arfar da terra extenuada, sucumbida de cansao, quando, interrompendo a conversa, as duas se entreolharam espantadas: tinham percebido algo de suspeito, estalidos de galhos secos, rumor de passos precavidos, vozes abafadas, sumidas, muito perto da casa, na direo das touceiras de mandacarus que defendiam, com intransponvel cerca de espinhos, o pequeno quintal abandonado.

- Ouviu? - perguntou Luzia.

-  talvez  respondeu Teresinha, que escutava atenta  o barulho do terral nos galhos, algum animal roendo o mandacaru.

- No  a primeira vez que ouo esses passos furtados, fora de horas, ali pela cerca e no terreiro... Parece que algum nos espia.

- Tens medo, fracalhona?...

- No tenho medo, no; mas  melhor irmos l para dentro.

- Pois sim. No se me dava de ver o que .

Recolheram ao quarto. Luzia abeirou -se da rede onde, encolhida como uma criana, a velha ressonava tranquila. Teresinha ficou a espreitar, cozida  porta entreaberta em estreita fenda; com um aceno de alvoroo, chamou a outra, e viram, ao lusco-fusco, um grupo.

- Parece que so soldados  observou-lhe Teresinha.

- Talvez a ronda...  balbuciou Luzia.

No:	so dois homens e uma mulher. Espera... Olha: esto conversando...

Ento, muito juntas e apavoradas, ouviram:

- Eu no dizia que esto dormindo?!...

- Qual  teimou uma voz feminina  esto acordadas. Juro que ouvi, ainda agorinha, falao de gente no alpendre...

- Tambm ouvi  afirmou outra voz mais clara e forte - Deixemos de histrias.  melhor no teimar. Elas botam a boca no mundo e estamos perdidos... Nada. Aquilo, aquela bruta, no  mulher de brincadeira...

O conselho foi aceito pelo grupo, que se esgueirou sorrateiro, apressadamente.

- O diabo roncou-lhe na tripa  disse Teresinha triunfante, mostrando a Luzia, a lmina nua do grande canivete de mola Era tocarem na porta, eu fisgar logo um deles, para no ser atrevido.

- Parece que ouvi a voz de Crapina.

- Pode ser; mas no estava fardado. S queria saber quem foi a safada que veio com eles...

- Que intenes teriam? Olha, Teresinha, no  a primeira vez que ouo esses passos suspeitos. H muito tempo, desconfio que andam rondando a nossa casa.

- Tambm ouvi, mas no maginei que fosse gente. No maldei nada.

- So capazes de tudo.

- L isso  verdade.

- Vrias noites, Crapina e Belota andaram a cantar fora de horas, aqui por perto...

- S me d que pensar a mulher... Ser possvel que viessem botar feitico? E... no  outra coisa;  mandinga...

- Outro dia, quando abri a porta de manh cedo, topei, mesmo na soleira, um saquinho com penas de galinha pretas arrepiadas...

- E no o abriu para ver o que continha?...

- Deus me livre. Eu no. Tive nojo e varri tudo com o cisco para dentro daquele buraco, cheio de carrapateiras e que foi barreiro.

- Pois eu no resistia. Havia de revistar tudo, pegasse-me, embora, o malefcio.

- E voc acredita nisso?...

- No sei o que , se feitio ou obra do co; mas, tenho visto casos de pr tonto o juzo da gente. H malefcio para abrandar corao, curar cimes e at para produzir molstias. L em casa havia um velho, que curava bicheiros dos bezerros pelo rasto...

- Abuses...

- Buses?!... Conheci um moo que foi enfeitiado por uma rapariga, embelezada por ele. A criatura, de repente, ficou toda torta, como se lhe desse o ar... Ave-Maria; foi murchando, secando at ficar pele e osso. Parecia mais um defunto em p, que gente viva. Desenganado de remdios de botica, foi se receitar ao padre Joo Crisstomo; chupou chave de sacrriol do Santssimo, mandou fazer oraes fortes... Foi bobage... A felicidade dele foi topar uma cigana, que lhe deu contra-feitio, uns poses para beber com leite de peito... Santo remdio, menina! ... Uma coisa  ver outra  dizer, como ele se levantou, j tendo os ps na cova.

- Bem, fecha a porta e vamos dormir que  quase de madrugada.

-  mesmo... E eu que estou moda... Parece que levei uma surra...

Fechada a porta com precauo para no despertar a doente, Teresinha despiu-se rapidamente; coou o vinco do cordo das saias na cintura; enrolou, espreguiando-se, em gestos felinos, os cabelos; persignou-se e derreou-se na esteira.

Lentas passaram as horas para Luzia, sentada na rede, estremecendo ao menor rudo do vento nas folhas da latada, e aguardando, ansiosa, o quebrar das barras, com os primeiros fulgores da aurora. Seu olhar compassivo flutuava entre a doente, a moa adormecida e a candeia a crepitar melanclica, no carit enfumarado.

Renascia-lhe, no corao, a esperana de melhoras da me adorada; e, ao mesmo tempo, suspeitava que aquele prolongado sono fosse efeito de dormideiras, que lhe houvesse dado o mdico. Meditava na tranquilidade anglica de Teresinha, seminua, apenas coberta por uma leve camisa de esguio, preciosa relquia de antiga abastana, e acreditava que lhe houvera Deus perdoado as culpas, porque era boa na essncia, e as purgara neste mundo. Entretanto, ela, que nunca havia feito mal a ningum, que no abandonara os pais, nem trara, nem ocasionara a morte de homens que a amassem, ela que tudo sacrificara, aspiraes de moa e prazeres, que resistira aos instintos de mulher, para manter, em meio do paul, a sua pureza imaculada, ali estava, acabrunhada de pensamentos tristes, cruciantes como remorsos, com a alma inquieta e o corao latejando de susto,  previso de perigos tremendos.

Que havia feito para sofrer tanto? Que funesta influncia exercia sobre as pessoas que lhe queriam? Fora, talvez, ela que trouxera desgraa a Alexandre. Bastou que ele lhe desse os cravos rubros, crestados ao calor de seu seio, para lhe imputarem um crime infamante e ser preso como um rprobo.

Teria m sina, mau olhado?... Seria dessas criaturas fatdicas, cujo contacto desorganiza e destri? Conhecera uma formosa moa, em cujas mos, ovos batidos para mal-assadas, no cresciam e desandavam em aguadilha choca; talhava o leite; definhava e morria a planta de que ela colhesse uma flor, ou matava com o olhar ninhadas de pintos espertos e lindos, como macias borlas de veludo? Havia, ento, criaturas, predestinadas para o bem e para o mal?... Nasciam umas para o sofrimento, outras para o gozo, da mesma forma que as havia destinadas ao cu ou ao inferno?... E Deus, Deus, pai de misericrdia, permitia isso, essa iniquidade revoltante?!...

E o seu esprito, flutuando  merc de noes incompletas do bem e do mal, das causas e efeitos reguladores da vida, se rebelava, em assomos impotentes, contra as injustias do destino cego e louco.





XIV



Uma surpresa auspicicsa assinalara o amanhecer: a velha enferma erguera-se, sozinha, da rede; e, escorada a um pequeno cacete de coco, envernizado pelo uso, apareceu  porta do quarto.

- Deus seja louvado  exclamou Luzia, em grrula expanso alvoroada.

- Seja bem-vinda, tia Zefinha!...  disse Teresinha, com largos ademanes maneirosos - Abanque-se aqui, no alpendre, que est mais fresco. Ora, at que enfim... No h mal que sempre dure...

-  a minha promessa a So Francisco das Chagas, de Canind  observou a enferma  que me restituiu a sade... Eu tinha uma f...

E o seu rosto de pergaminho, retalhado de rugas e dobras, se dilatava em meigo sorriso.

- Olhem  continuou, caqueando no seio do cabeo, bordado de cacunds, onde imergiam confundidos, entrelaados, os rosrios, bentinhos e medidas de santos, que lhe pendiam do pescoo; e mostrando uma caoila com a imagem do milagroso padroeiro em pssima gravura, cujos milagres admirveis atraam os fiis, vindos de longnquas paragens, em contnua romaria  sua bela igreja cheia de ex-voto, pernas, braos, mos e cabeas, modelados em cera, ou toscamente esculpidos em madeira, viscosamente coloridos e marcados de chagas hediondas, muito sarapintados de sangue e arrouxeados de equimoses e alguns verdadeiros aleijes, monstruosidades repugnantes; muletas e ligaduras de pano velho, duras de snie embebida; todas essas relquias de piedade, penduradas, em simetria, s paredes da nave, rememorando curas, obtidas pela intercesso do santo, a quem Jesus Cristo concedera a graa de marcar com o estigma das cinco chagas.

Tambm fizera uma promessa a So Gonalo da Serra dos Cocos e a outros patronos celestiais, no menos afamados pelo prestgio de sarar enfermos, desesperados da sade. Estava em verdadeiro apuro para dar conta de todas elas; mas, o padre Antnio Fialho, ouvindo-a em confisso, lhas comutara em leve penitncia, impondo-lhe a obrigao de rezar algumas coroas, teros e o ofcio de Nossa Senhora, hino mirfico, que, quando  cantado na terra, os anjos se ajoelham no cu. Nas horas de alvio, ela se penitenciava debulhando, entre vagos fulgores de esperana, as contas luzidias de um rosrio bento pelo santo missionrio frei Vidal.

- No sinto quase o puxado, minhas filhas, e aquele entalo, que me sufocava, tambm desapareceu. Dormi, que nem um passarinho, louvado Deus.

- Eu bem lhe dizia, tia Zefinha, que o remdio, abaixo de Deus, havia de ser a sua salvao.

- Agora  observou Luzia   continuar com ele: estamos de viagem.

- E tu a dar-lhe, filha. Espera mais um pouco. Estou to afeita a sofrer que, se no fosse falta de f, desconfiava ser isso visita da sade...

- Qual, vosmec vai arribar mesmo  afirmou Teresinha, com muita convico.

A velha sentou-se, acariciada pela filha, que lhe endireitou as dobras da saia e o leno da cabea, enquanto Teresinha preparava o ch de erva-cidreira, que ela tomava todas as manhs.

- Agora, disse a velha, com um suspiro de alvio  vocs podem cuidar do trabalho, que ficarei tomando conta da casa. Se no fosse esta pobreza, tomaria uma menina para fazer-me companhia, varrer o terreiro, dar-me um caneco d'gua, enquanto estivessem fora labutando... J passei, aqui, dias e dias sem ver vivalma, at que a Luzia voltasse da obra... Que dias compridos!...

- Dias que no voltaro, tia Zefa, porque aqui estou eu, que a no largo mais...

- Se houvesse por a  continuou a velha  uma pasta de algodo, fiaria um novelo para no estar banzando sem fazer nada... e s pensando na molstia ...

s nove horas Luzia, ansiosa por saber o que lhe comeara a contar Alexandre, a revelao interrompida pela sobrevinda insolente de Crapina, partia com o almoo para o desconsolado preso, que, mal terminada a refeio, lhe perguntou se sabia alguma coisa de novo; e, pois lhe a rapariga respondesse com simples gesto negativo, disse,  puridade, suspeitar da interferncia maligna de algum interessado em desgra-lo.

- Sabe o que me fizeram  continuou, amargurado - Levantaram-me uma calnia... Voc conhece a Gabrina, aquela moa morena, que perdeu a me, h pouco tempo?... Pois no inventaram que eu lhe havia dado dinheiro e dois cortes de vestido?...

- O qu?!...  exclamou Luzia, franzindo os sobrolhos, e encarando no moo.

- Eu que nunca alevantei meus olhos para semelhante criatura seno para salv-la, quando nos encontrvamos no trabalho.

- Quem disse isso?

- H gente para tudo, at para levantar falsos contra os seus semelhantes.

- Mas... quem inventou esse aleive?... Ela?!...  possvel que uma rapariga to moa tenha maldade para tanto?...

- Disse que eu andava h muito tempo atrs dela, seduzindo-a com promessas de casamento e que, sozinha no mundo, sem ter quem se doesse dela, no se lhe dera de consentir... Veja que mulherzinha mais desalmada... E eu, disse ela, lhe dera os mimos para que ela sasse logo de casa comigo...

- E voc jura que isso  mentira?...

- Eu?... Eu no preciso jurar; basta, Luzia, que lhe afirme...

- Por certo... Demais, que tenho eu com os seus particulares?... Voc no tem necessidade de negar... Mentira ou verdade,  livre, desimpedido, senhor da sua vontade para empregar o bem-querer em quem for do seu agrado. Isto no  da minha conta...

- Mas... queria explicar...

- Para qu? So desnecessrias para mim essas explicaes. Deve d-las ao Delegado...

- Luzia  continuou Alexandre, fitando-lhe uns olhos pisados de mgoa  Voc tem sido, abaixo de Deus, minha protetora, meu anjo da guarda nesta desgraa, que me apanhou. No tenho outra pessoa que puna por mim... se me abandonar...

- Abandonar!... No penso em semelhante ingratido. Alm disso,  obrigao fazer o que tenho feito pelo senhor e ainda mais, se necessrio for, muito embora, depois de solto, satisfaa o capricho do seu corao. Serei sempre a mesma, somente no estou para levar fama sem proveito, como j me tem acontecido...

- Sei quanto tem sofrido por minha causa...

- No vale a pena. Fui eu quem lhe truxe caiporismo. Mas, s peo a Deus que me ajude a tir-lo desta cadeia. Depois, o senhor toma o seu rumo e eu o meu. Ser melhor assim para ambos...

Houve prolongada pausa. Alexandre, conturbado quelas palavras secas e cruis, contemplava, num misto de espanto e mgoa, a figura da moa, enteada, e de olhos cerrados, quase absorta em torturantes pensamentos. Rompeu ele, a custo, o oprimente silncio. 

- Que rumo tomarei, Luzia, seno o seu? Para onde for, hei de acompanh-la como a minha estrela, a minha guia, segui-la como o cachorro vai atrs do dono que o abandonou e o despreza. Se eu entulho o seu caminho, se quer ver-se livre de mim, no me tire daqui; no empregue mal os seus passos... Deixe-me entregue  minha sorte, apodrecendo nesta sepultura de vivos, infamado... esquecido como um malfazejo, que nem compaixo merece. S lhe peo a esmola de no desconfiar da minha inocncia... Caiu-me em cima uma infelicidade que no sei explicar, uma vingana de mulher, de inimigos miserveis; mas no sou ladro... Nunca!...

- Vingana de mulher!...  murmurou Luzia, num grande entono de clera indomvel.

- Atenda-me. Essa, Gabrina, alm de m,  ingrata. Quando a me caiu doente e foi desenganada, foi comigo que se achou para arranjar remdios e um caldo chilro para a infeliz. Eu sabia que a filha era uma doida, que apressara a morte da me com desgostos, arrebates e ms respostas, por isso tive somente em mira fazer obra de caridade para no a deixar morrer  mngua. Voc sabe que morreu mesmo; e, ento, a filha foi para a companhia da Chica Serid; e nunca mais me ocupei com a vida de semelhante desmiolada...  verdade que no faltou quem atribusse os meus atos a embelezamento pela moa, que dava cabo ao machado, inculcando-se...

- J lhe disse que nada tenho com isso, nem desconfio do senhor...

- Ento por que me ameaa com a separao?...

- Quen, sou eu?... Quero evitar as ms lnguas, que no me poupam. Em homem nada pega, mas, em moa, tudo tisna. Eu confio em Deus acabar os meus dias, limpa como nasci do ventre da minha me... A pobreza no me afronta, porque tenho foras para trabalhar e ainda no cansei de sofrer. Sabe o que temo? Que faam pouco de mim, que me frechem com dictrios e caoadas. s vezes, tenho mpetos de estraalhar uma dessas criaturas perversas que me olham pelo rabo do olho, rindo pelo canto da boca, como se eu fora uma ridcula... Quando o senhor for para a sua banda e eu para a minha, tudo acabar ...

- Como acabaria, se nos casssemos.

-  impossvel... Nasci, com m sina...

- Bem, Luzia... Vejo que me suspeita, embora no o diga francamente... Pacincia... Ser como for do seu agrado.

- Luzia amarrou, lentamente, a toalha com os pratos da refeio, que Alexandre mal encetara. Havia nos seus gestos, aparncias de calma fria, resoluta. Toda ela, entretanto, vibrava com o abalo estranho, indefinido, que a invadira como um frio prfido de molstia.

- At amanh - disse ela, secamente.

- No venha mais, Luzia...  murmurou o preso  No vale a pena fazer mais sacrifcios por mim... Arranjarei aqui mesmo o de-comer. Basta. No mereco tamanha dedicao... Deixe-me de mo, j que no quer ser ridcula...

Ela no lhe respondeu. Retirou-se, de manso, com o andar lento e fatigado de quem vai a contragosto. Alexandre acompanhou-a, com os olhos desvairados, at que ela dobrou a esquina do Joo Padeiro, e desapareceu no beco do Coronel Braga. Pungia-lhe o corao imensa saudade, o pressentimento de nunca mais tornar a v-lo, remorso de haver provocado a separao com o excesso de brio, ressumante nas palavras cruis com as quais se desonerara da piedosa tarefa de visit-lo todos os dias, para levar-lhe, talvez, o melhor quinho da magra despensa de pobre, o precioso quinho do pobre, que se priva do apenas suficiente para no morrer  fome. Sbito, ele estremeceu de pasmo, de dolorosa surpresa, ao fitar a parede, onde se fincavam os vergalhes de ferro da dupla grade... Estavam ali, entre migalhas da comida, murchos e ressequidos, os cravos rubros que ele havia dado a Luzia...





XV

To preocupada regressara Luzia da cadeia, que no reparou em Dona Matilde, debruada sobre uma das janelas da casa do Promotor. Foi preciso que a formosa senhora a chamasse para arranc-la da funda meditao absorvente, em que imergira o esprito, como num antro caliginoso.

- Aonde vai to apressada, Luzia?...

- Desculpe-me, dona  respondeu ela, estacando, confusa e enteada, como se lhe houvessem surpreendido a tortura moral - Estava to atarantada que no vi vosmec, quando era minha inteno falar com o seu dout a respeito do processo. 

- Entre. Estou com saudades dos meus bonitos cabelos... 

- Aqui esto sempre bem tratados e muito mais cuidados do que quando eram meus  disse Luzia, libertando a opulenta cabeleira do pente que a sustinha.

- Que lindos!...  exclamou Matilde, acariciando, com mimo, as bastas madeixas  Como esto macios... Oh! nunca vi coisa igual...

Luzia agradecia, com um sorriso contrafeito de melancolia. 

- Voc  continuou a senhora  parece contrariada... Que lhe aconteceu?... Sua mezinha vai melhor?...

- Muito melhor...

- E Alexandre?...

- Como preso, quase sem esperana de se ver livre da enxovia...

- Tenho grande d de voc, Luzia, moa capaz, merecedora de melhor sorte. Mas, que significa esse ar sombrio, esses olhos amortecidos?...

Luzia no respondeu.

- Diga-me  continuou a senhora, com meiguice quer muito a Alexandre?...

- Por que me pergunta?

- A sua dedicao ilimitada quele infeliz s pode ser inspirada por um grande afeto, desses que no esmorecem ante os maiores sacrifcios.

- No sei se lhe quero muito... Sei que lhe devo muita gratido por ter sido bom para ns, o protetor e amigo, que nos ajudou... 

- E  somente por gratido, que o defende com tanta dedicao?...

- S por gratido. Por que, ento, havia de ser?...

Luzia respondia com esforo. As palavras irrompiam de seus lbios, speras, aos pedaos, com uma falaz aparncia de calma e indiferena.

- Voc no  sincera, Luzia; no confia, talvez, em mim. Ningum  superior ao prprio infortnio; e mais humano, mais nobre,  confess-lo que o sufocar ou esconder. Sofre-se mais no repdio  consolao e ao lenitivo...  possvel que no tenha conscincia do estado do seu corao, ou no saiba explicar o que, nele, se passa? No  crime amar, e Deus abenoa o amor das criaturas honestas, como um sagrado impulso da natureza, tanto mais forte quanto mais contrariado. Voc  mulher forte. Os seus afetos devem ser mais intensos e impetuosos que os das outras, frgeis e passivas, entre quem vive deslocada, sempre como estranha, porque no foi feita para nascer e viver entre essa gente. Nisto consiste a sua infelicidade. Voc sente que, em volta, entre os seus amigos e conhecidos, ningum a compreende e a estima como merece. Da,  fcil imaginar quanto sofreria se viesse a amar algum indigno de voc...  um desastre que, vulgarmente, acontece, causando desgraas irremediveis...

- Por que me diz isto?

- Sabe que, nesse trama, contra Alexandre, aparece uma rapariga que o acusa?

- A Gabrina...

- Como soube?...

- Alexandre, ainda h pouco, contou-me tudo...

- Ah!... Ele lhe falou nisso?!... E voc?...

- Que importa... Tanto se me d que ele queira bem a ela como a outra qualquer...

- Empenha-se ainda em libert-lo?...

- Por certo. No penso noutra coisa...

- Admirvel!...

- Puno por ele porque me diz o corao que est inocente. Ainda que fosse culpado, confessasse o crime, eu no era capaz de abandon-lo na desgraa...

- Mesmo tendo cometido o crime por causa de outra mulher?

- Que tem isso?... Ele  senhor do seu corao, pode d-lo a quem quiser. Demais, querer bem no  obrigao. Eu no poderia exigir que ele me pagasse alguns servios de amizade, ligando-se a mim, ele um moo branco, eu uma pobre mulher de cor, sem eira nem beira, com  me doente s costas, neste tempo de seca e carestia de tudo. Alm disso, ningum gostaria de casar com uma criatura, que tem o apelido de Luzia-Homem, como esse que o meu fado ruim me deu...

- De homem s tem a fora;  bem bonita rapariga... Que pretende, ento, fazer?...

- Quando Alexandre for solto, pego em minha me, que est melhor, e marcho para a praia, como os outros retirantes.

- Voc  uma extraordinria criatura, Luzia. Cada vez mais interesse me desperta...

- Reconheo que faz isso por bondade de santa... S lhe peo que se empenhe com seu dout para acabar esse tal de inqurito, para libertar Alexandre e a mim, que no devo me arredar daqui, enquanto ele padecer...

- Fique descansada. Farei o possvel... Aqui para ns... Meu marido no acredita na histria da tal Gabrina; desconfia mesmo que ela foi insinuada...

- Ah! No acredita, no ?!.. acudiu Luzia, com estranha vivacidade, iluminado o rosto, num fulgor de vitria.

- Pobre corao, que te atraioas  observou dona Matilde, sorrindo, deliciosamente irnica.

- Gabrina  ingrata e vingativa como uma cobra...

- Meu anelo  que voc e meu marido tenham razo, mas desconfiarei at verificar a verdade... Oh! os homens...

- A senhora  ciumenta?...

- Como uma leoa, como toda a mulher apaixonada at  loucura...

Luzia espetara na bela senhora, os olhos espavoridos, onde havia algo de surpresa e prazer, ante a revelao, que estalou vibrante. 

- Deve ser assim  murmurou como se monologasse  Raiva de ona contra quem lhe bole na carnia, ou lhe rouba os filhos... Fui m; ofendi Alexandre. Agora  tarde... O que est feito no est mais por fazer...

- No desespere, Luzia.  bem possvel que tudo acabe do melhor modo e voc seja recompensada de tantas aflies e cuidados. Tenha coragem. No se amofine. No quero que os meus belos cabelos embranqueam por muito apurar o juzo em coisas tristes...

- A senhora  do cu, dona Matilde.

- V sossegada que, hoje mesmo,  tardinha, cuidarei da sua causa.

- Faa isso. Ser obra de caridade, que no cair no cho.

Luzia, retendo as lgrimas, rorejantes nos negros olhos ansios, e muito grata, beijou-lhe as mos brancas, duma maciez fina de camura, e partiu.

Na rua, atravancada por enorrnes e pesados carros toscos, arrastados por muitas juntas de bois magros, escapados da devastao do gado, carros de pesadas rodas inteirias e oblongas para que as excrescncias do crculo, os tombadores, diminussem o esforo da trao, sobrecarregados de fardos, caixas de vveres e mercadorias, amarradas entre os altos fueiros; por entre eles e os bois, deitados, rendidos de fadiga, e ruminando tranqilos, sonolentos, e os lbios cinzentos, lubrificados de baba espessa, deslizava a intrmina torrente de retirantes andrajosos, esqulidos, torpemente srdidos, parando de porta em porta, a mendigarem uma migalha, ossos, membranas intragveis, os resduos destinados a repasto de ces.

No largo da feira, a aglomerao asfixiava em redor das vendas ambulantes de mantimentos, expostos em caixes, sacos, sob os tamarineiros, trapis frondosos,  sombra de toldos de estopa, manchada de largos remendos variegados.

Magotes de crianas nuas, de hedionda magreza de esqueleto, de grandes ventres, obesos e lustrosos como grandes cabaas, lanavarn olhares, terrveis de avidez, sobre pilhas de rapaduras, grandes medidas de quarta, desbordantes de farinha e feijo, pencas de bananas, rimas de beijus, alvssimas tapiocas, montes de laranjas pequeninas e vermelhas, colhidas na vspera, nos pomares murchos da Meruoca.

Os mseros pequenos, estatelados ao tantlico suplcio da contemplao dessas gulodices, atiravam-se s cascas de frutas lanadas ao cho, e se enovelavam, na disputa desses resduos misturados com terra, em ferozes pugilatos. Era indispensvel ativa vigilncia para no serem assaltadas e devoradas as provises  venda, pela horda de meninos, que no falavam; no sabiam mais chorar, nem sorrir, e cujos rostos, polvilhados de descamaes cinzentas, sem msculos, tinham a imobilidade de coiro curtido. Quando contrariados ou afastados pelos mercadores aos empuxes e pontaps, rugiam e mostravam os dentes rodos de escorbuto. Eram rfos quase todos, ou abandonados pelos pais; no sabiam os prprios nomes, nem donde vinham. Privados de memria, bestificados pela carncia de carinhos, anestesiados pelo contnuo sofrer, eram esses pequeninos mendigos gravetos de uma floresta morta, despedaados pelos vendavais, destroos de famlias, dispersadas pela ruptura de todos os laos de interesses e afetos.

s vezes, a morte os surpreendia durante o sono, junto de um tronco ou na soleira de uma porta. Trespassavam como pssaros, sem contores, sem estertor, sem um gemido, silenciosos, tranqilos, num sossego de morte, num sossego de liberdade.

Luzia atravessou, rapidamente, o largo da feira, evitando o contacto e desviando os olhos dos grupos de mendigos nauseabundos, pois se ainda no habituara ao pungente espetculo da misria nfima, degradada e feroz. Empolgada pela comoo da entrevista com Alexandre, pelas palavras de conforto da sua adorvel protetora, rememorando o que esta lhe dissera sobre o amor e o cime, quase esbarrou em Crapina, que a saudou corts; e, bamboleando em ademanes amveis, arriscou:

- Adeus, feitio...

A moa estremeceu de susto, fez um gesto de clera, e seguiu mais depressa.

- Voc no tirou ainda o juizo da Luzia-Homem? - perguntou a Crapina o Cabecinha, que fazia com ele, o servio de policiar a feira.

- Qual o qu!...  respondeu o soldado, carregando a caraa, muito despeitado  Aquilo  uma fera, braba como cascavel; mas hei de amans-la	por bem ou por mal...

- Aquela mesma no cai com duas razes...

- H de ser como as outras: muita soberba, muito luxo... tudo bobages. A demora  a gente teimar e esperar com pacincia. J lhe teria dado uma ensinadela se o estupor do Delegado no estivesse atravessado comigo...

- Eu acho que voc faz mal em se meter com a vida daquela mulher...

- J agora  impossvel recuar. Por causa daquela no-sei-que-diga tenho perdido noites de sono, maginando na raiva que ela tem de mim, s poroue me engracei dela...

- S faltava dar o Crapina, em namorado sem ventura.

- No caoe, Cabecinha. H mulheres mandingueiras, que pem na gente um veneno que s elas podem tirar. Fica-se tomado por dentro de uma dor que no di, mas sofre-se sem saber porqu; no se tem onde botar o corpo; no h cama nem rede, que caiba a gente; finge-se no fazer caso; procura-se distrair com outras mulheres, como quem se embebeda para ficar valente, ou para esquecer... Tudo peta... O veneno vai queimando o sangue, faz febre, dor de cabea e fastio. E o corao vai inchando, crescendo, at que estoira...

- Voc, ento, cabra velho, est mesmo ervado?... Tibes! Que cobra te mordeu!...

- No tenho a vida para negcio; nem conheo a cor do medo; nunca fiz caso da morte, e queria ter de anjos para acompanharem a minha alma, as vezes que tenho visto boca de bacamarte e faca de ponta em cima de mim ... mas, fico mesmo mole diante dessa mulher encantada; fico sem ao e aluado, quando ela passa por mim, e me repuna...

- O melhor, j lhe disse, seu Crapina,  pensar noutra coisa.

- Isso  bom de dizer... Nem que queira no posso.  urna desgraa. A voc, que  amigo, posso falar a verdade. Tenho feito tudo para reduzi-la. Lembrei-me at de botar dormideira na jarra d'gua...

- E se ficar doente; se morrer?!

- No h perigo. A Joana Cangati sabe fazer a mandinga. Mas o diabo da velha Zefinha no dorme; passa a noite tossindo e gemendo; e, agora, havia a Teresinha de se meter de gorra com elas para me atrapalhar. Tem-me dado vontade de torcer o pescoo daquela galinha...

- Voc est se metendo numa rascada...

- Saberei manobrar para me desapertar, quando for preciso. Agora, estou esperando que ela se desengane do ladro do Alexandre...

- Qual! Mulher, quando principia a querer bem, fica viciada: larga um, arranja outro.

- Aquela no  dessas. Luza  sria...

- Ora, adeus, seu Crapina. Quando dorme...

- E honrada...

- S se for na testa.

- J lhe disse.

- Est bom; est bom!... No vale se zangar por to pouco. Nada tenho com isso. Voc mesmo  quem est puxando conversa... Arrume-se com a sua donzela, ruim de amansar, e seja muito feliz. Faa-lhe bom proveito aquela jia.

- Tambm maldei que aquilo tudo era soberba, luxo ou aleijo da natureza, mas entrei a especular a vida, os particulares dela, e, verifiquei que  mesmo dura como pedra. Quanto mais certeza tenho, de ser ela bem procedida, mais o diacho da rapariga se me encravilha na cabea. Eu no gosto de mulher que me azucrine, mas tambm refugar como aquela  da gente desesperar.

- Por que no lhe prometes casamento?

- Se ela no me quer ver nem pintado... Alm disso, por mal dos meus pecados, sou casado.

- E a mulher?...

- Sei l. No combinava com o meu gnio, nem pegava do meu jeito... Era um demnio em figura de gente, rezinguenta e respondona. Um dia, brigamos mesmo de verdade: dei-lhe uns pescoes, e o diabinho anoiteceu e no amanheceu. Levantei as mos para o cu. Boi solto, lambe-se todo...

- Por essas e outras,  que nunca fiz semelhante asneira. Para peso, basta a granadeira e a mochila.

- Deixe l... Sempre  bom ter quem pregue botes na farda, engome as calas, a tempo e  hora.

- Se contas com aquela, ficas desabotoado toda a vida. Tome o meu conselho, seu Crapina. Quem me avisa, meu amigo . Deixe a Luzia de mo. Olhe que lhe acontece desgraa, quando menos pensar. Voc tem sangue na guelra e o corao perto da goela. Tome cuidado.

- Sei o que hei de fazer, e ando de rdeas tesas. Quando a vejo, ardo por dentro; d-me vontade de reinar, mas fico quieto e mudo como cascavel de tocaia, esperando a minha vez para dar bote certo. Ento nem reza de cigano, nem orao de padre velho a livra de mim. Eu c sou homem de tenncia. Quando viro a cabea para uma banda, nem o diabo a endireita...

Crapina sacou da ilharga uma grande faca, fina e pontiaguda, e ps-se a cortar um pedao de fumo mapinguim para fazer um cigarro.

- Que bonita faca!  observou Cabecinha.

- Pasmado verdadeiro. Traspassa uma moeda de dois vintns  disse Crapina, fazendo vibrar com a unha o gume afiado.  Ah! se este ferro falasse!...

- Vamos ali, ao Antnio Benvindo, tomar uma tera?

- Vamos l, mas s tomo zinebra.

- Est feito.

Os dois soldados se dirigiram para a bodega, continuando a conversar.

O sol dardejava, a pino, intensa luz sobre o largo da feira, coalhado de gente. Redemoinhos intermitentes revolviam o p clido, que se elevava em espirais, envolvendo retirantes e mercadores em bulces amarelados e sufocantes.





XVI

Desde esse dia, cessaram as visitas de Luzia  cadeia. Teresinha tomou a si, com prazer, a piedosa incumbncia de levar comida ao prisioneiro, que a recusou tenazmente.

- Deixe-se de asneiras, seu Alexandre  disse-lhe ela  Isto at parece desfeita. A Luzia no vem afetiva como dantes, porque no pode mais faltar ao servio; e, agora, que a tia Zefinha vai melhor, no h mais desculpa para estar recebendo a rao sem trabalhar. Poderia vir  tarde, mas voc sabe que, depois das quatro horas, no deixam mais falar com os presos.

- No me iludo  respondeu-lhe o moo, em tom de funda tristeza  Luzia desconfiou de mim. Acreditou, talvez, na histria da Gabrina, ou supe que tenho alguma coisa com aquela grande mal-agradecida.

- No suponha que ela esteja amuada... Qual o qu!... Aquela no se afoga em poucas guas, e a prova  que continua a fazer o possvel para obter a sua soltura...

- Sei; mas somente para mostrar agradecimento e no por merecimento meu. Sinto que est tudo acabado entre ns. Luzia  decidida, e bem percebi que no tinha mais nada que esperar quando me disse, francamente, a, nesse lugar em que voc est agora: - quando for solto, cada um de ns tomar o seu rumo.

- Mas, por isso, no deve recusar o de-comer, que ela mesma preparou com tanto gosto.

- No h mais razo para repartir comigo a poro, que mal chega para ela e a me.

- Pensei que s ns, mulheres, ramos caprichosas.

Desenganada de vencer a formal recusa de Alexandre, Teresinha distribuiu a comida pelos meninos, que estavam ali de visita aos pais presos, generosidade que lhe valeu agradecimentos de uns e, de outros.

Luzia voltara, com efeito, a trabalhar na penitenciria do rnorro do Curral do Acougue.

As paredes mestras estavam quase concludas: trabalhava-se com afinco no madeiramento da coberta, e j estava em construo a muralha em volta do edifcio, formando um recinto, onde os sentenciados pudessem trabalhar ao ar livre, ou sob telheiros destinados s oficinas. Nas barracas improvisadas moirejavam carpinteiros, de troncos nus e suarentos, no preparo das grandes vigas das amendoeiras e tacanieas do tabuado para o soalho e portas e da obra de esquadria. Ao rudo das enxs, falquejando o rijo pau-d'arco, ao sibilar das plainas e cepilhos raspando das pranchas de cedro, longas espirais encaracoladas e cheirosas, misturavam-se a dos malhos nas bigornas sonoras, onde grossos vergalhes de ferro, candentes nas extremidades, disparavam chispas de encontro aos aventais de coiro dos ferreiros, enegrecidos de fumaa e carvo, fabricando grades invencveis, junto dos grandes foles ofegantes, como pulmes de um monstro.

A negra torrente de retirantes operrios deslizava pela encosta spera, em marcha de cobra, conduzindo materiais. Era o mesmo vai e vem ininterrupto de homens, mulheres e crianas envoltos em rolos de p subtil, magros e andrajosos, insensveis  fadiga, ao calor de culminar passarinhos, taciturnos uns, os semblantes deformados por traos denunciadores de ntima revolta impotente; outros, resignados, como heris, vencidos pela fatalidade; muitos, alegres e sorridentes, cantavam e brincavam, como criaturas felizes de encontrarem refgio do assdio angustioso da fome, da misria, da morte.

Quando Luzia se apresentou ao apontador, houve um movimento geral de surpresa e curiosidade. Ningum a esperava ver de novo; era considerado morto ou emigrado o trabalhador que desaparecia da obra. Notavam que estava mais esbelta, graciosa, a cor rnais clara pelo repoiso de alguns dias. Havia misteriosa alterao no seu semblante. As vigorosas linhas de energia mscula se contraam em curvas melanclicas, e, nos olhos meigos, flutuava a sombra do ideal morto entre chispas fulvas de anelos incontentados. As atitudes lnguidas e os gestos lentos denunciavam fadiga moral, ou a preguia voluptuosa das felinas amorosas. Dir-se-ia que se lhe haviam atenuado os tons varonis, e, da crislida Luzia-Homem, surgira a mulher com a doura e fragilidade encantadora do sexo em plena florescncia suntuosa. Irradiavam dela fluidos de simpatia, empolgando os companheiros de infortnio, como prestigiosa transfigurao. Estes no experimentavam j a repulsa que lhes causava a moa bisonha, arredia, taciturna, sempre enrolada no amplo lenol de mandapolo branco.

- Como est mudada!  murmuravam as mulheres.

- E no  que a Luzia est ficando bonita!  diziam os rapazes, mutuando olhares sensuais.

- Parece que esteve doente.

- S se foi de mal de amores.

- Quem sabe? Amor no mata, mas maltrata.

- Qual, mulher! Aquilo  o cansao de estar fazendo quarto  me, que estava vai-no-vai. No h nada para escangalhar uma criatura como labutar com doentes...

- Ela  um tanto soberba, mas  boa filha at ali.

- Quem  bom filho,  bom em tudo o mais  observou um velho.

Os comentrios chegavam aos ouvidos de Luzia, como ecos do murmrio de maldio, que a perseguia por toda a parte, at na igreja, no trabalho, quando atravessava a multido de retirantes.

E ela, que antes os afrontava em retraimentos de clera mal contida, estremecia, agora, plida e tmida, em angustioso sobressalto de conscincia perturbada por inteira e desconhecida mcula, estranha sombra de homem projetando-se no vcuo, que a inocncia lhe deixara no corao, como a pegada de um crime, ou o espectro de um remorso. Devia ser assim cruciante, o primeiro momento aps o pecado: a alma escondida, envergonhada e temerosa, nos mais ntimos refolhos das entranhas profanadas, aguilhoadas pelos instintos insaciados, agueados pelo gozo revelado, trada por eles, delatores impudicos e implacveis. Atravs do corpo difano, penetrariam depois olhares da turba, compassivos ou rancorosos, devassando as peripcias e os destroos da secreta luta, e condenando a vtima, que no pudera vencer.

Luzia s se confessava culpada de haver perdido a energia inflexvel, que a preservara at ento, como invulnervel coiraa, sem a qual no tinha j integridade moral para resistir a si mesma, varrer do corao essa indelvel imagem de homem, libertar-se do tormento de senti-la transfundida no seu ser, misturada com o seu sangue e os seus pensamentos. mpetos de rebeldia, assomos de reao esmoreciam na delcia de capitular, e sucumbir aniquilada. E se lhe figurava que toda a gente em derredor, amigos, indiferentes, adversrios maliciosos, grandes e pequenos, testemunhavam os seus impotentes esforos, de passarinho fascinado pela cobra, a luta desigual, o prazer com que ela se deixava vencer, apoucada e dbil.

O administrador da obra, seu protetor, percebera a transformao por que passara, designando-a para trabalhar com as costureiras.

- Sabe, Luzia  disse-lhe ele  A senhora do Promotor pediu-me que no lhe desse servios braais. Ela se interessa muito por voc, como eu, como todos que a conhecem. Era tambm inteno minha deix-la repousar. Est-se vendo quanto a fatigaram os cuidados, os vexames sofridos pela sade de sua me.

Luzia baixou os olhos, e corou humilhada. Preferira  ocupao sedentria de costureira, continuar na faina de carregar gua nos grandes potes, que estavam servindo de depsito, conduzir telhas em companhia daqueles infelizes, que vergavam ao peso de uma dzia delas, ir s caieiras longnquas buscar tijolos nas altas tulhas, que ao Paulo, francs, se haviam afigurado paredes na cabea de uma mulher, rolar pesados madeiros, grandes pedras, trabalhos que lhe exercitassem os msculos e lhe produzissem o atordoamento da fadiga.

Acudiu-lhe, ento,  memria, a quadra da infncia, passada no Ipu, em casa da mestra que lhe ensinara ler; os cocorotes e castigos sofridos por no resistir ao sono, quando condenada a ficar dias inteiros sentada diante de uma almofada a trocar bilros crepitamos, entretecendo delicadas rendas e curtindo a nostalgia do ar livre e puro nos campos verdejantes e floridos da fazenda Ipueiras.

Mas... era foroso submeter-se  ordem do administrador, to bom e compassivo, que lhe dera muitos dias de licena para tratar a pobre me enferma.

Na maioria das barracas, em forma de meia-gua, coberta de folhas de carnaubeira, Dona Inacinha, que, desde as misses do padre Ibiapina, renunciara os efmerosgozos mundanos, para se fazer beata professa, distribua o servio de agulha em tarefas. A Luzia, coube um enrolado de algodozinho, onde estava cravada uma agulha, atravessando um molho de linha e sustentando, subposto, um dedal de cobre.

- Cosam com muito cuidado  recomendou ela s costureiras  que isto  trabalho especial para a comisso de senhoras, que me mandou seis peas de fazenda para desmancharmos em roupa. No quero obra de carregao como a dos sacos. Vejam que as mos estejam bem lavadas, pois tenho singular implicncia com a costura suja.

Luzia ocupou o primeiro lugar vago, distanciada das outras, surpreendidas com o v-la ali, quando trabalhava sempre com os homens; enfiou a linha na agulha e estava muito atrapalhada com o adaptar e alinhavar peas j cortadas, quando Dona Inacinha se acercou, como sempre, enfezada e rabugenta.

- Voc parece que nunca viu costura  rosnou, em tom de spero remoque  Tamanha mulher, e no sabe por onde h de comear um par de ceroulas de homem.

Luzia sentiu subir-lhe ao rosto, impetuosa onda de sangue.

- Olhe  continuou a beata, armando sobre o nariz rubro e adunco, grandes culos de lato com as hastes ligadas em torno da cabea por um cadaro preto, lustroso de banha  primeiro as pernas pospontadas e sobrecosidas; depois o gavio em separado, terminando nesta tira que serve de cs. Voc ajunta as duas pernas, cosendo-as no gavio com as preguinhas que forem necessrias para dar certo. No meu tempo, dava conta de duas por dia sem me cansar.

As companheiras de trabalho sorriam, ironicamente, da lio e do desazo de Luzia, confusa e amesquinhada, injustamente, porque sabia coser bem e depressa, mas no estava habituada a fazer roupas masculinas.

Aquela tarefa, escolhida ao acaso, era um prolongamento da obsesso que a torturava; avivava-lhe, a cada ponto da agulha, a lembrana do prisioneiro a pungir-lhe o corao com o remorso de o haver abandonado num mpeto de despeito, cime ou capricho pueril que ela tentava em vo justificar com o pretexto de preserv-lo da influncia funesta com que a marcava o destino. Causava-lhe, tambm, imenso d o haver deixado, com desdm, no parapeito da grade da cadeia, os cravos vermelhos, emurchecidos nos seus cabelos, ao calor do seu seio, onde os guardara carinhosamente, como um talism prestigioso.

E assim passou o dia, at que o martelo do mestre da obra anunciou a terminao do trabalho, batendo, rijo, cadenciados golpes secos, vibrantes, sobre uma das tbuas dos andaimes.

Luzia ergue-se aliviada, entregou a tarefa concluda, e partiu, ansiosa por ver a me e Teresinha, que lhe daria notcias de Alexandre, notcias ms porque ele devera ficar magoado, vendo-se tratado com tanto rigor por quem lhe devia, pelo menos, favores inestimveis, desses que impem o suave jugo de gratido imperecvel.

Justificando-se, ela ponderava que, em conscincia, o reconhecimento no a obrigava ao extremo passo de consagrar-se para sempre a um homem preso, sob a imputao de um crime grave, envolto em densa atmosfera de suspeita, quando ela tinha outros deveres sagrados que cumprir, velar pela me e conservar a prpria vida, ameaada pelo assdio cada vez mais apertada de privaes e misria. Estava pagando a dvida de gratido com o empenho sincero em libert-lo. Demais, no se expusera, todos os dias, ao vexame de encontrar o soldado maldito? no repartira com ele o seu po minguado? no chegava ao extremo sacrifcio de afrontar a vergonha de vender os cabelos por causa dele?

No, a conscincia no a acusava,, mas outra vez, mais forte, vibrava dentro de seu peito, em acentos dolorosos, exprobando-lhe a covardia cruel de s haver abandonado o desditoso moo, quando, entre os dois, surgiu a figura odiada da mulher delatora, amante impudica, que apregoava a prpria infmia, carcias pagas com o produto do crime, e se vangloriava de haver provocado a runa de um homem de bem. E a sinistra voz, que a vergastava, prosseguia em tom mais brando e carinhoso: Seja ele, embora, culpado; tenha sucumbido  tentao em momento de sncope do senso moral; ame outra menos digna;  um desgraado, cuja sorte est ligada  tua por laos fatais, inquebrantveis. O teu lugar seria junto dele, consorte do infortnio, ajudando-o a carregar, o peso da sua falta, a arrastar a calceta, deprimente... porque o amas... Entretanto, Alexandre  inocente e sofre duplamente, porque lhe infringiste a tua desconfiana. Vai, mulher caprichosa e brbara, prostra-te aos seus ps; unge-lhe as mos impolutas com o blsamo das tuas lgrimas, com os teus beijos de virgem, e pede-lhe perdo da tua fraqueza vil. No lutes, debalde, contra o destino inexorvel. Aquelas pobres flores murchas se radicaram no teu duro corao, como o cardo  rocha, e revivem enseivadas com o suor da tua angstia, coloridas com o teu sangue, envenenando-te com o filtro mgico e inebriante, que destila emanaes de fragncia suavssima.

Luzia acelerou a marcha para chegar a casa, encontrar pessoas amigas e evitar a sugesto daquela voz ntima e eloqente, que lhe derrubava todos os meios de defesa, engendrados para resistir ao secreto impulso, preserv-la da sorte de Teresinha, pranteando o homem cruel que a maltratava e relembrando, com saudade, a sua sensualidade, impetuosa e brutal como a dos toiros bravios; para ficar livre de eleger, oportunamente, aquele que deveria complet-la, que lhe abriria as portas do cu s aspiraes de moa; ou o homem que ela empolgaria num atrevido lance poderoso, como o dos gavies arrebatando a presa, conquistando-o vitoriosa.

No seu esprito inculto, essas idias se chocavam em confuso, aterrando-a; sobre o tumulto, ardido fragor de peleja encarniada, permanecia, dominando-o, inconfundvel como um clangor de clarim, a sedutora, a mscula voz do demnio tentador...





XVII



O beco da Gangorra terminava na vrzea, que o rio Acaracu inundava nas cheias, em um renque de casas velhas habitadas por michelas e soldados do destacamento. Belota ocupava uma delas, paredes-meias com o quarto de Teresinha, que s ali aparecia, raramente, para mudar de roupa, ou, consoante ela dizia, vigiar os seus terns, um ba tauxiado de pregos doirados, uma pequena mesa desconjuntada, o pote d'gua e alguns objetos de cozinha.

A porta de Belota, quase ao escurecer, Romana, Joana Cangati e Maria Caiara conversavam acocoradas e cigarreando, muito desenvoltas e palradeiras. Romana, sempre rolia, com os cabelos duros de pomada cheirosa, aljofrada de empolas de suor adiposo, a ponta do nariz curto e arrebitado, e mostrando os dentes pontiagudos, contava casos escandalosos, que as outras contestavam, ou ampliavam e comentavam com insinuaes picantes e grosseiras, ou se espraiavam em mexericos triviais sobre a crnica da ral. Joana Cangati, a mais sria das trs, metida a rezas e bruxarias, desde que por uma praga, irrogada pela me, ficara com o tero escangalhado de um aborto, obra do demnio, porque a conscincia no a acusava de haver feito por onde, dava-se certo recato e modos de mulher sria, muito temente a Deus. Maria Caiara, bem conformada, galante rapariga, a qualquer graola de Romana, despejava o riso em gargalhadas estrdulas.

- Ento  dizia Romana  o tal Alexandre est cada vez mais embrulhado.

- No sei  observa a Cangati  Quem havera de dizer?! Eu, meu Deus perdoai-me, no vi ele furtar; por isso no digo nada; mas h coisas que s pintadas pelo co...

- Qual o qu!  continuou Romana  a Gabrina que o diga. Quando soube que ele estava todo babado pela Luzia-Homem, desembuchou e contou tudo...

- O que cime no fizer...

- E fez muto bem, sa Joaninha. Voc, comparando mal, quer bem a um homem, tem confiana nele, nas suas promessas, se ele no lhe corresponde e atraioa, no tem mais obrigao de guardar fidelidade. No ?... No faltava mais que estar empatando a rapariga com outra de olho e j de casamento tratado. Iam embora juntos e, muito que bem: a Gabrina que ficasse com os beijos com que mamou ou com cara de besta...

- Pois eu  atalhou a Caiara  s quero quem me quer. Entojou de mim?... Melhor!... Homens no faltam.

-  porque voc, mulher, nunca teve paixo de fazer a gente perder noites de sono...

- Paixo  bobage, sa Joana...

- Ento voc no sabe que a Gabrina queria bem ao Alexandre, calada, sem dar demonstrao. Andava atrs dele bebendo ares; ficava horas esquecidas na porta do armazm da Comisso, olhando pra ele com olhos melados de piedade que parecia quererem engolir vivo o moo?...

- Histrias...

-  o que lhe digo, por esta luz. Deus d muitos anos de vida a quem ela pediu uma orao forte, a do "Santo Amncio te amanse", para amolgar corao de homem ingrato.

- E aquela bestalhona acredita na virtude dessas bruxarias? 

- Bruxarias?!... Bata na boca, Romana, para no ser castigada. Com santo no se faz mangao.

E a Cangati entrou a contar casos assombrosos, que no conseguiram dominar o cepticismo de Romana.

- Mas  ponderou Caiara  se ela estava mesmo cada pelo Alexandre, como  que foi contar a histria do dinheiro e dos cortes de vestido dados por ele, e agora anda toda derrengada com o Crapina?

- Tudo por pique. Cime faz reinao do demnio, e torna uma pessoa boa malvada como uma cascavel. Depois ela e Crapina se entendem; sofrem do mesmo mal; andam os dois com o juzo entornado: ela pelo Alexandre, ele pela Luza-Homem. No sei como isso acabar. Talvez nalguma desgraa...

- Qual desgraa, qual nada.  uma coisa que se v todos os dias. Desenganados, cada um vai para a sua banda cuidar em outra coisa... Amor desencontrado.

-  porque voc no conhece o Crapina, nem a Gabrina. Ele  o que se sabe, capaz de tudo, at de mandar gente desta para melhor; ela, uma bichinha teimosa como uma mosca, e ruinzinha que faz d. No se me dava de jurar que ela inventou aquela histria para desgraar Alexandre... Ronha no lhe falta.

- O qu?!...

- Cala-te boca... No est mais aqui quem falou... Faam de conta que no ouviram nada.

- Voc que diz isso, sa Joana,  porque sabe alguma coisa.

- No sei nada.  uma cisma que tenho.

- Ela no tinha astcia para inventar uma histria to bem contada, to cheia de circunstncias. Se no foi do furto, quem lhe deu dinheiro para comprar um par de brincos de ouro?

- Sei l! No quero esmiuar a vida dela, nem a de ningum; mas vocs no a conhecem, repito:  capaz de dizer que Deus no  Deus e no h ningum mais manhosa debaixo daquela sonsido de menina!

- O qu, sa Joana; voc parece que inticou com a rapariga!

-  muito arrebitada e mal-ensinada; mas eu at gosto dela...

- Olhem quem est ali  exclamou Maria Caiara, apontando para Teresinha, que abria a porta do quarto.

- Bons olhos a vejam  disse a Cangati, com modos amveis.  Por isso  que a tarde est to bonita!...

- Boas tardes  respondeu Teresinha, secamente.

- Por onde tem andado, que mal pergunto?

- Por a mesmo...  tornou Teresinha, entrando para evitar bisbilhotices, e dar trela s trs vadias, muito do seu conhecimento como catanas, que nada poupavam.

Belota mantinha tavolagem, frequentada por parceiragem de nfima condio e mal-afamada, Z Zoio, Cndido da Bertolina, exmios artistas da vermelhinha, operosos contribuintes da estatistica criminal e heris de todos os distrbios que agitavam a paz da cidade. Eles se encarregavam de atrair as vtimas: comboieiros e matutos ingnuos; e, depois, como viciosos de raa, repartiam, ao jogo, as quotas das extorses.

Crapina era freqentador assduo, principalmente quando se jogava o monte, partida de sua predileo.

Os outros parceiros no se davam bem com ele, por ser muito rezinguento. Por qualquer pretexto, armava barulho e, muita vez, estivera a pique de fazer gua suja, inconveniente aos crditos da casa. 

Desde que tomara a peito quebrar o encanto de Luzia-Homem, andava-lhe a sorte arrevesada. Perseguia-o um caiporismo incessante, que o tornava ainda mais irritadio e trfego, principalmente quando Belota, chasqueando, insinuava que ele estava contra o sentido do rifo, sendo infeliz no jogo e no amor, e atribua as perdas considerveis, que ele sofria, ao fato de andar com o juizo passeando, em vez de fix-lo nas cartas ensebadas e sujas do baralho, recurvado em forma de telha pela presso do partir, repetindo-lhe a cada pexotada, que jogador no guarda cabras.

Nessa tarde, o jogo fervia l dentro, e as trs mulheres continuavam a grasnar, aguardando as gorjetas dos afortunados, e fazendo de vigias para avisarem aos jogadores a aproximao do sargento Carneviva, que era um duende para os soldados. Em achando banca armada, podiam os viciosos contar com os mais severos castigos, o servio dobrado com mochila s costas em ordem de marcha e sarilho, quando no eram esfregados com surra de espada de prancha, ou de cip de raposa.

Crapina estava num dos seus piores dias. Perdera j quantia to avultada, que os parceiros procuravam, surpreendidos, atinar onde arranjara ele tanto dinheiro. Os prejuzos montavam a vinte que haviam passado, suavemente, para os bolsos do Zoio e do Cndido, nos quais Crapina encarava desconfiado, atribuindo a batota, em que eram useiros e vezeires, tamanha fortuna.

- O Senhor  disse-lhe Zoio, cravando-lhe, de esguelha, os grandes olhos esbugalhados  parece que est maldando de ns!

- No estou maldando  resmungou Crapina  mas tanta sorte junta  de fazer a gente desconfiar...

- Pois se desconfia  avanou o Vicente, em jeitos arrogantes  o remdio  no jogar mais ns. Veja o seu Belota se se queixa...

Cndido, velhaco e pouco expansivo, no falava, exasperando com um sorriso irnico, o soldado infeliz.

- No me queixo  observou Belota  porque estou com o juzo no jogo. Voc, Crapina, no tem razo. Estou com um olho no padre e outro na missa, e no admitiria trapaa... principalmente em minha casa.

- Nem ns seramos capazes de abusar...  acrescentaram, quase ao mesmo tempo, os outros parceiros, com uma vasta exibio de escrpulo.

- Vocs so capazes de tudo!  tornou Crapina, irritado.


- Veja como fala!

- Tenho visto o que fazem com os matutos. Comigo fia mais fino... Se eu perceber qualquer tramia...

Foi-se azedando a discusso at falarem todos, em tumulto, trocando injrias e doestos, apesar da interveno conciliadora de Belota, para evitar um conflito.

Teresinha, que fechara a porta da rua para mudar de roupa, foi atrada pelo rumor e no resistiu  curiosidade de saber donde provinha. Dirigiu-se, cautelosamente, ao pequeno quintal; e, firmando os ps nas fendas dos tijolos carcomidos, guindou-se acima do muro que dava para a casa vizinha. Da descortinou a tumultuosa cena, a fria de Crapina, as ameaas dirigidos aos parceiros venturosos, s rplicas destes, cheias de malcia irnica, audaciosos, porque, aliados como estavam, no se arreceavam do insolente soldado, nem eram homens que morressem de caretas, mesmo das mais pintadas.

Chegou o momento em que esteve iminente a conflagrao. Vicente, sempre calmo, sempre sorridente, considerava, que tanto direito tinha Crapina de desconfiar deles quanto estes; entretanto no o faziam, porque no queriam cascavilhar na vida alheia.

- Para saber  atalhou o Cndido  onde voc desenterrou botija para ter tanto dinheiro para perder.

- Olhe  acrescentou Zoio  se eu quisesse falar era capaz de o desgraar...

Crapina estremeceu, e levou, de repente, a destra ao cabo da faca, escondida debaixo da farda.

- Pois fale, seu miservel  bradou ele, ganindo de raiva que te hei de obrigar a morder a lngua danada.

- Olha Zoio, meu amigo Crapina  implorava Belota, entre os dois.  Ns somos todos amigos velhos. Para que este baticum de boca... Daqui a nada ouvem l fora... Pelo amor de Deus... Seu Candinho, voc que  mais moderado tenha mo no Zoio, mais no Vicente...

- Pois ento, seu Belota  ajuntou Zoio, com os olhos faiscantes - era o que faltava, um indivduo...

- Depois digam que sou eu quem est intimando!...

- Que  continuou Zoio  no pode levantar a cabea diante de homens de mos limpas, querer ter voz altiva para insultar os outros!... Tenha mo nele, que  soldado como voc e deve respeitar a farda...

Crapina rosnava, acovardado, como fera acuada, subjugado pela serenidade do adversrio. Lvido, de olhar fulvo, ensangentado, resmoneava surdas ameaas, e Zoio, com inquebrantvel energia, continuava:

- No pense que digo isto por estar em companhia e aqui na casa de Belota... Sou homem para o senhor em toda a parte, e como quiser. Se tem Pasmado, eu tenho Paje, ferro de qualidade que nunca me envergonhou... Se o seu j quebrou o preceito, o meu tambm no est em jejum...

- Pelo amor de Deus  suplicou o Belota, com lgrimas na voz  Basta!... Basta!... Est acabado por hoje, meus amiguinhos da minh'alma... Vocs parecem crianas...

- Olha, cabra, toma a bno ao Belota...

Depois desta ameaa, Zoio deixou-se conduzir pelo Cndido, que chofrou esta pilhria:

- At mais ver, seu Crapina, quando quiser a desforra... Damos lambuje...

Teresinha, espiando ansiosa, por cima do muro, lamentava o desenlace pacfco da contenda.

- Voc sempre arma cada rascada, seu Crapina  observou Belota, ainda agitado.

- Aquele homem  um precipcio  murmurou o soldado  Se no fosse voc... Deixe estar que os desaforos no caram no cho...

- O melhor  voc no fazer caso...

Belota, com maneiras manhosas de consumado velhaco, tinha enorme predomnio no camarada, que tanto era agressivo e rixoso, quanto cobarde, quando entestava um adversrio considervel. Isto sucedera no caso da Quinotinha, a que o Alexandre defendera, com uma coragem evidente, bonita...

Depois de muitos conselhos e exortaes, Belota pretextou necessidade de ir ao corpo da guarda, prometendo voltar sem demora.

Vendo que Crapina se dirigia para o quintal, Teresinha desceu, ligeiro, do posto de observao, e correu. Mal teve tempo de chegar  porta, atrs da qual se escondeu, trmula de terror.

O soldado, destro como um gato, saltou por cima do muro, e dirigindo-se para o fundo, suspendeu um velho caixo, atulhado de coisas imprestveis, tirou de sob o qual uma bolsa de coiro de ona, cheia de dinheiro.

Enquanto o soldado contava, umedecendo os dedos na lngua, as notas midas, dilaceradas e srdidas, Teresinha, no esconderijo, procurava, em vo, conter as pernas vacilantes, quase a vergarem. Pelos seus olhos espavoridos, passou a viso do responsrio, em casa de Rosa Veado. Uma das sombras, aquela que, com esgares de louco, a arrebatava em volteios macabros pelo ar, em nuvens de fumaa sufocante, estava ali corporizada, bem ntida, contando o dinheiro furtada. O glorioso Santo Antnio operara o milagre. Por precauo criminosa, talvez para arrisc-la, Crapina escondera o furto, denunci-la-ia mais tarde, e ela seria, como cmplice de Alexandre, vtima de uma prova esmagadora.

Entre o terror de se achar a ss com o soldado em to estreito espao, ser por ele pressentida e descoberta, testemunhando o terrvel segredo, e o prazer de haver colhido certeza da autoria do crime, Teresinha vacilava na resoluo por tomar, sem se embaraar nas malhas da rede, em que pretendia apanhar o criminoso. Teve mpetos de gritar, de surpreend-lo em flagrante, e arrast-lo  presena do delegado. Isso, porm, seria perder-se, sacrificar-se, inutilmente, porque Crapina seria capaz de elimin-la, estrangul-la, sem piedade. Ela no poderia lutar, frgil como era e aberta dos peitos, contra um homem vigoroso e armado de uma faca hedionda, cujo cabo de chifre, incrustado de arabescos de oiro, surgia-lhe da ilharga. Ah! se tivesse os msculos de Luzia!

As pernas lhe tremiam, cada vez mais bambas; os dentes se chocavam com estalidos secos, toda ela tiritava inundada de suor gelado, que lhe empapava os cabelos na fronte, e lhe corria pelo dorso, como vermes pegajosos. A cabea andava-lhe  roda; e, na viso perturbada, o soldado se afigurava desdobrado em outros iguais e pequeninos, que avanavam para ela com trejeitos de palhaos. A msera debatia-se para fugir, implorar socorro, como na angstia de um pesadelo.

Os rpidos instantes que se ali demorara o soldado lhe pareceram infindveis; e quando recobrou a posse de si mesma, saindo do esconderijo, p ante p, com meticulosas precaues, lvida, espavorida, viu que o quintal estava deserto. Nada denunciava a presena dele: o caixo estava no mesmo lugar, onde permanecia, havia muito	tempo; no viu pegadas no cho, nem o mais leve vestgio.

E a bolsa?... Ela no ousava verificar se fora reposta onde a vira.

- Seria realidade ou sonho?  nquiria ela, procurando despertar a memria, fixar idias e recompor o fato, em todas as suas mincias  Teria, na verdade, visto Crapina transpor o muro, suspender o caixo e contar o dinheiro?...

Seria a revelao efeito da interveno do Santo?...

Nessa dolorosa incerteza, esgotadas as foras, com os quadris doloridos, como se os houvesse traspassado a faca do soldado, marchou trpega, para o interior do aposento, ento quase escuro, e, subjugada de inelutvel torpor, derreou-se na rede, armada a um canto.

Era quase noite. No se ouvia mais o grazinar das trs mulheres, que haviam partido para a delcia de um gozo, fariscando, numa insaciedade, a fortuna dos jogadores.



XVIII



O relgio da Matriz dava oito horas, quando Teresinha despertou sobressaltada, tomando pela claridade da aurora, o luar que se coava pelas frestas do telhado. Seu primeiro movimento foi para erguer-se, ir ter com Luzia, dar-lhe, como costumava, notcias de Alexandre, e contar-lhe a excelente novidade. Mas, o corpo enlanguescido de to violentas comoes, do torpor do sono, recusou obedecer. Ela permaneceu encastoada na rede, encadeando idias dispersas, e fixando bem, na memria, o episdio que duvidava ainda fosse sonho, ou realidade. Por fim, assaltou-a o medo de estar s na penumbra do quarto, povoado de fantasmas, rumores suspeios que se lhe figuravam passos de homem aproximando-se, hlitos ansiosos, como a sua prpria respirao ofegante.

Com esforo voluntarioso ergueu-se, espreguiou-se para distender as articulaes entorpecidas, e abriu, de manso, a porta.

O beco estava deserto, banhado de luz intensa, suavemente argentina. Na casa fronteira, alumiada pela froixa luz de uma vela de carnaba, chorava, em magoados vagidos, uma criana enferma, acalentada pela me, que murmurava montonas cantigas, cortadas de suspiros. Era a angstia do corao a estoirar de pranto.

Teresinha espreitou todos os lados; fechou a porta sem estrpito, e partiu, dirigindo-se para a vrzea, por uma estreita senda, cavada no solo, ladeado de cisqueiros, farejados, afocinhados de ces magros e murchos, que se esgueiravam desconfiados. Ela passou, depois, cosida aos altos muros do fundo dos quintais, at chegar  encruzilhada das ruas, cheias de escravos, retirantes, gente ,suja, gente esqulida, carregando potes d'gua, colhida nas cacimbas abertas na areia do rio, a conversar, rezingando, em voz alta, com rasgadas desenvolturas de chufas, de arregaos obscenos, com risos estridentes de malcia.

Ao chegar  rua, suspirou libertada do pavor aflitivo; e, outra vez, gozando uma doce serenidade d'nimo, seguiu na direo da igreja do Rosrio, relembrando os incidentes daquela tarde, a cena do jogo, a cobardia no esconderijo, e o terror que lhe no permitia verificar se Crapina deixara a bolsa de coiro de ona debaixo do caixo. Em todo caso, estava satisfeita com o haver logrado a certeza do verdadeiro criminoso, indicado pelo infalvel, pelo glorioso Santo Antniol, e a convico de concorrer para a libertao de Alexandre e a felicidade inteira de Luzia. E reputava-se engrandecida por essa boa ao, renovada do passado de culpas, de crimes talvez, dos quais fora responsvel inconsciente, e, sobretudo, a principal vtima. Entidade diminuda e intil, flutuando sobre uma suja torrente de vcios incontinentes, sentia-se valorizada, sentia-se forte e sentia-se prestante. Duas criaturas, pelo menos, neste mundo de ingratido, de perfdia e de misria, seriam reconhecidas  sua dedicao.

Enlevada no doce conforto do beco, Teresinha foi subindo a rua do Rosrio at ao largo. Em redor do Cruzeiro, erguido defronte da igreja, sobre um slido pedestal de alvenaria, crentes, ajoelhados, rezavam padre-nossos, ave-marias e o tero, murmurado, nuns tons soturnos de devota cadncia.

Do piedoso burburinho, sobressaa a voz de Dona Inacinha, ao recitar, com solenidade de padre, o gloria-patris, respondido pelos fiis, numa algaravia, um mistifrio de latim e portugus: - Os que perderem em princpio, agora im sempre por todos os sculos, seculoro. Amm, Jesus.

A moa prostrou-se, comovida, abeirando-se do grupo, pouco e pouco engrossado pelos transeuntes, de uma reverncia grave, na maioria mulheres, de alvos mantos, a espalharem ao luar, claro como o dia. Havia muito, seus lbios se no entreabriam  floreseneia da prece consoladora, nem despertava, aos eflvios purssimos da f, sua alma agrilhoada ao pecado. Dos hbitos piedosos da infncia, apenas conservava o de persignar-se antes de dormir, antes de tomar banho. No se recordava da ltima vez que rezara, a no ser a orao sacrlega em casa da Rosa Veado.

Terminados os mistrios do terco, Dona Inacinha entoou, com pompa, numa voz fanhosa e spera, o canto de contrio, - "Oh! Senhor Deus bem-amado...", acompanhado por todos os devotos, com uma dissonncia aparatosa, irremedivel. Aos derradeiros versculos, houve uma contrita, houve uma longa pausa. Recolheram-se todos com Deus, curvados e humildes, preparando-se para o solene eplogo do ato religioso, a splica comovente de misericrdia. Quando, esta ecoou, entoada pela beata, em acentos plangentes, as pessoas, afastadas da igreja, reunidas em roda, na calada, tanto que ouviam a splica, ajoelhavam e batiam tambm nos peitos, repetindo, em leve, em sentido balbucio, a invocao  misericrdia divina. Teresinha curvou-se, compungida, e pediu a Deus, sinceramente, perdo dos seus pecados.

Ergueram-se os devotos, como um rebanho de ovelhas, espantado na malhada noturna, e debandaram em todas as direes, depois de beijarem o pedestal da grande cruz negra, que o luar destacava,,com melanclicos fulgores.

Ao toque de nove horas, desmancharam-se as rodas de confabulao amistosa; trocaram-se saudaes habituais e arrastaram-se as cadeiras para o interior das casas, cujas portas se fechavam com estrpito.

Naquele tempo, terminavam a tal hora, com exceo das raras casas da fidalguia da terra, as visitas, fossem de cerimnia, fossem ntimas.  considervel esta nota.

Luzia passeava, impaciente, sob a latada, cujas palhas, muito secas, farfalhavam ao violento embate das rajadas tpidas.

- Que horas so estas?!  exclamou, avistando Teresinha.

- Fui ao meu quarto  respondeu esta  mudar a roupa e peguei no sono...

- Pensei que te havia acontecido desgraa... Tardaste tanto... Estava num p e noutro ansiosa... E ... Alexandre?...

- Na mesma. Poucas palavras e muito sucumbido... Mete d v-lo, coitado!

- Perguntou por mim?

- No. Eu  que falei de voc. Disse-me que no lhe podia pagar o que tem feito por ele; entrou a repetir que j est desesperado... Sempre a mesma ladainha.

- Tem razo. H quase um ms que padece...

- Deixe estar que, mais dias, menos dias, se descobre a verdade. Deus h de permitir que isso seja breve, talvez amanh...

- Amanh?!... Dessa esperana estou farta.

- No desespere, Luzia. Quem espera sempre alcana. Voc nem pode adivinhar o que vai acontecer.

- Sabe, ento, alguma novidade?...

- No.  um palpite.

- Um palpite -toa?...

- Lembra-se, Luzia da minha alma, lembra-se do respnsio?

- Sim. E depois?...

- No lhe dizia eu que tinha f no milagre? Pois  por ter f que prevejo a prxima libertao de Alexandre. Diz-me o corao que ele est ali e est na rua. Ainda h instantinho rezei o tero no cruzeiro do Rosrio, e uma voz interior dizia-me, com segurana: Deus tarda, mas no falha...

- Ento ele nem perguntou por mim!?

Luzia prescrutava, com olhares insistentes, o pensamento de Teresinha, suspeitando que ela lhe ocultasse a verdade, ou que soubesse algo que, por compaixo, lhe no queria revelar. Essa reserva mental devera influir naquele ar de mistrio, velado de ironia, palavras vagas, em completa discordncia do gnio expansivo e alegre da rapariga, uma deleitosa criatura sem aspiraes, resignada ao seu quinho minguado da partilha das coisas boas deste mundo, feita pela Providncia. Entretanto, ela testemunhava, com funda mgoa, a ansiedade, o desconcerto de Luzia.

Esteve a pique de revelar-lhe o descobrimento do dinheiro; mas, por um justo egosmo, desejava reservar para si, exclusivamente, a caridosa iniciativa da libertao do prisioneiro, se bem que no houvesse ainda atinado como tirar partido do que vira, ou tornar valioso o seu testemunho nico, porque no ousara verificar se a bolsa ficara no lugar onde Crapina a escondera.

Era por medo, por cobardia indesculpvel que se no houvera assegurado dessa circunstncia importante, ela que tinha afrontado perigos e estava calejada de suportar as vicissitudes da vida? E se ele houvesse tirado o dinheiro? Tornar-se-iam inteis o descobrimento, o tormento daqueles angustiados, daqueles inolvidveis instantes, porque nada valeriam as suas afirmaes.

Seria possvel que assim se desvanecessem as esperanas da iminente vitria da verdade  calnia, urdida contra o pobre moo!...

Luzia por sua vez, meditava, com os claros olhos fitos na clara lua, a librar-se no cu, de um fino e doce azul. Seu pensamento adejava em redor de Alexandre, que, indiferente, no perguntara por ela, merecedora do castigo desse desdm, e rendida  voz diablica que, das entranhas, lhe bradava, com insistncia lancinante: "s, culpada pelo teu excessivo amor-prprio, pela tua soberba!..."

Seguia-se a revolta, com assomos fanfarres de defesa inconsistente, ftil.

- No quer saber de mim?  pensava ela  Melhor. Fosse eu outra, faria o mesmo. Deix-lo-ia entregue  sua sorte, desobrigando-me de tamanha canseira, pois muito tenho feito para demonstrar-lhe a minha gratido. Talvez isso lhe conviesse para desembaraar-se do compromisso de ligar  sua vida, uma mulher pobre com a me doente, duas bocas a reclamarem de comer, neste tempo de carestia, e maior soma de trabalho. Seria uma loucura pensar em casamento em semelhante crise. Ele, sozinho, poderia suportar privaes, venc-las ou sucumbir consolado de no fazer falta a ningum, como defunto sem choro...

E Gabrina?...  No iria esta ou outra igual ocupar, no corao vazio, o lugar que Luzia abandonara? No procuraria ele, na triste conjuno do naufrgio das suas esperanas, uma afeio que o consolasse, um refgio carinhoso, embora impuro de lascvia, onde se abrigasse para espairecer, como quem se intoxica de bebidas capitosas para curar dissabores, ou se afoga na vasa infecta de um pntano?

Seria horrvel. E Luzia estremecia, sob um pavor, como se fora ameaada do esplio de um bem inestimvel, de coisa a que tinha direito sagrado, coisa que ela criara, e  qual transmitira parte da sua alma, planta que tratara com desvelado carinho, regada com o suor das suas aflies e o orvalho das suas lgrimas, ameaada de ser desarraigado por mo criminosa, quando lhe desabrochavam, pujantes de vio, coloridas e perfumosas, as primeiras flores. No tinha energias varonis, msculos poderosos para defender o seu bem querido, e esmagar o espoliador!?... No tinha o indeclinvel dever de lutar pelo que era seu, e constitua, j, elemento essencial da sua existncia, como se defendesse a prpria vida, o patrimnio inexaurvel dos tesoiros do corao, o precioso quinho da inefvel ventura que, neste mundo, s no amor se encontra?

Como puas lancinantes, esse egosmo, que  a suma de todos os instintos da espcie, tanto mais veementes e indomveis quanto menos culto  o esprito da mulher, no contaminada de pecado, na exuberante razo do organismo sadio, assanhava-lhe as iras, a lhe morderem como cobras, o corao, que lhe projetava nas veias uma torrente abrasada de dio a Gabrina, a todas as mulheres que lhe disputassem a presa adorada, contra si mesma, que o abandonara, contra as coisas que a cercavam, testemunhando o seu penar, contra aquele astro radiante a iluminar a luta travada no mbito escuro da sua alma, como lmpada tristonha a revelar o monstro de paixo acuado na caverna das entranhas, latejantes de desejos...

Passava-lhe, ento, pela mente alucinada, a torva idia de vingar-se, rebaixando-se, de poluir-se, de atolar-se no charco da lascvia, saciando-se at  embriaguez, ao primeiro encontro, fora embora cmplice do imundo crime, o mais hediondo dos homens. Crapina, outro qualquer, ainda mais vil e detestvel, contanto que a sua depravao, com requintes de despejo, fizesse sofrer Alexandre, o desalmado, o frio homem, que no perguntara por ela, a Teresinha.

E a voz diablica, vibrando em msticas melodias, de um tom anglico, e dominando o tumulto da sua alma atribulada, repetia: "Por que te golpeias assim? por que te maceras nessa luta mortficante e estril, frgil criatura?...

Vai; curva-te, como escrava, aos ps do ente adorado, beija-lhe as mos, unge-as com o blsamo do teu pranto, porque o amas... Uma exortao de alto romantismo, a dessa voz de anjo e diabo...

Despertou-a do cismar torturante, a voz de Teresinha:

- Que bonito luar, Luzia. D vontade  gente de passar a noite em claro. Como est bem visvel! So Jorge e o cavalo empinado. Dizia-me um tapuio velho da Serra Grande que a lua protege a quem quer bem. Quando uma tapuia gentia tinha saudades do marido ausente, olhava para ela, e l lhe aparecia o retrato da criatura querida, ou nela casavam, conduzidos pelos olhares, as almas do par, separado por lguas de distncia.

Luzia, maquinalmente, olhou para a lua a navegar serena no cu ntido, e pensou que, quele momento, Alexandre tambm a contemplava, triste e s, por entre as grades do crcere infecto.

- A lua  continuou Teresinha. com melancolia  leva recados e juras dos noivos, e amolece o corpo da gente. E o tapuio dizia que ela era me da terra, das coisas e das criaturas vivas; protegia as plantaes, mandando chuva e orvalho, aquecia os ninhos chocos, dava cheiro s flores em boto e cio aos animais. Tambm tirava o juizo  gente, quando se zangava... Ah! que saudades me faz o luar! Foi por uma noite destas, que conheci o Cazuza pela primeira vez... Ai, ai... Deus... meu pai...

E ela se esticava, num grande bocejo de volpia, deitada sobre a esteira, desalinhadas, pelo vento, as roupas leves, os olhos quase cerrados  imortal saudade do primeiro amor, sempre vivo no inquieto corao devastado.

- Tomara que j amanhea  continuou, bocejando  Como custa a passar a noite!... Em que est voc to embebida, Luzia?

- Eu!... Estou maginando na minha triste vida...

- Arre l com tanto disfarce! Voc, minha negra, no se abre comigo. Estava, mas era longe daqui, rezando  lua como as tapuias.

- Voc tem coisas, Teresinha!?...

- No chorei na barriga da minha me, mas adivinho. Por que no diz logo que est com o juizo em Alexandre?

- Como hei de pensar em quem no faz caso de mim!... Nem perguntou a voc, por mim...

- No perguntou por qu?... Porque voc, por pique, no foi mais  cadeia. Voc  caprichosa, ele tambm... Mas no se me dava de apostar como ambos e dois esto arrependidos...

- Acha, ento, que depois do que houve, eu deveria entreter uma... coisa sem fundamento, sem esperana?

- Qual o qu! A gente faz de um argueiro um cavaleiro, fica amuada, jura por quantos santos, faz finca-p...  o mesmo que nada. Quem quer bem no tem vergonha. Eu, ralada neste mundo, que o diga.

- E a histria da Gabrina?

- Mentira, tudo mentira. No duvido que ela levantasse, com aquela cara de santa, toda denguices e inocncias, o falso testemunho.  uma rapariga bem-paxecida, bem feita de corpo, mas tem a alma deste tamanhinho. A Chica Serid tem comido candeias, desde que tomou conta dela.  capaz de tudo, meu Deus perdoai-me. No duvido que tenha feito esse malefcio por cime...

- Por cime?...

- Pensa que todos os homens se babam por ela, e, como Alexandre no lhe deu trela...

- Demais, que tenho eu com isso? Tanto se me d que ela goste dele, como que no goste. S me empenho para ele ser livre. O mais... est acabado...

- Que soberbia, Luzia! Voc ainda  castigada.

- Por qu? Se no fao mal a ningum...

- Deixe estar. Quem for vivo ver... No h mal que sempre dure... Amanh!... Ali! miservel; tenho aqui o fio da meada!

Teresinha, como se falasse a um ente miservel, estendeu, com ar triunfante, o punho cerrado.

- Bem dizia eu  exclamou Luzia  que voc sabe alguma coisa...

- Ora se sei... Vai ver... Amanh, se Deus quiser... No; o melhor  no dar  lngua... Espere...

E Teresinha, muito lenta, muito lnguida, entrou a murmurar, baixinho, com uma ternura tiritante, uma cano, da qual Luzia distinguiu bem esta quadra:

A traio, meu bem, ature:

Diga que  cega e no sabe,

No h mal que sempre dure,

Nem bem que nunca se acabe ...





XIX



Teresinha voltou, no dia seguinte, ao beco da Gangorra,  hora da revista, quando os soldados estavam reunidos no quartel, estabelecido em uma velha casa fronteira  cadeia. No sobressalto de quem se esconde, esgueirando-se para evitar a curiosidade da vizinhana, entrou no quarto, e se fechou por dentro. O silncio aumentava-lhe o susto. Foi preciso repoisar para adquirir coragem.

A porta, que dava para o quintal, estava entreaberta, como ficara na vspera. O caixo velho l estava, regurgitando de traos, lavado de luz intensa, um contraste da penumbra do aposento, sem o menor sinal de haver sido desviado, ou da presena de ser humano naquele stio.

Com o peito ofegante, plida de aflio, o ouvido atento ao menor rudo, a moa ajoelhou, e, com um esforo sobreposse, ergueu um dos ngulos do caixo, muito pesado, muito cheio; e, sustentando-o de encontro ao ombro, fendeu com mo trmula, o espao entre o fundo e o cho. Seus dedos crispados experimentaram repugnante contacto. Retirou, rapidamente, a mo, como se a houvesse passado pela polpa ascorosa de um rptil. Um calefrio varou-lhe os membros, as foras abandonaram-na, e o caixo caiu, percutindo o solo com um som cavo.

Transida de pavor, ela esperou alguns momentos, imvel e atenta, sempre de joelhos, apoiada ao muro. Recobrado o nimo limpou com a fmbria da saia o copioso suor que lhe inundava o rosto, respirou agoniada, como se lhe faltasse ar; abanou-se com o vestido, movendo de um para outro lado a cabea, quase desfalecida. A bolsa de Crapina estava ali. No havia dvida; ela havia sentido o contacto eletrizante dos plos do coiro de ona. Aguilhoada pela curiosidade de examinar-lhe o contedo, no ousou de faz-lo: seus msculos flcidos e fatigados no poderiam repetir a explorao. Alm disso, comeou a sentir a dolorosa juno inguinal e o aperto do peito, que a acometia toda vez que era assaltada por fortes abalos.

- Ah!... Se eu fosse mulher de talento, como Luzia - murmurou, desalentada, erguendo-se a custo.

Certa da permanncia da prova do crime, restava escolher meio de utiliz-la. Seria necessrio surpreender Crapina ali, quando voltasse em busca de dinheiro e obter o auxlio de um homem bravo e forte, capaz de entestar com o soldado, prend-lo e conduzi-lo  presena da autoridade. Lembrou-se de Raulino Uchoa que era vigoroso e arrojado, quando menos pela brava fascinao das histrias que contava da vida aventurosa. Era, demais disso, amigo de Alexandre e devotado a Luzia, que o salvara dos chifres do toiro sanhudo. Era, porm, indispensvel que ela e ele ficassem escondidos de tocaia, esperando, horas, talvez dias inteiros, a ocasio propcia.

Ocorreu-lhe, ento, procurar o sargento Carneviva, que ela o sabia em excesso rigoroso para com os soldados, e andar muito prevenido com Belota e Crapina, por serem jogadores incorrigveis. A essa idia, duma felicidade que farte, ela vibrou de jbilo, ela vibrou de clera, misturados, na mesma expanso impetuosa, os nobres anelos de vitria e antegozo cruel da vingana.

- Hs de Pagar o novo e o velho  exclamou ela, com ameaas, e triunfante  Hei de mostrar, ladro safado, quem  tbua de bater roupa e quanto vale esta cachorra!... 

E partiu em busca do sargento.

A essa hora, estava Luzia trabalhando na oficina de costuras do morro do curral do Aougue.

Confiara-lhe Dona Inacinha a superintendncia das meninas taludas, depois de verificar a sua percia, o seu exemplar procedimento, o recato de maneiras e linguagem, to raros naquela quadra de carncia de nutrio fsica e moral. Seria ela um exemplo vivo para aquelas pobrezinhas, condenadas  mendicidade, rfs ou abandonadas pelos pais, expostas ao contgio da infeco, que dilua as baixas camadas da sociedade, desfibradas pelo inominado flagelo.

Entre elas estava Quinotinha, um futuro de formas, em cujas linhas, ainda angulosas, se debuxavam, nuns longes de curvas graciosas, os primeiros sinais da puberdade. Luzia acolheu-a com simpatia; e, quando soube que era a menina libertada por Alexandre da sanha monstruosa de Crapina, dedicou-lhe os mais carinhosos cuidados. Frua deliciosa sensao ao contacto dela, ao exercitar-lhe as pequeninas mos delicadas no manejo da agulha e no ajustamento das peas de costura, sensao de me testemunhando a florescncia da fora e da inteligncia nos tenros rebentos do seu ser. Ela a distinguia das outras meninas, desasseadas, esgrouvinhadas, como pombas privadas do arminho das penas cndidas, de olhos toldados, como se por eles j houvesse passado a sombra funestra do crime; muitas indiferentes s carcias, aos conselhos, de grandes olhos parados, ardendo num brilho fulvo de febre, e sempre voltados para o telheiro onde roncavam, fumegando, os enormes caldeires de comida. Quase todas pareciam esgalhos enfezados, condenadas ao estiolamento precoce, a se consumirem, varas estreis, na coivara de vcios, que se ia alastrando, como incndio em matagal ressequido, e mais no era outra coisa essa massa de famlias, erradicadas dos lares, desagregadas e descompostas.

Contemplando Quinotinha a trabalhar, Luzia se embebia no enlevo de um sonho, onde se dissolviam as amarguras, as tristezas do presente, e surgia, entre resplendores suaves de aurora, o desejo da maternidade, dar-lhe Deus uma filha assim, formosa e sadia. E j considerava, num gozo, em toda a sua sublimidade, esse prazer inefvel de me, quando a estrelava ao seio fremente, lhe amimava os cabelos de menina e a beijava com af, com a meiguice, o doce frenesi das mes amorosas.

Evolava-se o sonho, e ela considerava que a rapariguinha poderia servir de companheira  me enferma e a ela mesma, como irm caula, se os tempos no fossem to ruins; poderia repartir, com ela, a sua pobreza, o seu quinho parco, como fizera com Alexandre. Chegou mesmo a falar-lhe nisso, mas Quinotinha respondeu-lhe que era a mais idosa de oito irmos, uma escadinha de meninos que terminava num de peito, e no podia abandonar a me, coitada, j abandonada pelo marido.

Depois disso, Luzia lhe teve mais amor, e mesmo mais sorrisos, e mesmo mais cuidados. Havia, entre ambas, a solidariedade do mesmo infortnio, de sentimentos idnticos, dedicao e amor filial, com a diferena de ser a menina uma criatura ingnua e feliz, pela inconscincia da misria, e ela mulher rebelada contra a sorte, assaltada de absurdas aspiraes, tendo o corao apertado entre mgoas, dissabores, esperanas desfeitas, murchas como os cravos rubros de Alexandre.

Uma tarde, terminada a tarefa, Quinotinha saiu acompanhada de Luzia, que lhe notava algo estranho no semblante, de ordinrio tranquilo e risonho.

Caminharam em silncio, algum tempo.

- H muitos dias  disse a menina, enteada e hesitante que ando para lhe dizer uma coisa.

- Voc?!  exclamou Luzia, com interesse, com surpresa.

- Sim, eu mesma...

- Vamos l... Diga...

- Vosmec conhece seu Alexandre? Aquele moo que est preso por causa do furto da Comisso?...

- Conheo, sim.

- Quero muito bem a ele... Sa Luzia tambm gosta dele? Luzia no respondeu; e a menina continuou: 

- Todo o mundo gosta daquele homem...

- Mas... a que vem isso?

- Eu lhe conto. Sa Luzia sabe onde  a casa de Chica Serid? Pois fui l, outro dia, buscar um remdio, que a mame mandou pedir e estava esperando entretida com a Gabrina, aquela mocinha bonita, que tambm gosta de seu Alexandre, quando ela me largou de repente, e foi para o terreiro conversar com uma pessoa. Espiei para fora e fiquei tremendo de medo: era o Crapina, aquele soldado que de uma feita, quase se pegou com seu Alexandre... Fiquei quieta e, ento, ouvi ele falar muito zangado: ralhava tanto, que fiquei com pena de Gabrina. Ele dizia: - Voc no tem palavra. Ficou de ir l em casa e me enganou! Ela respondeu por aqui assim: - A Chica estava com os olhos em riba de mim, que no me deixou um instante. - Voc est mentindo, menina - tornou ele a dizer-lhe com muita m-criao. - Nem por eu lhe dar o par de brincos de ouro e os cortes de chita... - Mas eu no fiz o que	voc disse? - respondeu a rapariga, tambm com maus modos. No fui jurar em casa do Delegado? ...

- Vamos. Conte-me tudo  irrompeu Luzia, ansiosa e alvorotada, devorando a menina com o olhar em fogo.  Vamos, diga a verdade.

- No estou mentindo  balbuciou, Quinotinha, espavorida pelo gesto ardente da mestra  Creia-me por esta luz...

- No tenho receio.  para bem dele, do pobre, que est penando inocente...

- Espere. Deixe-me lembrar. Ela disse mais: - "Que queria voc, seu Crapina?"  "O que, me prometeu... Olha, diabinho, tu me tens custado os olhos da cara e se no fosse porque..." - Aqui, ela fastou pra trs, e disse-lhe: - "Se  por causa da porqueira destes brincos e daqueles molambos, pode levar tudo. Basta a dor de conscincia de ter alevantado um falso... Ainda quer mais?!..."  Crapina, estava-se vendo, ficou fulo de raiva e em termos de arremeter para ela...

- Est bem certa do que dizes, Quinotinha?!...

- Eu? Como em Deus estar no cu... Por sinal que ele abandonou, quando ela disse que, se duvidasse, no se dava de contar tudo; que mentira por pique, para se vingar de Alexandre... que no fazia caso dela... O soldado ficou calado um instantinho e pediu-lhe que no fosse mazinha, que se falasse, seria presa com ele, desgraando-se os dois para fazerem benefcio a um homem que, alm de tudo, a desprezava por causa de outra mulher. Se ficasse quieta e fizesse o que ele queria, poderiam viver, sem ningum desconfiar, como Deus com os anjos. - "Olhe - disse ele por fim - se eu fosse malvado, poderia encalacr-la... Mas no fao isso, porque voc  o meu nico amor da minha alma." Continuaram a conversar, mas to baixinho, que no pude ouvir, at que a Chica Serid gritou l de dentro por ela... Ento, eu disse comigo: Que gente malvada! Vou contar tudo a sa Luzia. No contei logo, porque tive medo que ralhasse comigo por eu andar escutando conversa de gente grande...

- Ralhar contigo?!... Pois se foi Deus quem te colocou ali para seres testemunha da verdade... Fizeste muito bem, Quinotinha; assim  que faz uma menina bem-ensinada. Nem podes imaginar o bem que fazes a duas criaturas: a ele e a mim. A mim, que libertaste de um grande peso que me esmagalhava o corao.

E enlaou a menina nos braos robustos; conchegou-a ao peito, convulso, que arfava, com alvoroo, desesperadamente beijou-a em febril transporte de ternura, como beijam aos filhos as mes amorosas.

- Agora - disse a menina, libertando-se dos afagos de Luzia - deixe-me ir que  tarde... No diga nada., nem que lhe contei...

- Vai descansada...

Quinotinha partiu a correr, e Luzia continuou o caminho para casa.

A lucidez da narrativa, duma segurana minuciosa, atestava a sinceridade da menina. Alexandre, pensava Luzia radiante, est salvo, salvo da infmia e reabilitado para ela, por sua vez libertada das sombras cruis da suspeita. Ele ressuscitara, e, da priso nojenta, ascendia para o cu das suas aspiraes, aureolado pelo sofrimento. E ela abenoava a voz demonaca, aquela voz sedutora e ntima, que lhe falava com a sonoridade mstica de um canto angelical, e a impelia docemente para o mrtir, repetindo: "Vai, curva-te como escrava e culpada, unge as suas mos generosas com as tuas lgrimas, porque o amas."

Se Alexandre a amasse, ele perdoar-lhe-ia; ela era, agora, culpada de haver desconfiado, por mesquinho impulso de despeito, por ter recusado ao pobre a consolao da sua presena, a caridosa visita diria  priso, e por no resistir,  crueldade pueril de devolver-lhe as pobres flores murchas, smbolo triste de afetos mortos.





XX





Teresinha conversava com a tia Zefinha, numa rtila impacincia de olhos alegres, quando Luzia chegou a casa. Falava de Alexandre, amaldioando a justia que o conservava na cadeia, havia mais de um ms, por causa de imputes feitos pelo hediondo soldado, de parceria com a Gabrina, doidivanas, positivamente, quase a despencar-se no mundo, arrastada pela falta de juizo e os pssimos exemplos, porque a morada da Chica Serid era lugar de reunio de gente mal reputada, fregueses de suas mezinhas e feitiarias.

O semblante claro e, claramente, expansivo de Luzia, denunciou-lhe a vontade que lhe alvoroava o coraco.

- Como vem mudada!  exclamou Teresinha  Voc parece que viu passarinho verde?

-  porque tenho de qu, respondeu Luzia, beijando as mos descarnadas da me.

- Vamos l. Conte-nos isso, que tambm tenho boas novidades.

- J sei quem  o ladro...

- Ora! Isso  velho para mim, como a serra dos Cocos.

- Sabia ento?...

- Ol! No sabia, mas suspeitava.

- Pois eu sei. Foi mesmo uma coisa mandada por Deus.

E	repetiu, sem reservas, a revelao de Quinotinha.

- Franqueza por franqueza  disse  Teresinha, resoluta  Eu tambm tenho muito que dizer, coisas que me andam embuchando h muitos dias. Primeiro que tudo, fiquem sabendo: Crapina est preso...

- Preso?!...  exclamaram, a um tempo, Luzia e a velha. 

- A ona deste pasto est muito bem guardada no xilindr... E quem conseguiu isso?

- Esta sua criada - afirmou Teresinha, com nfase, batendo no peito, com largo gesto de contentamento.

Contou, ento, como descobrira o esconderijo do dinheiro, as aflies suportadas com herosmos fanfarroneou a coragem, o sangue frio, apesar de fraca, no era mofina, e, mais no morrera de terror quando se viu a ss com o malfazejo soldado, e passear a narrar a entrevista com o sargento Carneviva.

- Que quer voc?  disse ele, apurado, riscando com proficincia grave, mapas e tabelas.

- Vim aqui dar parte...  respondeu, perturbada pela severidade do homem de m cara, muito barbada e muito fechada.

- Anda depressa, que estou muito ocupado. Comando o destacamento na ausncia do tenente, que foi fazer uma diligncia, e no tenho tempo para trelas.

Teresinha, muito sobressaltada, denunciou-lhe a cena do jogo em casa de Belota e a briga de Crapina com os paisanos.

- Bem desconfiava eu que aqueles malandros tinham casa de jogo na Gangorra  rebentou o sargento, com clera, cheio de censura disciplinar  Deixa estar essa corja que os arranjarei...  s isso?

Logo que a moa comeou a narrar o episdio de ter descoberto o dinheiro no quintalzinho do seu quarto, o sargento, em crescente interesse, largou a rgua, tirou cautelosamente o tira-linhas da boca, onde o sustinha atravessado, e pejado de tinta, e cravou indagadores olhos na delatora.

- Como  isso?  inquiriu, com surpresa  Ento aquele homem que est preso?...

- Inocente, meu senhor; limpo como saiu da barriga da me...

- Dele  atalhou, rapidamente, Carneviva, que no queria dvidas  Veja o que est dizendo mulher...

- Vossa senhoria, se quiser, pode ver com os seus prprios olhos... Depois, eu no tenho necessidade de mentir...

- L isso  histria. De enredos de mulheres estou farto. Vocs, quando tm raiva dos soldados inventam e mentem como deslambidas. Enfim, vou indagar o caso da jogatina. Oh! Cabecinha!...

- Pronto, seu cadete.

- Que  do Crapina?

- Est na guarda da cadeia.

- E o Belota?

- Tambm.

- Mande rend-los e que venham j  minha presena.

Cabecinha partiu, e Teresinha fez um movimento para retirar-se e evitar a acareao com os soldados.

- No senhora  ordenou Carneviva  Fique para deslindarmos j esse negcio.

- Poucos minutos decorreram. Crapina entrou primeiro, e no pde disfarar a surpresa de encontrar, na sala do sargento, a moa, transida de susto pelo vexame. Belota chegou, depois, com ares humildes, tmidos.

- Que histria foi essa  perguntou-lhe Carneviva  do jogo em sua casa? J lhe no havia dito que,  primeira denncia, voc, seu Belota, ajustava comigo novos e velhos?

- Saber vossa senhoria  balbuciou Belota  que  menas verdade... At tenho andado doente...

- Qual doente!... Voc quando faz maroteira, d-lhe logo na fraqueza...

- Por Deus, seu cadete...

- Vamos l. Quero saber tudo... E, se mentir, arranco-lhe com a chibata, o coiro do lombo...

- Vossa senhoria me perdoe... Foi, foi... uma brincadeira... a... a leite de pato...

- Bom. E o senhor?  perguntou o sargento, voltando-se para Crapina, que dardejava sobre Teresinha, olhos ferozes.

- Eu no sei nada respondeu ele, secamente, e sem hesitao. 

- Ah!... Ento voc no esteve jogando em casa de Belo a com os vagabundos Zoio, Candinho e Vicente da Henriqueta?

- Vossa senhoria no ande atrs de histrias desta mulher, que mente como uma cadela vadia.

- Ento o senhor  atalhou Teresinha, pulando, irritada pela injria  no esteve quase se pegando com os outros? No foi aqui o seu Belota, quem apartou a briga!?... No  verdade que, quando eles foram embora, saltou para o meu quintal paredes-meias?...

O sargento imps-lhe silncio, com um gesto rpido e enrgico. Crapina empalideceu, e Belota, espantado, sem atinar com a significao da palavra da moa, interrogava o camarada com o olhar.

- Vamos seu Belota  ordenou o sargento  Bote para fora o que sabe. Vamos que temos panos para mangas...

Belota, sempre cheio da intransigncia das ameaas do sargento, acobardou-se e contou o caso, amenizando-o com disparatadas justificativas. Fora uma brincadeira de amigo, uma coisa -toa, que terminara num bate-boca.

- E aqui este mestre?

Crapina olhava, de soslaio, para Belota.

- Saber vossa senhoria  respondeu este - que o seu Crapina no estava...

- Voc est mentindo seu diabo...

- Quero dizer... sim senhor... No estava no, senhor...

- Veja bem o que est dizendo.

- No estava no... no... princpio: chegou; quase no fim... Mas, juro que no vi ele saltar o muro...

- Bom. Chegou no fim, hem!?

-  menas verdade  interrompeu Crapina, num mpeto de audcia insolente  Este homem diz isto para se desenrascar.

- No negue, seu Crapina - retorquiu Belota  O senhor estava. Eu, mesmo contra mim, falo a verdade como homem. Se porm, eu disser que vi voc saltar o muro, minto porque deixei o	senhor sozinho em minha casa, e fui ao quartel.

- E voc, seu Crapina, o que foi fazer ao quintal vizinho?...

- J disse a vossa senhoria que  mentira dessa lngua danada.

- Tambm ser mentira que tirou debaixo de um caixo, uma bolsa de coiro de ona?...

Crapina ficou lvido, e atirou, desesperadamente, um gesto de ameaa a Teresinha.

- A bolsa?  exclamou ele, maquinalmente, tomado de pasmo.

- Sim, senhor  afirmou o sargento, com ironia.  A bolsa onde guarda o seu dinheiro, a sua botija encantada.

Trado pela inesperada revelao e irritado pelos contnuos gestos afirmativos de Teresinha, Crapina, a custo, sofreava os estos da clera, que lhe queimava o corao.

Eu sei l dessa histria de bolsas...  respondeu, aparentando serenidade   verdade que cheguei no fim do divertimento; tive uma turra com o Zoio, uma bobage... Mas...

Carneviva levou o apito  boca, e tirou dele trs trilos agudos e violentos. Apareceram imediatamente, quatro soldados.

- Bem. Vamos pr isso em pratos limpos. Ah! Eu bem suspeitava que havia falcatrua... Todos os dias uma queixa. Furtinho para aqui, gatunagem para acol... Cambada que  a vergonha da farda!... Corja de ordinrios...

Depois, pondo  cinta uma garrucha, ordenou aos soldados:

- Vamos! Acompanhem-me com estes dois homens: desarmem a esses coisas ruins.

 aproximao dos camaradas, Crapina recuou, e levou imediatamente a mo ao sabre: mas, o sargento lho arrebatou com um movimento rpido, com um movimento enrgico.

- Olha l!... No se engrace comigo, seu Crapina... Observou ele  Vamos e muito direitinho... Comigo no se brinca, vocs sabem...

Partiram em escolta, acompanhados por magotes de pessoas, no trajeto pela rua. Chegando ao quarto de Teresinha, Carneviva ordenou que se afastassem, e entrou com os soldados ficando  porta uma sentinela. Nessa ocasio, chegou o subdelegado, atrado pelo ajuntamento e informado da ocorrncia, passou a dar a busca.

A bolsa foi retirada debaixo do caixo e aberta. Havia nela dinheiro, jias e alguns fragmentos de papel-escrito, versos de canes populares e o rascunho de uma carta a Luzia.

O subdelegado inquiriu, ento, Crapina: - De quem  esta bolsa?

- No sei  respondeu o soldado, impvido de furor. - Pergunte a essa mulher que  a dona da casa...

Os camaradas presentes afirmaram que a bolsa era muito conhecida; pertencia a Crapina.

- Bem  concluiu a autoridade  Vou levar o fato ao conhecimento do delegado, a quem est entregue o inqurito, para lavrar o auto. O senhor sargento ter a bondade de mandar recolher os homens incomunicveis, e comparecer com as testemunhas na delegacia.

Luzia e a me ouviram a narrativa, num enlevo de alegria, num enlevo de pasmo, com as almas nos olhos, como se lhes revelassem casos fabulosos, casos sobre-humanos. Era possvel que Teresinha houvesse realizado to assombrosa faanha?

- Vocs no imaginam  continuou ela  como tinha povo na rua. Parecia procisso, quando levaram os soldados para o xadrez. E a cara do Crapina?... Ficou verde, amarelo, encarnado como lama pimenta; botava-me uns olhos ensanguentados que me varavam... Eu, que vi o bicho bem seguro, ferrei tambm os olhos nele como quem diz  arre diabo!... Quando passou por mim, resmungou: - "Deixa estar sua aquela, que me pagar... Diz  tua pareceira Luzia-Homem, que no hei de ficar toda a vida preso..." Senti um frio no corao, quando o malvado disse isto.

- E agora  perguntou Luzia  vo soltar j Alexandre?

- Sei l... Disserarn-me que comparecesse amanh na delegacia para a trapalhada de depoimentos e no sei que mais.

- Ah! Teresinha  gritou Luzia, com um abrao veemente, radiante  Voc  um anjo, um anjo!

- Que anjo, que nada!... Sabe o que sou? Mulher e bem mulher, de cabelo na venta. Ningum mais faz, que no pague com lngua de palmo. Chegou o meu dia... com dois proveitos num saco: Crapina preso e Alexandre limpo de pena e culpa... Foi uma sorte! Viva o glorioso Santo Antnio! Ah!... se eu tivesse foguetes! Xii... t... t!... Viva Santo Antnio!... Viv... Viv!...

E, lestes, escarnicando do celerado, saciada de vingana, fazendo piruetas que lhe agitavam os seios, contorciam os quadris e enrolavam, em espirais, as saias em torno do corpo esbelto, desnudando as pernas geis, toda ela palpitando, toda ela a se mexer em requebros sensuais de dana, com sapateados frenticos, e vastas chibanas de triunfo, e rindo e cantando, numa alegria louca, a sua figurinha escanzelada de retorta providencial se destacava, evidente, no fundo iluminado pelo rubro disco da luz cheia, a surgir, lentamente, em magnfica ascenso.





XXI



Propagou-se, rapidamente, a notcia da priso de Crapina, como verdadeiro autor do roubo do armazm da Comisso de socorros. No havia dvida. Um conjunto de provas esmagadoras: a bolsa reconhecida por todos os camaradas; as declaraes de Belota que, insistindo em ignorar o fato, confessava causar-lhe admirao o dispor ele de tanto dinheiro para perder ao jogo grandes somas e fazer prodigalidades com raparigas e pagodes; o depoimento de Teresinha, confirmado, de uma irrefutabilidade minuciosa; o rascunho da carta ameaadora, entregue por Luzia ao delegado, no dia da priso de Alexandre, e os testemunhos de Chica Serid e Gabrina, encerraram o soldado numa culpa evidente, indiscutvel.

Serid confessou que nutrira sempre instintiva repugnncia ao soldado, por seus modos atrevidos com as mulheres, muita falta de respeito, caoadas inconvenientes; nunca, porm, lhe passara pela cabea que ele fosse capaz de to feia ao, como essa de levantar um impute que clamava aos cus e  o que lhe parecia ainda mais grave  reduzir uma rapariga inocente e bestalhona, como Gabrina, para ajud-lo na obra nefanda de culpar um inocente.

- A pobrezinha fez isso  dizia ela ao delegado, na sala de audincia da cmara municipal, apinhada de curiosos  sem maldade; e (para que hei de estar com histrias mal contadas?) porque andava inclinada para seu Alexandre, depois dos benefcios que dele recebeu. Ponha o caso em si, meu senhor. Vossa senhoria sabe que mulher, quando vira a cabea,  capaz de tudo. Quem quer bem no toma conselhos; no enxerga desgraas, nem se importa com perigos. Ela tinha no corao aquele amor encoberto e no me disse nada. Esta bichinha que aqui v, esta no-sei-que-diga disfarou to bem que eu, macaca velha, nada maldei. Metia a mo no fogo por ela, creia-me... Aquele malvado homem, percebendo que a pobre estava enciumada, seduziu-a, com promessas de mimos, a tomar uma vingana do moo. Eu sabia que seu Crapina gostava de Luzia-Homem, tanto assim que, uma noite, me pediu para ir fazer uma reza, na casa dela para abrandar-lhe o corao. Fui com ele e mais o seu Belota, muito contra a minha vontade; mas (para que hei de negar?) fui e no pudemos fazer nada, porque estiveram acordadas at fora de horas. Saber vossa senhoria que sou mulher de propsito; mesmo contra mim, falo a verdade. Fui fazer a reza, mas no h mal nisso.  com as minhas oraes e mezinhas que arranjo o bocado para a boca, sem ser pesada a ningum, Deus louvado.

- Que orao forte era essa? - perguntou-lhe o Promotor.

- Se eu disser sem ser rezando, mesmo de verdade e com f, ela perde a virtude.

- E acredita nela?

- Ah! seu dout, queria ter de anjos para acompanharem minha alma, as pessoas beneficiadas por ela. No foi uma nem duas... Muita senhora dona de famlia e considerao...

Enquanto a Serid falava, Gabrina, de p, ao lado dela, cravava os olhos sombrios na fmbria do casaco de cassa, cujas rendas enrolava e destorcia maquinalmente, entre os dedos hirtos. Os msculos do seu rosto, lindamente oval e duma cor lindamente morena, emoldurados em cabelos negros e crespos, no traam abalos violentos: estavam imveis, e apenas se percebia pelas narinas dilatadas e palpitantes, a sua respirao entrecortada de suspiros abafados.

Contemplavam todos a mocinha de formas flexveis e delicadas, apenas livres das linhas incompletas da infncia e desdobrando-se em contornos graciosos; e, lastimando achar-se ela complicada no crime, todos a envolviam numa atmosfera de simpatia que os impulsos passionais despertam.

Por fim, perguntou-lhe o Promotor:

-  verdade o que diz esta senhora?

- , sim senhor  respondeu com voz que mais parecia um sopro.

- Foi Crapina quem lhe insinuou esta calnia?

- Foi, sim senhor...

- Por que no resistiu?

Gabrina ficou calada.

- A senhora amava Alexandre?

Como se o corao, muito tmido, lhe despejasse no seio a repoisada torrente de lgrimas, ela prorrompeu em convulso pranto, escondendo o rosto no seio da Serid, que a amparou, que a enlaou nos braos, com maternal carcia.

- Bem, bem  concluiu o Promotor  No a martirizarei mais. Sossegue...

E, voltando-se ao Delegado, disse-lhe, em voz baixa:

- Realizaram-se as minhas previses. Temos a eterna histria, um drama de amor...

Nesse momento, entrou Alexandre no recinto, fechado por uma balaustrada, e destinado aos jurados. Seu olhar aceso de febre, luzindo na sombra das plpebras roixeadas, fixou-se piedoso na febril rapariga; e, no rosto macilento, assomou um ligeiro sorriso amargurado.

- Aproxime-se  ordenou o Delegado.

Ele deu alguns passos vacilantes para a frente, perturbado pelas mal contidas exclamaes de d, que chegavam aos seus ouvidos sequiosos, naquele instante, do caricioso eco de vozes amigas. Os que ali estavam eram todos curiosos, enviscados pelo escndalo, ou indiferentes e desocupados, procurando diverso no desenlace do inqurito policial,  exceo de Teresinha, que o contemplava silenciosa, sentada a um canto.

Muitos comentavam os estragos que a infecta enxovia produzira na sade do moo.

- Senhor Alexandre  disse-lhe o Promotor, a voz sonora e grave  um conjunto, de indcios, de elementos de prova bem acentuados e persuasivos, determinou o vexame que sofreu. Ia sendo vtima de um desses erros que, infelizmente, no so raros na histria dos tribunais e que, por lamentvel lacuna, no encontram nas leis, meios completos de reparao. rgo da justia, lamento, sinceramente, fosse recolhido por infundadas suspeitas de to grave imputao; teve, porm, a ventura de sair ileso dessa provaco suportada com herosmo. O verdadeiro criminoso est descoberto. Nada inipede, agora, que a justia proclame a sua honra restaurada com a liberdade que, neste momento, lhe  concedida.

Perpassou pelo ambiente, um sussurro de aprovao unnime, porque, desmascarado o ardil do soldado, ningum nutria dvidas sobre a autoria do crime.

No era possvel que um moo bem procedido e de abonados precedentes fosse capaz de to vil ao. Por outro lado, todos confessavam, ento, justificados suspeitas contra Crapina, quando no fosse por qualquer motivo definido, nela m cara do homem, seus costumes dissolutos, ou por mero palpite. No fora, entretanto, o feliz acaso de surpreender Teresinha o esconderijo do dinheiro, ou, como ela afirmava sinceramente, a interveno do glorioso Santo Antnio, o inocente seria denunciado, processado e condenado. E toda aquela gente aprovaria, com igual entusiasmo, a justia inexorvel.

O Delegado, voltou-se para o Carcereiro e, indicando-lhe a Serid e Gabrina, ordenou:

- Recolha aquelas mulheres.

- O qu?!...  exclamou a Serid apavorada  Pois eu sou presa por falar a verdade? Que culpa tenho, seu Delegado, do malefcio dos outros? Eu, que no matei, no roubei, que nunca fiz, mal a ningum... que no tenho rabo de palha!...

Gabrina olhava em torno espantada, como se despertasse atordoada pelo nevoeiro de mau sonho. Estancaram-se-lhe as lgrimas e sucederam-lhes violentos soluos.

Quando o Carcereiro se aproximou, e a intimou com a frieza fulminante do ofcio, dizendo: "Vamos", acometeu-a o terror da priso. E enquanto a Serid implorava piedade, justificando-se com protestos de inocncia, lamentos e splicas, ela, com desenvoltura de criana que se refugia no seio paterno, agarrou-se a Alexandre.

- Perdoe-me, seu Alexandre  suplicava, com gritos vibrantes  No deixe que me levem presa! Que vergonha!... No, no  possvel!... Pea por mim; valha-me pelo amor de Deus!... Ai!... ai!... que eu morro!... Quem me acode!... Minha gente, tenha pena de mim, de uma pobre filha sem me?... Ah! seu Alexandre da minha alma, pelo leite que mamou, pea por mim que lhe quero tanto bem... Valha-me, valha-me por tudo quanto h de mais sagrado. Peo por alma de sua mezinha, pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo... Sim, por tudo, pela luz dos seus olhos, pela vida de... de... Luzia!... 

Esgotadas, nesse esforo sobre-humano, as derradeiras energias, a pobre inteiriou-se; seus braos froixos penderam dos ombros de Alexandre; a cabea, escondida nos cabelos desgrenhados, inclinou-se sobre o seio e ela caiu ernborcada, como um corpo desarticulado e morto, aos ps do moo, transido de espanto e piedade.

Acercaram-se da msera algumas mulheres e a Serid, que pedia um caneco dgua, um capucho de algodo queimado, e a esfregava, com fora, sobre o peito.

Alexandre dirigiu-se ao Promotor:

- Se lhe mereo alguma coisa, seu, dout, tenha compaixo daquela pobre. Ela no soube o que fez...  quase uma criana...

- Tem razo  observou o Promotor, convindo docemente   possvel evitar... Demais seria uma violncia intil.





XXII



Para se arrancar  comoo forte daquela cena que o amolecia, e apertava o seu to chupado organismo, Alexandre deixou o salo das audincias, seguindo-o, de perto, Teresinha, muito zangada pelo ato de generosidade que ele praticara em favor de Gabrina.

- Com aquela carinha de enfinta, - murmurava ela  de alfenim, que com qualquer coisa se derrete, no me engano.  muito mazinha de bofes. Com aquela parte de gostar de voc, no se lhe dava de ser causa do muito que penou na cadeia. O amor deu-lhe pra maldade. Era bem-feito que ela fosse gemer e chorar no xadrez para saber se  bom levantar falso testemunho aos outros. No h nada melhor que a gente ser fingida: faz quanta perversidade h e no fim de contas, basta se derreter em choro e ter um vgado para ser perdoada. Eu, no me importa de dizerem que tenho ms entranhas. Quem me fizer paga, to certo como dois e dois serem quatro. E ento a Chica Serid? Como ficou piedosa e inocente, ela que  a alma danada de tudo... Aquilo tem mais artes e ronhas que diabos nas profundas do inferno... Fosse comigo, ficavam as duas ensinadas para toda a vida.

Alexandre no se justificou. Continuaram a caminhar: ele silencioso, ela resmoneando a censura. Quase ao p do armazm da Comisso, ele perguntou, inesperadamente:

- E Luzia?

- Foi trabalhar  respondeu Teresinha, amuada.

- Por que no veio com voc?

- Porque teve vergonha de se expor diante de tanta gente. Disse-me que estava alcanado o que desejava: a sua liberdade; nada mais tinha que fazer. No pregou olhos a noite inteira, esperando que amanhecesse o dia de hoje. A tia Zefinha no cessava de agradecer a Deus. Se visse como a pobre alminha estava contente... Nem parecia a enferma que conhecemos, engelhada, encolhida, cortada de dores...

- Coitadinha! E... Luzia? Ainda est zangada comigo?

- Que zangada!... Aquilo foi um repiquete de cimes. Quis,  fina fora, fingir de corao duro e forte, mas desenganou-se. Uma penca de coraes no vale um gro de milho. Deu-lhe a paixo na fraqueza, e aquela criatura, forte como um boi, entrou a fazer coisas de criana: ficou logo meia lesa e capionga; deu-lhe para maginar, olhando para o tempo e querendo sustentar capricho, mesmo depois de haver sabido, pela Quinotinha, do aleive da Gabrina.

- E... depois?

- Depois?... Entrou a repetir que nada tinha feito em seu favor, que a mim, somente a mim, se devia tudo, quando foi ela que me deu o dinheiro para a Rosa Veado rezar o respnsio.

- Que pretende ela fazer agora?

- Diz que espera poder ir, em breve, para as praias, logo que a me possa viajar.

- Sempre essa idia.

- Teimosa  ela. Isso  verdade.

- Sabe, Teresinha? Ainda estou meio encandeado e parece um sonho estar livre daquele inferno. Toda essa gente a andar aqui pela rua, a me olhar espantada, causa-me tonturas. Como que me falta o cho debaixo dos ps.

- Isso passar...

- Tenho, aqui no nariz, o fedor da cadeia, a inhaca dos presos. Que horror! Cem anos que eu viva, nunca esquecerei esses dias de martrio.

Alexandre falava lentamente, falava fatigado, com profunda impresso de mgoa no rosto macilento, que a barba crescida e inculta tornava ainda mais triste. Queixou-se de dores ao lado direito, debaixo da costela mindinha, de falta de ar e de uma tosse seca que o acometia quando respirava, mesmo a curto flego.

- Aquela cadeia  dizia ele  matou-me. Nunca mais hei de ter sade.

A Comisso de socorros o recebeu com demonstrao de compassivo afeto, lamentando os vexames sofridos pela infame imputao. Foi-lhe pago o ordenado integral: e, como reparao, teve acesso para o posto de administrador dos depsitos de vveres, percebendo, alm da rao, sessenta mil-ris em dinheiro, uma riqueza naqueles apertados tempos.

Teresinha comentava o fato, os males que vm para bem, e, logo, achou muito justo esse procedimento da Comisso; e, todavia, observava que o dinheiro lhe no pagaria as runas da sade, os incmodos e, mais que tudo, a vergonha de ser apontado como ladro, como um infame que havia roubado o de-comer dos pobres famintos, para saciar vcios abjetos, tudo por causa de suspeitas que ela, mulher ignorante, mal sabendo ler por cima e assinar o nome, repelira desde o primeiro momento, porque o corao lhe dizia que ele no tinha cara de se sujar com o alheio. Admirava como os homens da justia, que sabiam ler em grandes livros de letras embaraadas, homens de culos, que sabem tudo, no tinham logo percebido que o criminoso no era outro seno Crapina. Quantos inocentes no estariam pagando culpas alheias por causa da cegueira da justia! Quantos no ficam livres de pena e culpa, apesar de autores de crimes escandalosos, perpetrados perante Deus e o mundo,  luz do dia, como aquele nefasto Bentinho que matara Berto, como quem mata um co, e apenas ficou recolhido alguns dias  sala livre, por ser capito e filho do maioral da terra!

E suspirou entristecida, sucumbida  dolorosa recordao do brbaro amante, arrastado pelo cavalo desembestado, deixando nos tocos, pedras e cardos, farrapos sangrentos do corpo esfacelado.

Aglomeravam-se retirantes  porta do armazm para verem Alexandre, cujo prestgio de mrtir aumentava com as novas atribuies de administrador. Uns, sinceramente, lamentavam o fato; outros o adulavam com fingidas lamrias, para serem preferidos na distribuio de raes bem medidas, com lavagem, como eles dizigm, porque outros empregados de corao duro mediam farinha e feijo sem caculo, rapando a boca do litro, poupando, como usurrios, os dinheiros do Governo e o de-comer que a Rainhal mandara dar de esmola aos pobres.

Alexandre procurou fugir  curiosidade da multido, recolhendo-se ao fundo do armazm, onde ficou, apesar dos insistentes rogos de Teresinha para irem juntos  casa de Luzia, que estaria ansiosa por v-lo; e, como ele recusasse obstinadamente, ela se despediu, enfadada, dizendo-lhe:

- Vou embora. J que teima em no me acompanhar, irei sozinha. Direi a Luzia que voc est doente e aparecer amanh. No falte, no negue essa consolao quela pobre criatura que, abaixo de Deus, s pensa em voc, seu ingrato. Capricho no se fez s para mulheres.

- Pobre de mim.

- Pobre, no. Bata na boca. Diga rico, bem rico, porque uma prenda igual a ela s encontram os afortunados. Voc fala de farto. Os homens todos so assim, cheios de luxos e desdns quando so queridos. A demora  saberem que a gente gosta deles: comeam logo a botar cafangas.

- Diga o que quiser, Teresinha. Est no seu direito. No me zango com isso, nem exijo nada; basta o muito que tem feito por mim. Mas, no posso acreditar que Luzia me queira, como voc diz. Que faria no lugar dela?

- Cada um sabe de si e Deus de todos. Eu faria o que sempre fiz, e por isso apanhei muito na minha ruim cabea. Hoje, toro as orelhas, que no botam sangue. Ah! quem ama no tem tico de vergonha.  verdade que voc, agora, est melhorado de sorte, quase rico...

- Prefiro o trabalho na Ladeira da Meruoca, s vantagens que tenho aqui.

- Deixe-se de luxos. Veja se  ou no como eu digo: este quer se meter no cafund da serra, a outra s pensa em sumir-se para o lado das praias.

Histrias!... O que vocs querem sei eu... Deixa-me ir que  quase de noite... At amanh... Veja bem, seu Alexandre, o que me prometeu!... At amanh... Agora v fazer feio comigo...





XXIII



Nunca estivera Luzia mais atenta, mais solcita na ocupao de diretora das meninas costureiras. Fingindo indiferena aos comentrios e informaes, resmungados de grupo em grupo, sobre o extraordinrio caso do dia, s perguntas indiscretas, alheia aos gracejos inofensivos, levemente maliciosos, das companheiras de trabalho, respondia com meias palavras, com evasivas curtas de quem se no quer importunar de olhares impertinentes, de mexericos, de insinuaes. Mas, as meninas mais taludes cochichavam a respeito da mestra; trocavam gracejos contemplando-a, de soslaio, muito espantadas de que ela no acompanhasse o contentamento dos amigos de Alexandre, que eram, ento, muitos, quando devera ser a mais interessada no desfecho do aleive urdido pelo celerado Crapina.

Notava-se-lhe, no entanto, certo cuidado excepcional no arrumo dos cabelos em grossas tranas luminosas, dum brilho escuro de cobras negras, a escolha uo vestido de chita cabocla, guarnecido de rendas, e as posturas faceiras, a disfararem o alvoroo do ecorao. Seus olhos, onde brilhavam lampejos fugaces, se fitavam, a curtos intervalos, na foz da larga estrada da cidade, e seus ouvidos, com avidez aguado, colhiam frases soltas, palavras esparsas dos trabalhadores que chegavam, e traziam notcias ltimas dos ltimos acontecimentos.

- Estive na Casa da Cmara  dizia um  Tem gente que faz medo. A sala estava atopetada, e os soldados no deixavam mais entrar o povo que se espalhava por fora, pela escada do rendenguel abaixo, at  rua. Ouvi dizer que a Chica Serid contou tudo...

- Eu vi o Crapina  afirmava outro  Estava como uma ona acuada. Os olhos pareciam duas brasas.

- No viste a Gabrina?  inquiriu uma mulher  Pois eu tive pena dela. Fazia apertos no corao. To moa, to bonitinha e faceira e implicada na histria do roubo. Eu, Deus me livre de tal, se me visse em semelhante vergonheira, era capaz de morrer.

- Foi sempre uma desmiolada  acentuava uma velha - Conheo-a desde menina. Era um diabinho em figura de gente. Tambm a me, Deus perdoe os seus pecados, no se importava com ela; fazia-lhe todas as vontades... Sempre digo que essa criao d'agora no presta. Filhos muito senhores de si, por qualquer descuido, se desgarram. Os meus no punham p em ramo verde. Muito amor, mas muito respeito e cabresto curto.

- Nestes tempos de misria  ponderou um carpinteiro idoso  ningum tem folga para cuidar da criao dos filhos. Vo se criando ao Deus-dar, como filhos de pobre.

- Os mais bem criados no esto livres de uma desgraa. No valem cuidados, nem vigilncias; a misria entra pelas gretas das fechaduras, empesta o ar e tira o juizo.

- Quando sa  informou um recm-chegado  a Chica ainda estava falando. Ela, que tem partes com o demnio, estava se, vendo para explicar a embrulhada das sacas de feijo e de farinha recebidas de Crapina, os cortes de vestido e os brincos de oiro. Imaginem vocs que aquela inocente, passada pelos corrimboques, no maldou. Se eu fosse delegado, ela ia, mas era pra cadeia, para no se fazer de besta, pensando que os outros tm um t na testa.

- Ladina como ela s... Quem a ouvir, no a leva presa.

Luzia no perdia uma slaba do que se dizia. Colhia, aqui e ali, fragmentos de narrativas, observaes, notcias incompletas, que devorava na nsia de saber tudo, principalmente o que concernia a Gabrina e a Alexandre, de quem no haviam ainda falado. E Teresinha? Onde se metera? Por onde andava que no vinha para dar-lhe, como prometera, informaes seguras, anunciar-lhe a feliz nova da libertao do preso, ou traz-lo?

Correram horas de ansiedade, da pungente tortura de esperar, suportada de rosto sereno, onde no havia uma contrao de impacincia.

As sombras informes da penitenciria, das grandes paredes de andaimes complicados, se alastravam pela encosta do morro; o anilado perfil das serranias se esfumava em turva neblina de mormao, e a virao, cada como um hlito de febre, revolvia o p em torno das moitas mortas, rugia nas palhas dos alpendres e barracas, anunciando o pendor do sol para o ocaso flamejante.

Do alto do morro ela divisava a faixa de oiticicas seculares, marcando o contorno do leito do rio estanque, e a cidade, como um enorme crustceo farto  sesta, as torres da matriz alvejando em plena luz, o vermelho, o vasto telhado da casa da Cmara, no qual, tanta vez, demorara o olhar saudoso e compadecido do homem querido, sofrendo, ali, aviltante priso, e donde ela, enternecida, esperava, agora, ver alar-se o anjo da esperana triunfante. Mas, no partia de l, nem o eco de uma voz de alvssaras, nem um sinal auspicioso animava a paisagem, tocada de tons quentes de brasa, numa imobilidade de coisa morta, num silncio triste de stio desolado, quando ela desejava que a natureza, as coisas vivas, as coisas mortas participassem da sua ansiedade, do seu desejo quase raro, quase ignorado.

As meninas cosiam, diligentes, agrupadas em derredor da mestra, numa garrulice de passarada inquieta. Ranchos de operrias davam a ltima demo ao trabalho do dia; retirantes fatigados da derradeira caminhada se aliviavam das cargas de material, e os feitores contavam e notavam em cadernos apolegados, o pessoal que vinha chegando lentamente.

Apareceu por ltimo, Raulino, rbida figura de breto, muito alto, muito magro, de msculos tmidos, os revoltos cabelos ruivos empoeirados, erguidos em trunfa sobre a fronte tostada.

- Ento?  inquiriu Luzia, erguendo-se a encontr-lo.

- Est solto. No o vi, porque havia gente como formiga defronte do armazm. Teresinha saiu com ele. Estava desfigurado, dizem, como quem se levanta da cama de molstia maligna. Credo! Parecia um defunto em p.

- No falou com ele?

- Fiz o possvel; mas tinha pressa de chegar aqui antes do ponto.

- Est mesmo livre. No , seu Raulino?

- To livre como eu, que lhe estou falando. Tambm no foi sem tempo, porque se o pobre ficasse mais alguns dias na cadeia, talvez fosse desta para melhor. Saa dali para a cova.

- E agora?...

- Agora...  cuidar da sade, e trabalhar. Pobre no tem direito de ficar doente. Barco parado no ganha frete...

- Acha que ficar bom?

- Alexandre  rijo e moo. Com alguns dias de ar livre, fica capaz de outra, do que Deus o livre. Aquilo  madeira de lei; o cupim da molstia h de custar a ro-la.

- Ainda bem.

Luzia voltou-se para as meninas, e ordenou-lhes que dobrassem as costuras, embora no soasse ainda a hora de terminar a tarefa. Pensou, ento, em abandonar o trabalho, voar a casa, onde, talvez, a estivesse Alexandre esperando, ansioso. Mas, primeiro a obrigao, o cumprimento do dever remunerado pelo po de cada dia. E ficou, aparentemente, calma, resignada  lentido do tempo, porque o sol, que o governava, como que havia parado, desceu escandescido, na calma imensidade de oiro alastrado.

Dona Inacinha errava, rabujenta, entre as turmas de costureiras, resmoneando censuras graves, cheias de desgosto.

- Tudo muito mal feito, obra albardeira, mal-acabada e feita  pressa: no paga o piro que custa.

- Vocs mesmo  continuava, com asperezas fanhosas de voz, traindo a irritaro incoerente de celibatria  no se emendam. O que lhes digo sobre o servio entra por uma orelha, e sai pela outra. Estas costuras encardidas bem mostram que foram feitas por porcalhonas. Vejam as da Luzia. D gosto lidar com uma pessoa assim cuidadosa e cumpridora dos seus deveres. Os pospontos parecem feitos por mquina. Vocs me pem doida. Estou vendo a hora de perder a pacincia e o juizo. Se vivem grazinando na conversa, em vez de olharem para o que esto fazendo.

E mais rubro se acendia, riscado de veiazinhas tensas, o grande nariz da beata, montado de grandes culos cintilantes.

Quando chegou a turma de Luzia, estranhou que as peas costuradas j estivessem todas arrumadas em pilhas.

- Como? To cedo, e j acabada a tarefa?

-  que eu  observou Luzia, enleado  desejava sair hoje mais cedo...

Por que no me disse h mais tempo? Pode ir. Voc merece contemplaes. D conta do servio, como uma moa de vergonha.

Acrescentou depois, sorrindo, com ironia, e cravando nela os pequeninos olhos maliciosos:

- Hoje  dia grande para voc, sua sonsa. J me disseram: sei tudo. V, ande, e seja bem sucedida. Como  para bom fim, no me importa de dar-lhe um suetozinho...

Luzia corou; agradeceu o favor, e partiu veloz, aoitada pela ventania morna e violenta que lhe relevava as formas, colando-lhe, como uma tnica de esttua, o vestido ao corpo, mal disfarando os graciosos contornos, modelados por inspirado escopro.

O corao pulsou-lhe inquieto, ao avistar o tecto da casinha, vergando ao peso das telhas enegrecidas pelas intempries, deslocadas pelos tufes. Naquele abrigo, onde gemia a me doente, e que ela amava como lugar do sofrimento dos fortes resignados e dos crentes; naquele stio, onde Alexandre lhe propusera viverem eternamente juntos, ligados pelo mesmo afeto espontneo e sincero, e lhe dera os cravos vermelhos que lhe haviam envolvido o corao com raizes vigorosas, e o inebriaram com o seu perfume suavissimo; sob aquele tecto velho, a vacilar sobre as forquilhas de aroeira, passara dias de amargura, noites de viglia torturantes, e os momentos mais venturosos de sua existncia humilde, ignorada; e ali, quela hora melanclica, contrastando ccm as pompas deslumbrantes do crepsculo, encontraria a satisfao dos seus supremos desejos.

Exausta da caminhada, estacou para tomar flego e consertar as vestes, como quem se aparelha para um lance de efeito. Prosseguiu, lvda e trmula, com precaues de menina criminosa na iminncia de castigo merecido.

A latada do alpendre estava deserta. Sobre a trempe fumegava uma grande panela de barro. Os utenslios domsticos estavam arrumados no jirau. O silncio, um silncio triste de abandono, era interrompido pelo queixume triste dos ganchos de ferro, donde pendia a rede, em que a me se baloiava, defronte da porta do quarto escancarada.

- Que  isto?  perguntou-lhe a velha  Supus que viesses com Alexandre...

- No  respondeu ela.  Vim do morro.

- No foste  cadeia?

- Fui trabalhar.

- Que modos, filha? Esperava ver-te alegre e ditosa...

- Quem sou eu para merecer tanto?

- Tens alguma coisa? Ests cansada, no ?... Sempre digo que te matas sem proveito com os teus excessos de labutao.

- Teresinha no apareceu?

- No.

- Sabe que Alexandre j est livre?

- Deus seja louvado!

- Agora vamos cuidar de ns  concluiu Luzia, atirando o manto branco sobre a corda atravessada ao canto do quarto. E, voltando ao alpendre, tratou do jantar da doente, que a seguia com os olhos carinhosos, olhos de me.

- Bem mereo este castigo. Sou eu a culpada. Abandonei-o por soberba, capricho... Teve razo. No devia perguntar por mim  murmurou, enchendo de caldo a tgela.  Eu, no lugar dele, no viria atrs de uma ingrata feroz... Ah! os homens nada desculpam; no perdoam... So vingativos porque no so capazes de querer bem como ns, que, por eles, esquecemos tudo...

- Que tens, filha?  repetiu a velha, recebendo o caldo fumegante.  Choraste?

- No  respondeu ela, a voz salteada, comovida.   a fumaa que me faz arder os olhos...

E sentou-se  soleira da porta, desmanchando, lentamente, as bastas tranas, do lustre fulvo da asa da carana, as tranas que vendera por causa dele, dessa criatura ingrata, que os seus olhos, flbeis de decepo e de saudade, procuram, em vo, topar, de sbito, surgindo onde o caminho torcia, encoberto de moitas mortas de mofumbas e juremas, a cujos galhos, desordenadamente hirtos, contorcidos, a ventania vultarna dava movimento, gestos de aflio, nuns silvos de estertor.





XXIV



Separando-se de Alexandre, Teresinha, comeou de sofrer a extenuante reao do esforo empregado para salv-lo. Essa generosa empresa, que a seqestrara  influncia deletria dos hbitos de viciosa passiva, que lhe despertara afetos adormecidos no corao, encrostado ao atrito do infortnio e lhe deparava a inefvel satisfao de ser til, fora, muitos dias, o plo da gravitao do seu esprito. Nesse perodo de agitao do crebro ocioso e vazio, ela s pensava na iniqidade do constrangimento de um inocente, no martrio da enxovia imunda, na arrogncia petulante de Crapina e no cruel insulto, que a chicoteara como um relho. Alcanado o anelo de justia e vindita, parecia faltar-lhe a razo de viver. As ptalas de sua alma, sob um fino, um suave orvalho do bem, se contraam tristonhas, como folhas que, saciadas de luz e oxignio, se encolhem para adormecerem ao avizinhar da treva, e se expandem viosas ao raiar da seguinte aurora. Ela, porm, se sentia sepultada em noite sem esperana de alvorecer, sem o consolo delicioso do sonho a doirar a ignomnia da realidade, onde imergira, como num tremedal de lama gulosa.

Restava, entretanto, o remate da obra meritria, a felicidade de Alexandre e Luzia; v-los casados, muito amigos um do outro; e fruir o saboroso quinho de ventura do lar abenoado. Mas, os dois pareciam separados pela teia de aranha de melindres fteis ou amarrados ao poste de caprichos injustificveis. Seria mais nobre, mais humano, se estreitarem em decisivo amplexo, como faria ela, sem ponderar convenincias, escrpulos, circunstncias, num arroubo de paixo vitoriosa.

As reservas de Luzia irritavam-na como estulta resistncia. E murmurava, caminhando a esmo, injrias contra ela, recriminaes a Alexandre, um mazanzal, que ficava no armazm embiocado de fadiga, quando a liberdade e o amor deveriam restituir-lhe as foras, dar-lhe asas para voar, como um passarinho evadido para junto da criatura querida.

- Arre l!  exclamava indignada  Que se arranjem, que se separem, cada um para o seu lado. Que me importa!... Bem-querer no  obrigado, nem eu tenho nada com isso. Eu me intrometi demais em negcios alheios... Chega a meter-me raiva tamanha cerimnia entre pobres diabos, que no tm onde carem mortos, quanto mais vivos...

Considerava depois, que no mudaria o seu destino se eles fossem felizes. Ela seria esquecida, porque o dia do benefcio  vspera da ingratido. Na embriaguez de gozos divinos, no se lembrariam dela que havia sofrido por eles; no teriam uma palavra de d da pobre Teresinha, mulher -toa, desprezada como vil trapo humano, atirado ao monturo dos resduos sociais, vagabunda sem rumo, sem triste vintm para comprar um bocado, carecendo de tudo e no sabendo onde buscar cinco patacas do aluguel do quarto, abandonado, havia mais de ms.

A recordao dessa dvida, surgia a horrvel idia de ser forada a volver ao poste da infmia, onde passara noites acocorada  soleira da porta, fumando cigarros, mutuando gracejos torpes com as vizinhas; ou, solitria, bocejando, a lutar com o sono, aguardando o inesperado amante, que a provasse de alimento para o dia seguinte deixando-lhe o imundo bafio hircico de homem luxurioso, impregnado na sua pele. Vinha-lhe, ento, invencvel nojo  passividade abjeta de coisa que se vende, tbua de lavar roupa, como dissera Crapina; assaltava-a o terror de volver quele lamaal infecto, como se o contgio da pureza, o exemplo da honestidade impoluta e forte, em combate com a misria, lhe houvessem infundido no corao, fechado aos afetos sos e benfazejos, um nobre impulso de amor-prprio. Faltava-lhe, porm, coragem para resistir ao pendor criminoso, volver a trabalhar como as outras desgraadas, nas obras da Comisso, carregar gua, tijolos, areia. Que poderia fazer para ganhar, alm da rao, algum dinheiro, uma criatura franzina, desacostumada a esforos musculares, e, por cmulo de males, aberta dos peitos?...

- Como h de ser, Deus do cu?  exclamava, aflita  Como hei de viver agora, sozinha, sem parentes e aderentes nessa desgraceira!...

E seguia, lentamente, na direo da casa de Luzia, contornando os quintais e as casas extremas da cidade, para evitar o trajeto nas ruas cheias de gente, mendigos, enfermos e a praga de meninos esfomeados.

Na vrzea, varada de trilhos claros que riscavam o cho negro, ela encontrou, quela triste hora da tarde, magotes de retirantes, cobertos de p, marchando em filas tortuosas, das quais, como de um rastilho de suplcio marcado pelas vtimas, se destacavam individuos ou famlias, que paravam emaciados, rendidos de cansao e se sentavam para repoisarem, recobrarem alento e comporem os andrajos, antes de penetrarem na cidade.

Esse espetculo de todos os dias, na sua monotonia sinistra, no a impressionava mais, porque se habituara  vizinhana da misria nas formas mais lgubres e vis. Vira crianas, a sugarem os seios murchos das mes mortas; cadveres desses entezinhos abandonados sobre a estrada, devorados por urubus e ces vorazes: criaturas, ainda vivas e exangues, torturadas pelas bicadas de carcars a lhes arrancarem, aos pedaos, as carnes ulceradas e podres. Vira mes desnaturadas ocultarem em crateras de formigueiros, o fruto de amores criminosos, ou traficarem com filhas impberes; pais desalmados, incestuosos e delinqentes dos mais torpes crimes, como se o concurso de todas as dores e de todas as baixezas, condensando-se em enorme e fantstico suplcio, os houvera transformado em monstros hediondos, rebalando-se em lances trgicos de ferocidade inconsciente. Diante dela haviam tombado, fulminados pela fome, indivduos de aparncia sadia e robusta, estrebuchando no cho como epilpticos a tragarem terra aderente aos dedos aangrentos e blasfamarem contra o Deus impassvel que os desamparava, os renegava filhos pecadores, condenados, em vida, s torturas daquele inominvel inferno da misria.

Milhares de criaturas haviam sido provadas nesses transes inenarrveis; no entanto, ela havia apenas sofrido o ferrete da ignomnia. Era, pois, incomparavelmente, mais feliz que aqueles pobres alquebrados, que passavam lentamente, restos de uma raa de trabalhadores hericos e fortes, desbaratada sob o ltego do castigo do cu. Se devia cair mais, descer mais fundo no sorvedoiro da infmia, padecer como aqueles mrtires, desejaria ser levada por uma molstia para a vida onde ningum sofre.

A sua imaginao desvairada volviam, com esses pensamentos tristes, as figuras de Alexandre e Luzia: ela caminhando para a praia, confundida no xodo, conduzindo a me estropiada; ele, feliz, bem colocado no emprego e apoiado na confiana dos Comissrios. E no se conformava com o romance passional sem desenlace, empatado pelo egosmo de ambos.

Desviando-se, insensivelmente, Teresinha foi ter ao sobp da encosta ngreme cerrada pelos rochedos, chamados Fortaleza, nos quais terminava o renque de casas da Leonor, onde morava Rosa Veado. A o caminho, que era uma breve ladeira cavada entre pedroios, estava obstrudo por um grupo de trs indivduos, uma famlia que subia a passo tardo, tangendo um velho burro, pelado e esqueltico, carregando duas malas e, no meio da carga, os utenslios domsticos e o oratrio de cedro envernizado, cheio de santos. Um velho, de longas barbas brancas, puxava o animal pelo cabresto; ao lado, ia a mulher, tambm idosa, de formas cheias; atrs, marchava uma rapariga loira, de corpo franzino e flexvel, acusando o despontar da adolescncia. O burro, de grandes orelhas bambas, vacilava a cada passo, e era animado pelos seus condutores com palmadas carinhosas nas ancas, estalidos de lbios soando como largos beijos, e vozes de estmulo. Mas o msero bufava, arquejava, e mal se podia equilibrar sobre as patas corridas de suor, trmulas, hesitantes.

- Que maada!  resmungava Teresinha, obrigada a seguir o moroso grupo, parar quando ele parava, a marchar com ele, bem chegada  mocinha loira  Esta s a mim acontece...

Entretanto, o animal, vergado de fadiga, tirava-lhe funda piedade. O oratrio, encimado pela pequena cruz singela, a balanar surgindo dentre o amarradio de cordas de crina, evocava meiga saudade, fantasmas de anjos esvoaando atravs de sua memria obscurecida, recordaes vagas, msticas comoes, talvez provocados pela parte dos santos no infortnio dos adoradores, aquela famlia de crentes, que no os abandonava, como tutelares do lar vazio.

- Vamos, vamos!  dizia a mocinha ao animal  Caminha mais um bocadinho; estamos quase em riba.

Essa voz tinha sonoridade consoante s recordaes de Teresinha; era a de uma pessoa querida, morta, ou, havia muito, ausente, depois de feliz encontro na sua carreira aventurosa pelo mundo. Quem seria? Onde ouvira falar aquela criatura, que lhe alvoroava o corao? E  revolta contra o obstculo, sobreveio intensa curiosidade de ver a mocinha, de saber quem era.

O burro, com supremo esforo, deu mais alguns passos e chegou ao cimo da pequena ladeira, junto dos grandes molhes de granito retangulares e erguidos a prumo, como ameias de uma fortaleza. A, como se houvesse esgotado o alento, vacilou, respirou com fora; soltou um surdo gemido doloroso e caiu aniquilado, contemplando com os grandes olhos splices, o velho que puxava o cabresto para lhe suspender a cabea, ao passo que a moa tentava ergu-lo pela cauda.

- Aliviemo-lo da carga  ordenou o velho  Est afrontado, pobre Macaco... Tambm h trs dias que nem retraos tem comido.

O caminho estava desobstrudo e franco; mas Teresinha apiedada do pobre animal, estacara trmula e lvida, cosida aos rochedos, numa postura de horror, pregando o olhar esgazeado no grupo sugestivo, a poucos passos de distncia.

- Macaco! Ser possvel!  gaguejou ela, espavorida.

Vendo-a ali parada, a mocinha se dirigiu a ela:

- Minha senhora, faa a esmola de nos dar uma mozinha para tirarmos a carga daquele pobre.

- Maria da Graa!  bradou Teresinha.

- Sa dona conhece-me? Minha Nossa Senhora!... ... ...

Maria recuou, transida de susto, mal confiando nos seus olhos. 

- Que ?...  perguntaram, a um tempo, os dois velhos, muito empenhados em tirar o oratrio de cima do burro, imvel, estirado no cho.

- ...  a Teresa  respondeu a mocinha, com um grande gesto de espanto.

- Teresa! minha filhinha!...  exclamou a velha, num grito de surpresa alegre, no qual retumbava a ternura toda do corao de me.  Tu!... tu aqui?

E, atirando-se  filha, enlaou-a nos braos, beijando-a com apaixonado frenesi na face, na fronte, nos cabelos, como quem sacia longa e cruel sede de amor.

Hirta e gelada, desfigurado o rosto por violentas contraes de estupor, e lvida como um morto, Teresinha no pde fazer um gesto; mas, a carcia maternal lhe agitava todas as febras do corao, e todo o seu corpo tremia convulsionado. S os olhos espantados, viviam, cintilando com uma lucidez ingnita.

- Teresa, filha da minha alma, - continuou a me  Deus te abenoe! Minha Virgem Santssima,  ela mesma!... Seu Marcos, veja,  a nossa filha!...

O velho erguera-se. As grandes barbas, alvejando  luz do sol poente, davam venerando relevo ao esqulido rosto, macerado, tostado pelo mormao do serto. Os pequenos olhos azuis, de um azul de cu empoeirado de neblinas, brilhavam no fundo das rbitas sombrias, com um bruxuleio de lmpada de santurio. Na postura, nos andrajos e na voz soturna e firme, corporizava a nobreza da misria da misria superior.

- Teresa de Jesus!  murmurou ele, com um suspiro, que lhe assomou aos lbios, como um silvo de tormenta  J pedi a Deus que perdoasse os seus pecados. Estes santos, que nos acompanham, sabem que rezei por ela, como um pai reza por uma filha ingrata, perdida e morta.

Ao choque destas palavras de condenao implacvel, Teresinha cambaleou, e caiu prostrada de dor, nos braos da me angustiada.

Maria da Graa contemplava, muito aflita, o pai e a me, e, no transe incompreensvel, considerava a intensidade da cena, dolorosa, inconsidervel.

-  nossa filha, seu Marcos  continuou a velha, acariciando a filha e conchegando-a ao seio.  Tenha d dela, meu marido do corao! Veja como est acabada a nossa filhinha!...

- Voc sabe, mulher  gemeu Marcos  que j padeci por ela todas as dores deste mundo...

- Tambm ela tem sofrido...  uma infeliz...

- Infeliz! assim foi de sua vontade...

- Seu Marcos...

- Sabe que mais, mulher? Vamos cuidar deste pobre animal, nosso amigo velho, que no nos abandonou e est aqui morrendo por nossa causa ... Ah! os bichos tm, s vezes, mais corao que as criaturas.

- Meu pai!  soluou Teresinha, como se as duras palavras lhe estrangulassem as entranhas.

Ele, porm, parecia intangvel. A splica da filha, queixumes de alma penitenciada a estorcer-se no silcio da vergonha no ecoou no corao, donde ele arrancara, num paroxismo de oprbio, a poluda imagem da pecadora, que no podia volver a profanar o tabernculo do culto incondicional  honra e  integridade da famlia. No peito lhe ficara um buraco lgubre, o ninho vazio transformado em cova, encerrando, para sempre, um sublime afeto estiolado.

A um gesto imperativo do pai, Maria da Graa, despertada da estupefao que lhe gelava o sangue nas veias, o ajudou a desatar a troixa de redes, as azelhas dos dois bas, cobertos de coiro cru e tauxiados de pregos doirados e, por ltimo, as cilhas da cangalha que, retirada do suarento dorso do burro, lhe exps as mataduras da espinha, as chagas rubras dos omoplatas, sobre as quais vieram adejar, zumbindo, grandes varejeiras, de asas nacaradas e revestidos de cintilantes coiraas, oxidadas de verde metlico. No espao voavam, em largas espirais, urubus famintos, dos quais alguns mais ousados se despenhavam, de asas quase fechadas, at perto dos rochedos, onde poisavam, aguardando o abundante repasto da carnia ainda viva.

Macaco, aliviado da carga, tentava erguer-se sobre as pernas dianteiras, rolando um olhar de terror para os lgubres pssaros, que pontuavam de negro as arestas das rochas, mas, faltavam-lhe as foras e recaia ofegante.

- Se ao menos  dizia Marcos  houvesse por aqui uma pouca d'gua e alguns retraos...

Clara, indiferente  sorte do animal, acariciava e consolava a filha desditosa:

- Tem pacincia, meu corao. Teu pai tem mpetos de crueldade, mas passam, porque a alma  de oiro. Coitado! Sofreu tanto por ti...

- Tem razo... tem razo, mame  gemia Teresinha.  Sou uma ingrata, uma doida, mas... assim mesmo... no sou to ruim que merea menos compaixo que este animal...

E entrou a chorar em convulso, murmurando frases inteligveis, que o pranto e os soluos entrecortavam.

- Seu Marcos, meu marido da minha alma  suplicava a me.  Tenha pena desta pobre.

- Ah! papai  balbuciou, trmula, Maria da Graa  tenha compaixo dela... Coitadinha de Teresa...

- Era melhor  resmoneou o velho, abalado pelas lgrimas da mulher e da filha caula, que era o seu dolo.  Melhor seria que essa mulher, em vez de estar ai a chorar, ela que conhece a cidade, nos ajudasse, mostrasse que ainda tem prstimo...

Teresinha ergueu-se de repente; enxugou o rosto na saia e partiu. Sabia que Rosa Veado morava perto, no renque de casas da Leonor, e foi procur-la, seguida pelos olhares da me e irm, tomadas de surpresa, ao passo que o velho teimava em reanimar o burro com palavras afetuosas.

Pouco depois ela voltou, trazendo uma grande cuia cheia d'gua... Pressentindo o precioso lquido, Macaco nitriu surdamente, como se sorrisse de satisfao; ergueu a cabea e, agitando os grandes lbios negros e vidos, a sorveu, a longos, a ruidosos tragos.

- Deus lhe pague  disse o velho, restituindo a Teresinha, cuia vazia.  Disseram-me que era possvel encontrar aqui uma, pousada, um tecto caridoso, onde pudssemos descansar da viagem atravs desse serto ingrato.

- Deram-me  balbuciou Teresinha, hesitante de medo  chave daquela casa, a casa da fortaleza, onde ningum mora h muitos anos, porque  mal-assombrada...

- Virgem Maria!... Credo!  exclamaram Maria da Graa e Clara, numas projees espavoridas de olhos sobre a velha prumada, cujas paredes, esburacadas e marcadas de grande reboco, pareciam apoiadas nos rochedos. Ervas morta das goteiras desdentadas, donde esguichavam piando, em desordenado vo, grandes morcegos, estonteados pela tnue luz crepuscular.

Pouco depois, o grupo estava cercado de moradores da vizinhana, cada qual mais curioso e empenhado em socorr-lo. Vieram em seguida, e quase sobre os passos de Teresinha, Rosa Veado e o Chico, um guapo tipo de homem; a Marciana que mantinha, nas proximidades, uma bodega bem sortida e possua j algumas libras de oiro em obra, comprado aos retirantes a troco de gneros alimentcios; e, esgueirando-se por entre os circunstantes, o bando infalvel, barulhento de meninos, os mais pequenos nus, os outros enrolados em trapos, em molambos.

- Anda, Francisco  ordenou Rosa ao filho  d um adjutrio a estas criaturas... Abre a casa; leva as malas...

- Amanh  exclamaram os meninos, tripudiando em volta do burro  urubus tm festas! Este mesmo est aqui e est no cu das formigas!...

Rosa Veado tomou o oratrio; beijou-o, com reverncia, que outras mulheres, outras devotas, imitaram, silenciosamente.

- O senhor  observou ela ao velho Marcos  tem coragem. Eu no passava a noite naquela casa amaldioada, nem que me matassem.

- Eu s tenho medo dos vivos  ponderou o velho.

-  que vossa merc no sabe o que nela se tem dado, coisas de arrepiar coiro e cabelo...

- Que me importa visagens e almas do outro mundo, ou artes do demnio? Por ora, eu careo, que me arranjem alguma coisa para matar a fome deste animal...

- No  difcil  atalhou Marciana. Mas, o senhor deve saber que o milho est pela hora da morte...

- Ainda tenho meios, graas a Deus, e, alm da paga, ficaria agradecido.

Marcos desatou da cintura uma faixa elstica, tecida de algodo, e tirou dela alguns pataces de prata. A vista das moedas, desapareceram as hesitaes de Marciana, que se desmanchou logo em cumprimentos e palavras de pesar pela sorte da famlia e prometeu prove-la, sem demora, do necessrio, preparando a casa mal-assombrada para abolet-la com a possvel comodidade naquela noite.

No era raro aparecerem, entre os retirantes, famlias abastadas que haviam abandonado os lares, levando dinheiro e jias sem valor por no terem o que comprar, mesmo a preos exorbitantes. Marcos, depois de intil resistncia, viu-se nessa triste situao. De esperana em esperana de mudana de tempo, vira os gados morrerem nos campos devastados; consumira, com parcimnia cautelosa, as provises acumuladas, os surres de farinha de mandioca, os pais de milho, arroz em casca e feijo; as matalotagens em salmoira ou empilhadas se esgotaram por encanto, porque no tivera coragem de recusar esmola aos famintos que passavam pela sua fazenda. Os vaqueiros, agregados e pessoal de fbrica, empregados na labutao de criadores e agricultores, na maioria escravos velhos e crias de casa, no tinham que fazer; eram bocas inteis. Alforriou-os deu-lhes liberdade para ganharem a vida.

Cansado de resistir e lutar, aguardando, em vo, sinais de inverno, viu-se, afinal, s, sem um amigo, um companheiro, um vizinho, numa redondeza de dez lguas, exposto aos assaltos de bandidos, que enchiam a regio, e resolveu emigrar. Arrumou em algumas malas o indispensvel, a roupa da famlia e algum dinheiro, enterrando o resto com a prataria, velha baixela e jias numa brenha de serrotes speros e pedregosos. Organizou o comboio com trs burros e outros tantos cavalos de sela, e partiu na direo de Sobral, a cidade intelectual, rica e populosa, emprio do comrcio do norte da provncia, na qual o Governo estabelecera opulentos celeiros.

Na longa e penosa travessia,  falta d'gua e pasto, morreram os cavalos, depois dois burros. Foi forado a abandonar malas, reduzir as cargas a uma s para que Macaco, o animal sobrevivente, a pudesse agentar. Pela primeira vez na vida, tiveram de viajar a p, a curtas jornadas, para no fatigarem o animal e poderem suportar, sem se estropiarem, a penosa marcha de exlio.

Muita vez, arranchados  sombra de oiticicas frondosas, oferecera um pataco por uma cuia d'gua. Os raros bebedoiros subsistentes ficavam longe da estrada real: era preciso fazer enormes desvios para os alcanar. Cortava-lhe o corao ver a filha, a meiga Maria da Graa, descorado o rosto de criana na moldura dos cabelos de oiro, rendido o frgil corpo, os pezinhos dilacerados pelas agruras dos caminhos e veredas, os rubros lbios ressequidos e rachados, as entranhas devoradas pela sede, adormecer no regao da me, tambm mortificada, mas resistindo resignada, com esse valor divino que torna invencveis as mes aflitas.

Ele sofria a tortura inigualvel de no a poder socorrer, mesmo com o sangue de suas veias; de pedir, em vo, ao cu luminoso, impassvel, sorridente, a gota de orvalho que alentasse aquele lrio, nascido nas runas de sua alma, a vergar emurchecido, tostado pelo sol inexorvel, quando, no delrio da febre, a pobrezinha, com nsia, balbuciava: "gua... gua, papai!"; e ele via dos olhos da me, resignada e herica, a implorar misericrdia ao Deus de amor e justia, por intercesso daqueles santos companheiros de infortnio, rolarem grossas lgrimas silenciosas.

Quando algum comboieiro lhe cedia, de graa, a metade da sua borracha d'gua salobra, recusando a prdiga paga por no ter nimo de vend-la a cristos, Marcos, superior s dores fsicas, sorria de alegria de ver saciadas e salvas da morte horrvel as criaturas idolatradas e o fiel animal, e apenas umedecia os lbios e sentia alentarem-se-lhe as indmitas energias para chegar ao termo da dolorosa viagem pelo serto combusto.

- Deus  grande!  exclamava, em arroubos de f inquebrantvel.  Coragem, mulher, nimo filhinha!... Vamos para adiante, parar aqui  morrer!... Mais alguns dias, estaremos salvos!...

A salvao estava em Sobral, na cidade formosa e opulenta, o osis hospitaleiro anelado pelas caravanas de pegureiros esqulidos.

E chegaram, padecendo todas as inclemncias da jornada, caminhando  noite para evitarem a torreira do sol. Por inculcas, souberam que no subrbio da cidade, poderiam encontrar um rancho, modesto abrigo, onde pudessem esperar dias menos aflitivos.

A casa mal-assombrada era quase uma, tapera. O repuxo das paredes; os esteios esconsos, cobertos de colmeias abandonadas; o tecto, velado sob empoeiradas colgaduras de teia de aranha; o telhado desfalcado, invadido de ervas mortas; as portas emperradas e o cho, aludo por tneis de formigueiros, sinalavam longo abandono. Essa vivenda maldita, preservada pela superstio, estivera sempre fechada. Ningum lhe conhecia j o proprietrio, cujo procurador, morto havia muitos anos, deixara a chave  custdia de Marciana.

Ao penetrar no asilo de duendes, onde se ouviam,  noite, gemidos lancinantes, rumores de correntes arrastadas assobios diablicos, Rosa Veado, que se encarregara de prepar-la para aboletar os hspedes, persignou-se, balbuciou uma Ave-Maria e acostou-se s outras mulheres, apiedadas da famlia de Marcos. Mal acenderam a vela, uma coruja espantada esvoaou, gaguejando pavorosa gargalhada de louco, e enormes vampiros agitaram a luz, o ar deslocado pelo remgio das grandes asas desvairadas.

- Credo!  gritaram as mulheres, recuando de medo.  Te desconjuro, p-de-pato!

Passado o susto, entraram e vasculharam, num instante, a sala, impregnada de forte cheiro de estrume de morcego.

Uma levou as redes e as atou aos cantos nos armadores enferrujados; outra sobraou, reverente, o oratria que foi colocado sobre uma das malas conduzidas pelo Chico, que foi depois  venda da Marciana buscar um pote d'gua e um caneco de folha-de-Flandres novo. Apareceu, por sua vez, a bodegueira, trazendo um bule com caf, trs casais de xcaras de ruim loua, esmaltada de flores vermelhas, um pires com acar escuro mascavado, e algumas roscas e bolachas, duras como pedra.

- A est, seu capito  disse ela a Marcos  J tem onde encostar o corpo e o que foi possvel arranjar para entreter a barriga. At amanh. Vossa senhoria deve ter o corpo pedindo rede... Com Deus amanhea. Se percisar de alguma coisa,  s bater na derradeira porta da esquina.

Marcos contemplava, penalizado, o burro, que Teresinha alimentava com punhados de milho amolecido; tomou Maria da Graca pela mo, e recolheu-se.

- Vai dormir, filhinha...

- E mame?

- Est com a outra, tratando o Macaco. Vir mais tarde.

Clara ficara ao lado da filha infeliz, amimando-lhe os cabelos, dirigindo-lhe palavras de amor e conforto, e recomendando-lhe que suportasse, com pacincia, as exploses da clera paterna, at conseguir ser abenoada.

- Ele tem razo, mame  balbuciava a moa, com voz embargada pelo hercleo esforo para conter o pranto.   o castigo, castigo merecido pelos meus pecados, que so muitos. No peo que me perdoe, mas tenho padecido tanto com o abandono, que no poderei mais viver sozinha no mundo. Rogue a papai que no me bote para fora de casa. Embora no me tenha mais como filha, porque morri para ele, deixe que eu fique, como negra cativa. Tratarei o Macaco, carregarei gua, tomando conta da cozinha, da roupa, pois no me desprezo de fazer todo o servio.

- Sei que no s m, filha do corao. Foi aquele malvado, meu Deus perdoai-me, que te botou a perder... Eras uma criana...  No o culpe, mame. Cazuza era bom e me quis bem at morrer. S depois de ficar sem ele foi que me senti na desgraa, por no ter vivalma caridosa que me amparasse.

- Por que no voltaste?

- Tive medo e... vergonha. Faltou-me coragem para afrontar a ira do papai...

Passaram as duas horas conversando, e alimentando, aos poucos, o precioso muar desfalecido. Por fim, teve Clara de obedecer aos repetidos chamados do marido para no o exasperar.

- Anda  disse ela.  Teu pai j est impaciente. Vem comigo.

- No preciso de descanso. V, mame, que ficarei vigiando este pobre.

Clara imprimiu-lhe na fronte um longo beijo, e partiu, murmurando: Pobre filha! Deus te abenoe. Parece que lhe quero ainda mais por ser infeliz.

O rgido velho, curtido de preconceitos e fechado o corao nas resolues inabalveis, como num tmulo, no podia conciliar o sono. A espaos, erguia-se da rede, ia  porta, sempre aberta; contemplava a filha culpada, acocorada ao lado do burro enfermo; e, no misterioso silncio da noite estrelada, ouvia um murmrio dolente, um estertor de fonte, que se estanca, o pranto de Teresinha velando o animal para que os urubus, postados nas arestas dos rochedos, como vedetas sinistras, no o devorassem vivo.





XXV

Com irrepressvel impacincia, esperou Luzia que algum dos raros conhecidos lhe trouxesse as ltimas notcias dos acontecimentos do dia. A cada momento, se lhe afiguravam vultos de homem, esboados nos cmulos da poeira, que o vento rijo da tarde revolvia, em redemoinhos, pela estrada, como um sinal do vento baixo, rasteiro, sinal de seca. Talvez Alexandre livre, remido da infmia, radiante de ternura a lhe sorrir com amor. Tinha estremecimentos de jbilos comedidos; a efmera viso fugia com as colunas de p desfeitas, e a pobre recaa desiludida numa dolorosa apatia de quem espera em vo.

Ningum aparecia. Alexandre, cheio de brio, magoado pela crueza com que ela o tratara, no viria, contido pelo mesmo propsito que a condenava a estar ali, a estorcer-se em voluntrio suplcio, estimulada de ftil obstinao em resistir ao impulso de correr a receb-lo no limiar do crcere.

Nem vivalma. Estavam todos, quela hora, recebendo, em rao, o salrio da semana, pago aos sbados, nos postos de distribuio de socorros, ou na obra da penitenciria. Ela via as suas meninas amadas, Quinotinha e outras da tenda de costuras, sobraando saquinhos cheios de vveres; as suas companheiras de trabalho aguardando a chamada, a tagarelarem com a garridice de maracans nos roados; outras tristes, desconsoladas, recebendo os quinhes que deveriam passar s mos de atravessadores, em paga de adiantamentos usurrios; muitas agrupadas em torno da figura herclea, vermelha e ruiva de Raulino Uchoa, com a distino de tipo de outra raa, entre os ouvintes, emaciados de privaes, minados pelos txicos das raizes de mucun, de pau-moc, esboroadas em farinha. Ele costumava matar o tempo com a narrativa pinturesea das faanhas inverossmeis de amansador de animais bravios, orelhudos que nunca tinham visto gente, as fricas de vaqueiro de fama, temido dos barbates mais ferozes das catingas e carrasces impenetrveis, as proezas de caadas de onas acuadas em furnas sombrias, onde ele as agredia, armado de uma simples azagaia. Contava das viagens extraordinrias, aventurosas pelo serto inundado, da intrepidez com que afrontava o mpeto dos rios desbordantes, nadando em cavaletes de molungu no tempo  at parecia sonho  em que Deus ainda se lembrava, piedoso, do Cear, para dar-lhe chuvas copiosas e fertilizadoras dos campos, trombas d'gua devastadoras, rotas nas cumeadas das serras, descendo em catadupas raivosas, invencveis, pelos telhados, encostas verdejantes, arrastando rochedos, rvores, plantaes, at se espraiarem na plancie,  maneira de um mar, arrombando audes, soterrando bebedores, cavados durante a seca. Descrevia com a linguagem fantasiosa, ardente, de vigoroso colorido, com as imagens vivas, sugestivas do rude estilo sertanejo, o fragor das correntes raivosas de concerto com o ribombo ininterrupto da trovoada, o relampear das nuvens negras e macias, es ziguezagues fulvos a riscarem o cu, com letras cabalsticas, ameaadoras, traadas pela ira de Deus; o estrondo horrvel dos coriscos, o pavor do gado, haurindo, a largos sorvos; o ar saturado de ozonona, reunido, em magotes, nos cmoros da plancie encharcada.

Fresos aos lbios do narrador imaginoso, os retirantes mal continham lgrimas, ouvindo-o evocar, entre episdios da vida sertaneja, fatos e coisas, dons do cu, para sempre perdidos, gua, verdura, roados, safras opimas, alegria e fartura, cortados os coraes pela amarga saudade de recordar tempos felizes.

Luzia meditava, fitos os olhos, com uns gestos de sufocado pranto, nas rubras chamas vacilantes, desprendidas dos ties, quase apagados, espevitadas pelo vento e crepitando nuns feixes de centelhas intermitentes.

- Ningum  murmurou ela, magoada pelo abandono  Nem vivalma! E Teresinha? Que ser feito daquela cabea de vento? Onde se meteria? Nem pensa em mim, que a espero... Ah! se ela soubesse... Qual... est com ele, e eu, coitada de mim...

Cada vez mais espessa, a nebrina da tarde, com uns restos de calor, entrava a redondeza. Casas, rvores mortas confundiam-se desconformes, no esboo da paisagem, esfumada em claro-escuro. As manchas das sombras alastravam, como um lquido negro, devorando os tons luminosos. No cu, purssimo, piscavam, espertas, lacres, como uns pequeninos olhos, estrelas e constelaes. Papa-ceial, o astro da melancolia, librava-se no poente ainda claro, como lcida lgrima, mensageira da dor ignota, oculta nas profundezas misteriosas do espao, tremeluzia prateada como plo das esperanas e das mgoas dos tristes, e parecia vacilar atrada pelo sol, atufado em nuvens purpreas.

Pela estrada, abeirada  casa, passavam mulheres e meninos conduzindo as raes. Vinham da cidade ou do morro do curral do Aougue; deviam de saber de Alexandre e Teresinha, mas Luzia no ousou interrog-los. Apareceu, depois, Romana  frente do grupo de bandoleiras desenvoltas. A rolia cabocla, de dentes aculeados no ria dessa vez. Lamentava, com as outras, a sorte de Crapina, que se desgraara, apanhado na arapuca armada ao outro. Metia-lhes intenso d o Belota, to bom para elas, uma vtima da amizade, ou das ms companhias. Nada diziam em defesa de Crapina; consideravam, entretanto, injustia prenderem o outro, homem incapaz de fazer mal e sempre, bem procedido no servio. S tinha o defeito de jogar, mas o Governo devia saber que ele no se podia manter com o reles soldo; era homem como os paisanos. Ningum vive enchendo a barriga de vento como os camalees.

- Olha a Luzia!  observou uma  Nem parece que o homem dela foi solto!

- Vote!  atalhou outra  A modos que estaria mais alegre se ele ficasse na cadeia toda a vida.

- Qual o qu!  ponderou Romana.  Aquilo  soberbia. Quer mostrar que no faz caso de nada neste mundo. Impfia ali  mata. Deixa estar que h de ser castigada.

- Aquilo, mulher,  calibre do sangue. Nem o demnio tira. Por isso  que vive sempre apartada das outras, metida com ela cheia de coisas como se fora uma senhora dona.

- Conheo muitas mais melhores que no se desprezam de tratar bem e falar com a gente.

- S a Teresinha lhe caiu em graa. As duas se entendem. Deus as fez...

Esses comentrios eram feitos em voz alta, para que Luzia os ouvisse; esta, porm, minada embora de rancor surdo a Romana que no a poupava com insinuaes perversas, duma ironia picante, e passava por ali de propsito para molest-la, fingia no ouvir, resistindo ao impulso de assalt-la, arrancar-lhe a lngua danada, esmag-la aos ps, como rptil nojento e venenoso.

O grupo desapareceu. Passaram depois desconhecidos que, confundidos ao lusco-fusco, a saudavam com boa noite.

A velha me reclamava os seus cuidados, para iluminar o quarto e dar-lhe o remdio, que, abaixo de Deus, a salvara.

- Tiveste notcias de Alexandre?  perguntou-lhe ela, interrompendo o tero, rezado a meia voz.

- No  respondeu Luzia, com fingida indiferena  Depois de saber que estava solto, fiquei descansada... tirei dele o juizo...

- E Teresinha?

- Sei l!...

- Estou to acostumada com ela, que j lhe sinto a falta quando se demora...

- Ainda  cedo. Vir quando a lua sair...

- Sabes que mais, filha? Acho-te hoje to mudada!

-  que estou maginando no que devemos fazer, agora que no temos j obrigao de velar por ele. O corao me pede que vamos embora; mas no podemos. No h remdio seno ficarmos. Ser como Deus quiser. Eu terei sempre foras para trabalhar e viver... sem ser pesada a ningum, apesar de me desprezarem e fazerem pouco de mim.

- No fales assim, filha. Os fortes tambm enfraquecem quando Deus os desampara.

- Deus! Deus j no se lembra de ns, que somos cristos, que o adoramos e amamos...

- Tem f nele, que  pai de misericrdia.

- Para falar a verdade, mezinha, eu, s vezes, no acredito em nada. A desgraa endurece o corao. Por causa dela, os pais abandonam os filhos; maridos desprezam as mulheres e as criaturas viram bichos, ou ficam piores que eles. Para o fim do mundo, s falta que as mulheres no tenham mais filhos, pois j ningum ama.

- E eu que pensava...

- Em qu?

- No te quero pr de confisso, mas... sempre desejava saber se Alexandre nunca te falou em casamento.

- A mim?

- Pensei que se engraara de ti. Fiquei com a mosca na orelha desde aquele mimo dos cravos.

- Os cravos!  verdade que, um dia, ele me disse: "se casssemos, iramos viver juntos em uma casinha da ladeira da Mata-fresca." No respondi sim, nem no. Depois apareceu o impute, e foi preso. Sofri mais com essa desgraa do que ele; at parecia que todos me olhavam como ladra, e s o abandonei quando suspeitei que era igual aos outros homens, queria bem a outra e me enganava cruelmente. A ltima vez que vi ele, deixei-lhe os cravos na grade da cadeia. Essas pobres flores, guardadas no meu seio, como um breve milagroso, no podiam mais ficar comigo. Ele que as desse a outra. Mais tarde arrepeiidi-me: revoltei-me contra esse cime -toa, que no me envergonhava, porque as mulheres ricas tambm se enciumam; mas era uma fraqueza. Tive mpetos de pedir-lhe perdo. Uma voz, que vinha daqui, do corao, aconselhava que eu quebrasse a teima de abandon-lo e fugir dele... Seria rebaixar-me, fazer como essas que continuam a querer bem ao homem que as despreza, surra e maltrata; seria contra o meu gnio de no dar brao a torcer, de no dar parte de fraca, de sofrer calada.

- E  por isso que tens andado capionga? Ah! corao de me adivinha.

- Era ...

- Pois foi muito feia ao desconfiar dele.

- A gente no suspeita por querer.

- Quando se quer de verdade, no h suspeita que entre no corao. Eu nunca maldei do defunto teu pai, quando ele passava meses ausente, comprando garrotes no Piau. S pensava que poderia apanhar molstias, morrer sem confisso e em no estar eu a seu lado para tratar dele.

- Era seu marido. Alexandre no  nada meu. Ningum me tira da cabea que, agora, limpo de pena e culpa e por ser bom, caridoso e bonito homem, todas as mulheres querem bem a ele. Homem que sofre , comparando mal, como Jesus Cristo. As mulheres andam atrs dele.

Houve, ento, longa pausa. Nos pequeninos olhos parados da velha, desanimados, demorava uma funda impresso de surpresa, com um brilho gasto de mgoa.

- Alm disso  continuou Luzia, com um ligeiro movimento, dos ombros  Elas tm o mesmo direito que eu. Mas no me conformo... Pode mais do que a minha vontade essa suspeita, que me pe o corao escuro e mau... Sabe, mezinha, em que estou pensando agora?... Um horror, que at tenho vergonha de dizer... Antes uma boa morte que descobrir a outra pessoa o que me passa pela mente... Olhe...

E sussurrou, com voz soturna, como um sopro de cansao, ao ouvido da velha:

- Imagino que, neste momento ele est com Teresinha...

- Credo! filha!

-  um horror, no ?... Parece que estou vendo eles juntos, alegres e satisfeitos. Ele todo agradecimentos; ela cheia de si... Sim, porque se est solto a ela o deve... Ela tem direito  recompensa.  justo que no se lembrem de mim...

- Que maldade, filha de minha alma...

- Sim, como no hei de ser m, de ter ms entranhas, se uma cobra venenosa me morde o corao! E sou culpada de tudo por ser desconfiada... soberba... maldita... Luizia-Homem  o que eu sou... uma bruta desalmada...

- Que coisa sem p nem cabea? Estou estranhando isso... Sossega... Teresinha, to boa para ns, no tarda a, quando a lua nascer.

- Veja aquele claro... J est fora.

- Ela foi cheia tresantonte. Aquilo  fogo no pasto.

Havia, com efeito, no horizonte, um claro de incndio, onde surgia, lentamente, um enorme disco.

- Qual  exclamou Luzia, com uns gestos violentos, e um amargo tom de sarcasmo  Aquela mesma? Onde est, est muito bem... gozando o que muito lhe custou ganhar... No se me dava de apostar...

- No faas juizo  toa  disse a velha, com energia  maldando da outra...

- No maldo por querer.  uma coisa que me vem  cabea e que me tira o juizo... Ah! Eu no era assim. No era. Em nada pensava, nada tinha, que me afligisse ou me tirasse noites de sono. No fora o seu puxado, vivia sossegada, pensando somente no dia d'amanh, em ganhar a vida. Era feliz, consolada com a minha sorte.

- No eras, no. Nunca te vi assim... So repiquetes de mau gnio que passam depressa. Agora, se no te ds bem aqui, se te sentes mal, iremos, como querias, para as praias. Raulino ir conosco...

- Para a praia! No vou mais, no... posso. Hei de ficar aqui at quando Deus permitir... At... morrer. Quem sabe?

- A est! No te entendo. H bocadinho, falavas nessa viagem que no te saa da cabea... Agora...

- Pensei melhor.

- Qual, filha! Andas to atarantada que j no pensas coisa com coisa.

-  mesmo, mezinha. At parece que estou lesa. Ah! se eu pudesse esquecer tudo como se fora um sonho, desses que a gente d graas a Deus e cria alma nova, quando se acabam... ou se desperta...

- Tu ests, mas  muito alterada. Vem dormir, anda, que Teresinha rebenta por a sem demora, e as duas vo levar a noite grazinando como duas amigas.

A velha Josefa benzeu-se ao terminar o tero, interrompido pelo dilogo com a filha. Ergueu-se apoiada ao portal, e gemendo, tanto lhe custava distender as articulaes emperradas; e, arrastando as grandes chinelas, dirigiu-se, claudicante, para a rede. O quarto estava iluminado pela candeia mortia, crepitando na cantoneira, asseado, muito arrumado; as malas encostadas  parede, duas redes armadas nos ngulos, e, no cho, a esteira de Teresinha, a pele de carneiro, um simples tapete para se no resfriarem os ps da enferma. De uma corda, pendiam vrias peas de roupa.

- Deixa-me  disse a velha, arfando de fadiga e afastando a filha que pretendia ajud-la.  Deixa-me andar sozinha para experimentar as minhas foras. Se me acostumo a estar sentada e a andar pelas mos dos outros, fico mesmo enferrujada de todo... Ah! Se Nossa Senhora me tirasse esta canseira, podia eu dizer que estava sarada... Isto vai devagarinho... Molstia  como preaca de frecha: entra no corpo de repente, e custa a sair.

- Tenho f  disse Luzia, mais calma e com meiguice, abrindo a rede para que ela se sentasse  isto vai passar.

Quem a viu e quem a v, nota logo grande melhora.

- Tenho esperana de rolar mais alguns dias por este mundo, e s peo a Deus que me no faa sofrer, quando chegar a minha hora. Bem sei que no hei de ficar para semente... Tu, que s o meu sangue, tomars o meu lugar, sendo o que eu fui, uma mulher de bem, trabalhadeira e temente a Deus.

- No fale nisso.

- Como no fala!, se no me sai da cabea o pensamento de morrer, deixando-te sozinha, sem encosto, sem proteo.

- Quando tal acontecesse, quando Deus me castigasse com essa desgraa, eu teria coragem para suport-la. O trabalho no mete medo a Luzia-Homem.

- Bate na boca, filha. Luzia, mulher e bem mulher, fraca como as outras,  o que tu s.

Ela sentia a verdade das palavras da me. A ansiedade, as dvidas, as suspeitas cruis em tumulto absurdo e monstruoso comprovavam a sua debilidade de mulher amorosa. Compreendia, ento, a perversidade de Gabrina, vingando-se de Alexandre por meio da declarao falsa; compreendia por que havia mulheres criminosas, que se rebaixavam satisfeitas, que se depravavam despudoradas, arrojadas, por impulsos de paixo irresistivel, fora da senda do dever, olvdando honra, famlia e o decoro, que  o esmalte das almas boas para tombarem, desfigurados o coipo e a alma, at  lama do enxurro humano, como nojentos dejetos do vicio.

Havia, entre essas mseras, culpadas por depravao moral, desviadas pela educao, contaminadas pelo contgio do exemplo. A maioria, porm, era de inconscientes, sem imputao, dignas de perdo como pensava ela, que no podia expungir do corao os maus instintos, que o dominavam e ali grelavam, como ervas daninhas,  sombra propcia da suspeita e do despeito. E Luzia que padecera pela priso do homem amado, que sentira nas prprias carnes o estigma com que o pretendiam marcar, que seria capaz de fazer por ele o extremo sacrifcio da prpria vida, seria capaz de estrangul-lo, de arrancar-lhe as entranhas, de cevar-se no seu sangue,  simples idia de v-lo nos braos de outra mulher.

- Eu morreria descansada  disse a me, suspirando  se te deixasse casada com Alexandre, que seria incapaz de te dar m vida.

- Casada!  retrucou a filha, arrancada, de sbito, s tristes idias.  Quem querer se casar comigo?...

- No digas semelhante coisa, tamanhas asneiras... A mim, me palpita o corao que amanh ters vergonha dessas suspeitas, porque Alexandre vir e tudo passar, como se nada houvesse acontecido. Tu, ento, arrependida, reconhecers que, quando moa est influda para casar, no tem o juizo assente; v tudo pelo avesso, de pernas para o ar, e fica mouca aos conselhos. No meu tempo, as raparigas no pensavam nisso; quando davam f estavam na igreja com o moo escolhido pelos pais. Hoje, est tudo mudado... Meninas. que ainda cheiram a cueiros, j tm opinio e caprichos como qualquer mulher feita. Deus louvado, sempre foste muito bem procedida e obediente. Veio-te, agora, essa influncia de querer bem... J no veio sem tempo... j tardava e no tem nada de mal; mas,  preciso ter juizo para no desmanchar o que esta to bem principiado. V bem o que te digo; deixa-te de histrias e teimas. Se procurares com uma candeia, no encontrars outro to do meu gosto.

- E se ele no me falar mais em casamento?

- Pacincia!  porque no tinha de ser.

- E eu?...

- Tu!... Pois no s mulher forte, capaz de viver sozinha, sem ser pesada a ningum, trabalhando para comer?... No s Luzia-Homem?...

- Eu no sou nada  murmurou Luzia, abraando a me e escondendo-a quase na onda de cabelos revoltos.  Sou uma infeliz, que est sendo castigada, sou uma doida, que no sabe o que faz... Perdoe-me, mezinha da minha alma...

- Ai que me tiras o flego  gemeu a velha, sufocada pela veemente carcia da filha.  No reparas que s tenho de gente a figura com a pele sobre os ossos? Deixa estar que tudo h de sair bem, se Deus no mandar o contrrio... D-me outra colher de remdio. Quero ver se pego no sono. Fecha a porta e vem dormir.

- E Teresinha?

- Deixa estar que ela no se perde. Sabe de olhos fechados o caminho da casa.

- Tem razo, mezinha. O melhor  esperar sossegada o que tem de acontecer.

Depois de dar o remdio  me e acomod-la para passar a noite, Luzia saiu ao terreiro a passear em roda da casa, a contemplar a lua, que ascendia em pleno esplendor. Interrogou o cu e a terra, silenciosos, impassveis; espreitou em todas as direes, at aonde a sua vista alcanava, e prescrutou os mais leves rumores que a virao lhe trazia em rajadas violentas. Nada correspondia  sua ansiedade. A solido lhe recusava alento s dbeis esperanas e conforto s mgoas, que os conselhos maternais no conseguiram aplacar de todo. Entretanto, a confidncia  me idolatrada, fora um transbordamento salutar, e ela experimentava a sensao de desafogo, como se o corao, libertado de cruciante aperto, pudesse pulsar sem se, contentar em estreito mbito. Ligeiro torpor lhe invadia os membros que ela tentava em vo estimular, distendendo-os em contores preguiosas a lhe desenharem, com harmonioso relevo, as linhas vigorosas, exuberantes de graa.

- No teimes em esperar, filha  observou a me  at fora de horas.  Anda, e fecha bem a porta. Eu no descanso enquanto estiveres a a rondar de um lado para outro, como quem est rnalucando.

- Amanh  domingo, mezinha. O luar est to bonito que a gente tem pena de se deitar. Parece dia...

- Que horas so?

- O Setestrelo j est alto e as Trs Marias esto descambando. Ainda agorinha tive um susto! Correu uma zelao, que parecia uma tocha.

- Deus a guie.  sinal de desgraa. Anda, anda, vem para dentro, que a friagem te pode fazer mal.

Luzia obedeceu. Depois de fechar a porta, tomou a bno  me; e, desatando os cordes da saia branca, estirou-se, extenuada, na esteira, onde Teresinha dormira tantas noites. E, todavia, mole de fadiga, no pde conciliar, calmamente, o sono. Torcia-se, mudava de postura, como se o seu corpo robusto excedesse ao molde ali deixado pela amiga ausente, cuja recordao, engastada em seu crebro, era o carvo da suspeita, comburente, agora, em brasa de remorso.

Ela imitava as desenvolturas da outra, da criatura dedicada, que renunciara a todos os seus hbitos para participar, com a placidez de uma conscincia satisfeita, da pobreza e das tristezas daquele msero lar. Julgava ouvir passos cautelosos, abafados pelo rudo das folhas agitadas pelo vento, e Teresinha e Alexandre lhe apareciam como espectros, exprobando-lhe a injusta desconfiana, e exigindo reparao. Acusada por si mesma, Luzia no se podia defender; a culpa era demasiado evidente. Abandonada pelas energias musculares, que eram o seu estigma, oberada de vergonha, ela suplicou, em atrio, lhe perdoassem; e, como se um filtro purificador lhe lavasse a alma da mcula do cruel pecado, adormeceu no delicioso enlevo de um sonho de ventura inefvel.





XXVI



No acabara Luzia de pentear os cabelos que, depois de vendidos eram tratados com maior carinho, quando chegou Raulino, conduzindo a troixa de mantimentos e uma grande cabaa d'gua.

- Muito bom dia, sa Luzia!

- Bom dia, seu Raulino. Voc vem hoje carregado.

-  que aumentei a troixa com a cabaa e contrapeso que lhe mandaram.

- Para mim?

- Sinharsim. Meti os ps da rede quando vinham quebrando as barras e maginei que vosmecs estariam carecidas d'gua. Como estou morando, agora, na cadeia nova, para botar sentido nas obras, de noite, enchi a cabaa na jarra e fui  cidade receber as raes porque as do armazm da Comisso so melhores e medidas com lavagem. Foi uma lembrana mandada por Deus, porque, chegando l, topei na porta o Alexandre...

- Alexandre!

- Em carne e osso. Depois de dar-lhe mo de amigo, pedi-lhe que me aviasse depressa para poder eu chegar aqui cedinho. Ele, meio banzeiro, perguntou por vosmec, pela tia Zefinha e pelos outros conhecidos. Coitado! Est branco, com a cara encerada, que mete d ver, to desfeita uma criatura, que vendia sade...

- Est doente?

- Como quem passou obra de um ms enterrado naquela priso porca e fedorenta que mais parece um chiqueiro que morada de cristos.

-  horrvel!

- Mas a demora foi dar notcias de vosmec, ficou ligeiro e alegre que no parecia o mesmo. Mediu... Mediu  um modo de falar: fez a olho, as raes. Era o que a mo dava. Ele por uma banda e eu pela outra. E no fomos mais longe porque j era uma dor de conscincia. O homem quer bem a vosmecs mesmo de verdade. Fez perguntas e reperguntas; quis saber do puxado da tia Zefinha; se sa Luzia ainda estava na obra, se passou l trabalhando o dia de ontem, um horror de coisas que fui respondendo s para dar-lhe gosto. Agora est como quer. H males que vm para bem. Melhorou no emprego e recebeu uma dinheirama de coiro e cabelo.

Luzia desembrulhava os gneros e os arrumava, aparentando indiferena  loquacidade de Raulino, que falava pelos cotovelos. Os sertanejos ladinos so, em geral, admirveis narradores, de imaginao acesa, fecundos em descrio, cujos menores incidentes so debuxados com vigor.

- Que  isto?  perguntou Luzia, indicando um guardanapo de linho amarrado nas quatro pontas.

- Isto  pes  respondeu Raulino.  Quando eu vinha vindo, a dona do Promotor chamou-me e deu-me essa frouxinha, dizendo por aqui assim: "Leve isto para Luzia, seu Raulino, diga-lhe que estou muito agradecida pelo trabalho da roupa para os pobres, uma perfeio de costura. Diga-lhe mais que aparea: desejo muito ver os meus bonitos cabelos."

Luzia baixou os olhos, e estremeceu ligeiramente.

- Ora, - continuou o sertanejo  eu no entendi bem o que a dona queria dizer, mas fiquei malinando que tambm gosta, como todo o mundo, dessa sua cabeleira, comparando mal, parecida com as das mes-d'guas encantadas, lavando-se na lagoa em noite de luar, com os cabelos de vara e meia boiando e embaraando-se nos aguaps cheirosos, como eu vi com estes olhos, que a terra fria h de comer, de uma feita, que eu estava de tocaia, esperando patarres brabos. A noite estava clara que nem dia. Cansado de esperar e resfriado pela fresca do sereno, passei por uma modorra.

Quando dei f, ouvi o barulho de um corpo espalhando a gua; levei a lazarina  cara, e, pensando que eram os patos, ia papocar fogo. Divulguei, ento, o corpo de uma mulher, luzindo molhado e nadando como uma marreca. Ainda fico frio quando me lembro dessa visagem. Os meus cabelos se arrepiam como espinho de cuandu. Quis gritar, mas tinha um n na garganta. Passou-me uma nvoa pelos olhos e deixei cair a espingarda. Quando dei acordo de mim, afirmei bem a vista para ver o que era. A lagoa estava serena como um espelho. Tudo quieto. S ouvia sapos ateimando: foi, no foi, e os cururus roncando. No quis mais saber de histrias; apanhei a arma e meti o p na carreira. S tomei flego quando avistei a casa. Sa Luzia a modos que no me acredita?

Luzia sorriu, com branda ironia.

- Pois fique sabendo  continuou Raulino, com muita convico  que no foi s a mim que ela apareceu. O Isidro, rapaz destemido e caador de fama, tambm viu a me-d'gua de uma feita que estava tarrafeando curimats. Por sinal que no apanhou uma triste piaba naquela lagoa, que tinha mais peixe do que gua. Voltou da pescaria com as mos abanando, capiongo, meio leso e contou o caso  noiva, moa (falando com o devido respeito) bonita como uma imagem. Ela ficou desconfiada e quis, por fina fora, ir, fora de horas,  lagoa. O rapaz fez todo o possvel para tirar-lhe da cabea semelhante doidice; disse-lhe que era um perigo porque as mes-d'gua so ciumentas das moas que esto para casar, que houvera muita desgraa por causa disso; pediu, rogou por tudo quanto havia de mais sagrado. Ela prometeu no ir, mas cada vez mais desconfiada teimou, porque mulher, quando malda, no chega ao moiro com duas razes. Fugiu de casa quando estavam todos recolhidos e foi  lagoa. No lhe conto nada. Ao amanhecer, deram por falta da moa. Foi um Deus-nos-acuda. Ningum dava notcias dela. O noivo ficou como um doido; mas, lembrando-se da histria da me-d'gua, ps-se a rastejar e encontrou o rasto da chinelinha da infeliz, bem marcado no caminho orvalhado.

Acompanhou-o com outras pessoas, tambm rastejadoras, e foram bater na beira d'gua. Estavam maginando no que teria acontecido, quando ouviram uma risada de mangao. Pensaram que era a moa escondida para zombar deles. Bateram o mato em redor, o pacoval, cheio de ninhos de azules e papa-arroz. Nada. Os passarinhos fugiam espavoridos, e um bando de garas, alvas como capuchos de algodo, voava remando no ar. Os homens olharam uns para os outros sem saberem o que fizessem. O Isidro, mais morto do que vivo, numa aflio de meter d, encarou n'gua como se quisesse ver-lhe o fundo. Quem dera a risada? Aonde fora a moa parar? Onde se escondera? O rasto ali estava provando que ela no voltara para trs...

- Mas...  verdade isso?  inquiriu Luzia, com terror.

- Acredite, como se estivesse vendo. Eu no sou homem de inventar, nem de dizer uma coisa por outra. Oua o resto. Um vaqueiro velho foi buscar uma cuia, pregou dentro uma vela acesa e largou-a em cima d'gua. A cuia vagou  toa, de um lado para outro, conforme assoprava o vento; foi, depois, seguindo para o centro, at que ficou parada, obra de cinquenta braas de distncia. Nisto, o Isidro, num abrir e fechar d'olhos, tirou o gibo de coiro e largou o brao n'gua. Chegando ao lugar, onde a cuia estava parada, mergulhou, e... Que horror!... Nem gosto de me lembrar... Num instantinho, voltou  flor d'gua; tomou flego e mergulhou outra vez... Quando deram f, ele surgiu com um corpo nos braos e nadou para a terra como um desesperado. Vinha como um bicho feroz, arquejando, enlameado, coberto de ervas e raizes encharcadas. Os outros foram ao seu encontro para ajud-lo. Trazia a noiva morta. Os olhos azuis da defunta estavam esbugalhados e vidrados. A boca meia aberta, parecia querer falar. Tinha as mos juntas sobre o peito, aqui, l nela, e amarradas em n cego, com as duas tranas de cabelos loiros, compridos como os seus, sa Luzia...

- Que desgraa! Credo! Morreu de cimes!...

- Que cimes! Foi afogada pela me-d'gua. A malvada amarrou-lhe as mos para que a pobre se no pudesse salvar, pois nadava como uma piaba. Era dela a risada que ouviram; ria da sua obra maldita... Depois dessa tragdia, os comboieiros, que navegam para aquelas bandas e passam de noite pela beira da lagoa, ouviram arrepiados	de medo, aquela risada medonha.

- Isso  buso!  disse do quarto a velha, atenta  histria.

- Ah! tia Zefa, vosmec estava acordada?

- Desde madrugada.

- Buso ou no  ponderou Raulino  o caso  verdadeiro. Quando a gente no pode explicar as coisas diz que  buso; mas o fato  que h no oco deste mundo velho muita coisa, que nem doutores, nem padres conhecem. E, com esta, vou andando.

Habituada s histrias extraordinrias do imaginoso sertanejo, Luzia experimentou, todavia, forte abalo, ouvindo a reproduo da lenda, sempre viva nas recordaes da infncia, dura quadra despercebida, de gozos facilmente olvidados, porque  bem verdade que s o sofrimento tem o poder de cavar na memria sulcos indelveis.  por isso que h estranho encanto, espcie de amargura e de saudade em exumar tristezas, em reviver lances de desgraa, como narrar crises de molstia, lutas entre a vida e a morte, os dissabores, as desiluses, as mgoas suportadas com resignao, com heroismo, que se nos afiguram obstculos transpostos, vitrias alcanados contra a fatalidade, os cruis nimigos ocultos, intangveis,  maneira das tiranias onipotentes das foras misteriosas que engendram, nas terrveis profundezas do infinito, as calamidades, os cataclismos e os assombrosos fenmenos que assinalam o eterno combate entre o que destri e o que produz.

- Espere pelo caf, seu Raulino  disse Luzia.

- Estava quase requerendo  tornou o sertanejo. Por essa bebida, sou como macaco por banana. No tempo da fartura, eu era capaz	de tomar uma canada de caf por dia.

- No viu, por ai, Teresinha?

- Nharno, pensei que ela estava aqui.

- Esperei-a toda a noite.

- Deixe estar que aquela no se perde com duas razes. 

- Sempre estou com cuidado nela.

- O Alexandre disse-me que ela esteve com ele desde que foi solto at  tardinha, quando o deixou com promessa de se encontrarem aqui hoje.

- Aqui!  exclamou Luzia, alvoroada.

- Sinharsim. Pelo menos, foi o que ouvi da prpria boca dele  afirmou Raulino, tirando uma grande pitada de caco do corrimboque de chifre de carneiro.

-  para dar que pensar  observou a velha.

- O mais certo  considerou Raulino   ter ela ficado no quarto da Gangorra, pensando, talvez, que, preso Crapina, vosmecs no precisassem mais de companhia. Poderiam dormir descansadas sem receio de alguma traio do excomungado.

- Se soubesse onde era a casa, iria busc-la, tanta falta me faz... Coitada! Aquilo s  ruim para si.

-  pena, sa Luzia, porque ela teve bons princpios e foi bem afamilhada. Mas, caiu-lhe em cima a desgraa. Eu tambm tive a mesma sorte. Meus avs eram gente de considerao, bem arranjada; e, como me v, poderia comer em pratos de ouro, se no... Para que lembrar tristezas que no pagam dvidas? Tive currais cheios de vacas de leite; apanhava meus oitenta bezerros por ano; possua bons cavalos de sela, e o demnio, em figura de mulher, levou tudo. Hoje, ando a trabalhar para no morrer de fome, com vergonha de me dar a conhecer  parentalha que tenho aqui mesmo em Sobral. Fui nascido e criado na ribeira do Jaguaribe. Ainda  do meu sangue essa gente de Xerez. Somos todos Furnas...

- Que feio nome?

-  meio esquisito, mas  de gente muito grada, de muitas posses e honrarias, espalhada por estes sertes numa parentalha, que nunca mais se acaba, como a gente dos Olhos-d'Agua do Paj, os Rochas e os Cavalcantes...

Agora, vou mesmo que j tocou a primeira vez da missa do dia.

- Se mezinha tivesse com quem ficar, iria tambm  missa.

- No seja essa a dvida, filha  observou a enferma.  Basta que me deixes ao alcance da mo um caneca d'gua.

- E vou mesmo. H muito que no piso na igreja.  mesmo um pecado...

Raulino despediu-se, sorvendo, com estrpito, outra pitada, e partiu no seu passo de andarilho, bamboleando num chouto mole, mido, o corpo erecto e musculoso.

Preparada a refeio da me, Luzia ataviou-se, com o seu melhor vestido, um roupo de cassa lisa, que, amarrado  cintura, lhe desenhava as formas graciosas, e saiu na direo da cidade.

No era a missa um pretexto para sair; mas, ao profundo sentimento religioso se aliava a casquilhice inocente de exibir os belos vestidos, as ltimas fantasias da arte decorativa da mulher, importadas do Recife, uns trajes vaporosos de renda e cambraia, feitos com requintes convencidos de elegncia, com raro gosto, pelas adorveis criaturas que os vestiam. Nada havia de censurvel em que as moas da cidade, metidas durante toda a semana em casa, ocupadas ern trabalhos sedentrios de renda e labirinto, se desforrassem desse retraimento nas festas religiosas, celebradas, sempre, com extraordinrio esplendor. Imitando  gente rica, Luzia, alm do intuito de cumprir um piedoso dever, nutria a esperana de encontrar Teresinfia ou Alexandre, obter notcias deles, ou, pelo menos, encurtar a distncia que os separava.

Ao passar pela rua do Menino Deus, ela esmorceu a marcha; aproximou-se do armazm da Comisso e olhou atentamente para dentro, erguendo-se nas pontas dos ps, para ver, atravs da multido de indigentes, aglomerados  porta, a criatura querida.

Quando avistou a cadeia, cujas grades negras estavam cheias de presos amaciados e lvidos, sentiu-se a moca cortada de terror. Crapina estava ali dentro, como fera cativa, devorando-a, talvez, naquele momento, com os olhos injetados por uma congesto de cobia e raiva impotente.

- Moa, ! moa!  disse um menino que se aproximou dela correndo.  Ali tem um preso que quer falar com vosmec.

Luzia repeliu, com um gesto enrgico de negao, o esperto pequeno, que insistia no chamado, e apressou o passo para distanciar-se da sinistra priso, onde uma voz rouca e vibrante, como um rugido, a voz de Crapina, bradava suplicante, e amaldioava:

- Luzia, Luzia!... Meu corao, meu amor da minha alma, tem pena de mim! Perdoa-me pelo amor de Deus! Vem!  um instantinho... No te farei mal. Vem! S duas palavras!... Ah! No me ouves; no queres saber de mim!... Mulher do diabo!... Deixa estar, safada, amaldioada, que no ficarei preso toda a vida... Nem que tu vs para o inferno...

O soldado gritava, estorcia-se delirante, agarrado s enormes barras de ferro do porto, brandindo-as, abalando-as com intil esforo para quebr-las, arranc-las dos gonzos chumbados ao portal de granito.

Perseguida pelo eco dos brados de insnia desesperada, ela penetrou no templo, como num abrigo inexpugnvel, defeso  maldade humana,  curiosidade vexatria daquela gente que, l fora, a considerava criatura impassvel de corao, e se apiedava do prisioneiro, cuja dor feroz lembrava a simpatia dos grandes infortnios.

A imensa nave da matriz desbordava de fiis, amontoados, em confusa massa inquieta, alumiada pelos jorros de crua luz, que se projetavam das arcadas laterais, recentemente rasgadas nas formidveis paredes de pedra e cal, sobre os mantos alvssimos das mulheres ajoelhadas. No fundo resplendia a capela-mor, o tabernculo, esculpido pelo cinzel do mestre Joo Francisco, o entalhador, com duas sries de elegantes colunas corntiasl, enleadas de parreira, a vinha do Senhor, e rematadas de folhas de acanto, todas brancas, de figos doirados e sustendo a arquitrave e a curva do arco que emoldurava a grande tela de Bindsay, a Assuno de Nossa Senhora. Mais abaixo, dominando a banquete de prata macia e os bustos dos Apstolos, emergia, dentre palmas, dentre flores, a imagem da Virgem da Conceio, a padroeira da cidade, coroada de oiro, de palrarias, quase escondida no amplo manto de veludo azul, marchetado de estrelas, bordado com carinho pelas rfs da Casa de Caridade. As chamas dos crios esmoreciam na suntuosa claridade da manh, como plidas placas, dissolvendo-se em tnues fios de fumo, a sumirem-se no ambiente saturado de incenso e de um odor agro de cera derretida.

Luzia, sobressaltada pela imprecao minaz do soldado, cujas palavras brutais lhe contundiam o crebro, pensara encontrar na casa de Deus, aos ps da Me Santssima, refgio e conforto  sua alma atribulada. Mas, ali mesmo a perseguia a protrvia da multido. De p, hesitante na escolha do lugar para ajoelhar-se, era alvo de olhares, que a lapidavam, trocados entre as mulheres, que desembuchavam a malcia atroz dos ruins sarcasmos. Uma crispao de surpresa, de curiosidade assanhada agitou a onda viva que a cercava. Raparigas e meninas, matronas e velhas, fitaram-na com insistncia, imobilizadas de pasmo, e de boca em boca perpassou ininterrupto murmrio, cochichado de todos os lados:

-  a Luzia!... A Luzia-Homem!...

Prostrada  meia-sombra de um confessionrio de jacarand, salientemente adornado de arabeseos estranhos, absorta em sincera prece, ela ouviu a missa, celebrada pelo vigrio Vicente Jorge de Sousa, cuja voz sonora e forte, recitando as oraes do ritual, dominava os pigarros, as tosses incontinentes e o choro clssico das crianas que aguardavam o batismo, ocultas sob os lenis das mes, que ali mesmo, as amamentavam. Rezou pela me entrevada, por Teresinha; rendeu graas a Deus pela libertao de Alexandre; e quando se ergueu a Hstia, ao rudo de peitos percutidos, do som argentino da campainha, tangida pelo sacristo, Jos Fialho, um velho doce e respeitvel, pediu ao Deus sofredor e resignado, ao Deus de amor e misericrdia, como Jesus pedira ao pai celestial perdo para os algozes que o flagelaram e o crucificaram, se apiedasse do infeliz soldado, vtima da insnia de uma paixo brutal. E, como se esse generoso impulso rompesse os diques  inefvel caudal de consolao, sentiu-se alvoroada de suavssima alegria, desse gozo incomparvel da alma purificado, expungida das sombras do remorso. Seus olhos, fitos no doce semblante da imagem da Virgem, ,e aljofraram de pranto, lgrimas de reconhecimento, porque Deus se compadecera de Luzia-Honlem, ouvira a sua prece.

As ltimas palavras do sacerdote, recitando, de cor, o evangelho de So Joo, os fiis se ergueram com sussurro, espraiaram-se pelo patamar, sob um sol intenso, e se dispersaram em todas as direes, descendo pelo suave declive do cmulo, onde se ergue o templo, acrpole da cidade.

No trio, do lado da pia d'gua benta, bela concha de lioz, erecta no centro da pequena capela consagrada a So Joo Batista, dezenas de mes piedosas esperavam o batismo dos filhinhos, crianas sadias, ndias, sorridentes, espantadas, pequeninos seres informes, moribundos, esquelticos e arroxeados, mal podendo emitir lamentoso vagido. Do outro lado, reunidos em grupos, estavam os nubentes, rapazes e moas, de olhos baixos, confusos, vexados como delinqentes de amores criminosos, vindo pedir absolvio ao sacramento.

Luzia permaneceu, no recinto sagrado, ajoelhada, at que se esvaziou a imensa nave; e, quando se dispunha a sair, foi atrada pelo choro das crianas e pelo doloroso contraste das mes venturosas e das mes aflitas: umas, radiantes de amor; outras, tristes. acabrunhadas de mgoa, animando, desenganadas, as inocentes vtimas, para as quais a gua lustral seria a extrema-uno.

- Se lhe fosse dado  pensava ela  casar como aquelas ditosas moas, realizando o supremo anelo da me doente; se o seu amor fosse, como o daquelas mes, matronas benemritas, sorrindo aos filhos vigorosos, abenoado por Deus, experimentarei o inefvel jbilo de sentir-se mulher, humanizada, completa e fecunda. No temeria que os seus filhos definhassem: defend-los-ia contra as molstias traioeiras e as intempries, inimigas das criaturas tenras, as flores e as crianas. Dos seus seios de Pomona correria perene manancial de vida, que as pequeninas bocas rosadas sorveriam, sfregas. E as suas entranhas virginais latejavam em alvoroo. Havia dentro dela, a insurreio dos grmens da vida sofreados, e um clamor de instintos, entoando o hino de glria  maternidade vitoriosa.

- Vamos aos batizados  disse o vigrio, chegando ao trio, revestido de roquete rendilhado e cingindo estola roxa, de finssimo lavor.  Os noivos no tm pressa, que esperem  acrescentou, atirando por cima dos culos de ouro, um olhar de ironia aos grupos do outro lado.

Ao comear a cerimnia, Luzia se esgueirou e saiu, buscando a casa pelo caminho mais longo e afastado da cadeia, onde Crapina imprecava, ameaador e furioso.

A me se arrastara at  porta do quarto, onde vigiava a panela fumegante, sobre a trempe de pedras, e ouvia Quinotinha ler, muito devagar, e por vezes soletrando, no jornal O Sobralense, a notcia dos episdios da audincia da vspera.

- Tudo isso  inquiriu a velha  est escrito a?

- Est, sim, senhora  respondeu a rapariguinha  Aqui no fim tem um p, que diz: "Alexandre, a vtima da perversa aleivosia do soldado, que, assim, desdoira a farda dos bravos heris do Paraguai, companheiros de jornada gloriosa dos lendrios Sampaio e Tibrcio,  noivo de Luzia-Homem, a extraordinria mulher, que  uma das melhores operrias da construo da penitenciria."

Luzia ouviu o ltimo tpico, e prorrompeu indignada:

- 0 qu? Pois falam de mim nas folhas?... Era s o que me faltava.

- Sim  afirmou Quinotinha sorridente  Veja!... 

E as duas repetiram a leitura; a menina transbordante de alegria; ela, confusa, quase no acreditando nos seus olhos, diante dos quais danavam as colunas e letras do jornal, mal impresso na tipografia Miragaia, a primeira estabelecida em Sobral.

- S vim aqui mostrar isto a vosmecs. Agora, vou indo que sa quase fugida  disse Quinotinha, partindo a correr.

- Vai, anda, levadinha  murmurou a velha sorrindo.  Essa menina  uma capeta. Sabe ler letra redonda! Vejam s!... Agora que chegaste, deixa-me descansar um pouco na rede, enquanto me preparas um caldo.

Luzia conduziu a me, e voltou a cuidar da cozinha. Atordoada ainda pela leitura do jornal, ficou algum tempo pensativa, percebendo, ento, por que toda a gente a contemplava no trajeto para a igreja, por que tanto se arrebatava Crapina, e os cochichos das mulheres durante a missa. Era uma vergonha estar na folha com aquele horrvel nome  Luzia-Homem, tanto se lhe agarrara o cruel estigma. Ao emergir desse cismar, olhou, de soslaio, para o caminho, e, divisando um vulto de homem que se aproximava devagar, correu para o quarto com a tigela de caldo para a me.

Era Alexandre que se aproximava, a passo indeciso e lento. 

- ! da casa!

-  voz conhecida  observou a velha.

- ... ...  balbuciou Luzia comovida.

- ! de fora! Quem ?  respondeu a enfe,rma, falando com esforo.

- Sou eu... tia Zefa.

- Eu quem?

- O Alexandre.

- Ah! meu filho! No te dizia, Luzia?... Vai ter com ele.

Alexandre, fora do alpendre, raspava com a unha a casca seca de um dos esteios de pau branco. Deparando-se-lhe a moa, parada, indecisa,  porta do quarto, avanou para ela e a saudou com ligeiro sorriso.

- Adeus, sa Luzia.

- Adeus, seu Alexandre.

- As duas mos geladas, hirtas, mos de autmatos, apenas se tocaram.

- Como est?  perguntou Luzia, de olhos baixos.

- Eu! Melhor de ontem para hoje, como quem saiu da priso.

-  horrvel!...

- Nem pode fazer idia do que ...

- Abanque-se...

- Estou bem. A demora  pouca.Vinha saber como est tia Zefa e vosmec.

- Boas, graas a Deus.

Houve pausa cruciante de enleio e vexame para ambos. Muito plidos, muito comovidos, no sabiam mais que dizer. Luzia, por fim, rompeu o silncio:

- O senhor viu por a Teresinha?

- Esteve, ontem, comigo,  tardinha. Prometeu estar aqui hoje...

- No veio desde ontem.

-  esquisito.

- . No acha? O senhor no quer falar com mezinha? Pode entrar.

Alexandre entrou no quarto, e Luzia ficou s no alpendre, inteiriada, imvel, contemplando o cu, em xtase. E assim ouviu as ruidosas manifestaes da alegria da me, as perguntas precipitadas que ela dirigia a Alexandre, as palavras de consolao, afetuosas, sinceras, embebidas de maternal carinho.

Venha sempre ver a gente  suplicava a velha, sorrindo.

Virei, sim. Virei amanh, se Deus quiser. S tenho medo de importunar  respondeu Alexandre, com ligeiro tom de mgoa.

Sentindo Alexandre a seu lado, quando ele saiu do quarto, Luzia, arrancada de sbito  meditao, fez um gesto de susto. A atitude do moo era a de quem hesita em dizer alguma coisa, de abrir-lhe o corao, sufocado de ternura. Vencendo, por fim, o enleio, ele tirou do bolso os cravos murchos, e, como criana medrosa recitando um recado, murmurou:

- Aqui esto estas flores, que a senhora esqueceu no baldrame da grade da cadeia... Adeus... At outra vez...

- At...  suspirou ela arquejante, guardando as flores no seio, e apertando-as contra o peito, em frentico amplexo, enquanto ele lhe voltava as costas, e partia.

- Seu Alexandre!...

O moo estacou ansioso, no ousando encarar nela.

- Quero pedir-lhe uma coisa  disse a moa, caminhando para ele, vagarosa e humilhada.  No repare... no que tenho feito... Sou m de nascena... Minha sorte  fazer os outros padecerem... Tenha d de mim... Peo... Peo-lhe que me perdoe...

- Luzia!  exclamou ele, numa exploso de ternura, estendendo-lhe os braos para ampar-la, porque ela vacilava.

- Perdoe-me  repetiu a msera, vencida, com voz angustiada, quase  surdina, estacando diante de Alexandre, que sorria.





XXVI



Dias depois, soube Luzia do paradeiro de Teresinha.

Raulino contou-lhe como a encontrara, sucumbida, em amarga tristeza, a se penitenciar no servio domstico de uma famlia desconhecida.

-  possvel  exclamou Luzia  que aquela pobre esteja vivendo de aluguel? Por que nos abandonou sem motivo?

- Eu no sei dizer  observou Raulino.  O que sei  que ela est servindo a uns retirantes ricos, aboletados na casa da fortaleza. No me disse porqu. Ali h coisa. Se vosmec se encontrar com ela, no a conhece.

- Coitadinha!

- No  mais aquela mulherzinha espevitada e alegre. No fala quase. A modos que lhe botaram mau olhado!

- Quem sabe se no a intrigaram comigo?

- No duvido. H gente para tudo. Quando eu lhe disse que amos trabalhar nas obras da ladeira da Mata-fresca, ela ficou calada, maginando, e disse-me por aqui assim: "A Luzia  feliz; vai sair deste inferno... Eu  que estou condenada por toda a vida." E, como eu lhe inculcasse que devia abandonar aquela gente, os patres, para, vir conosco, abanou a cabea, desanimada que metia pena... Ah! Sa Luzia! Imagine que a pobre faz todo o servio; at trata de um burro velho, pele e osso, sem prstimo para nada.

- Se seu Raulino fosse comigo, iria v-la.

- Ora, ora, ora!...  j. Que no farei eu para servir ao meu anjo	da guarda? Olhe, benefcio no meu coraco pega de galho. Vamos por detrs do cemitrio velho e num instante, estamos l. Pelo caminho continuaram a conversar, Luzia marchava ligeira movendo o corpo com flexes de faceirice, a cabea erecta, e o semblante sereno, rebrilhando ao jbilo de encontrar a amiga. Raulino aligeirava a travessia, contando, com a avidez contumaz do sucesso, as suas maravilhas, as suas histrias.

- Sabe  disse ela, abeirando ao assunto que a preocupava naqueles dias  que vamos morar na ladeira?

- J sei. O Alexandre teimou em deixar o servio da comisso. Eu, no caso dele, no largava o certo pelo duvidoso. Empregado, como est, no arranjar melhor arrumao. Enfim, pode ser que melhore. Na serra, a gente est mais  fresca, tem gua com fartura. 

- E vai para longe desse povaru de pobres, esfomeados que cortam o coraco... No ?

- L isso  verdade. O dout, engenheiro das obras pesque  ingls ou alemo. No sei bem que lngua ele fala. Bota o Alexandre no mesmo emprego que aqui tem, com uma gratificao de trs mil-ris por dia, afora a rao. Quando  a viagem?

- Por estes dias. Talvez, depois d'amanh.

- E eu rente...

- Tambm vai?

- Se estou nomeado feitor!... De mais a mais, j resolvi no largar de mo a gente que me quer bem. Comigo vai uma troa de rapazes de primeira ordem; homens que so mouros no trabalho.

- E eu que tenho pena de deixar aquela casinha, onde curti tantas amarguras!

-  assim mesmo. A gente tem saudade quando abandona o poleiro antigo; mas, ao depois, tendo junto os seus, se conforma depressa, e as saudades voam como folhas secas tangidas por um p de vento.

- Quero ver se Teresinha tambm nos acompanha.

- Ela  meia bandoleiro.

- Mas, tenho certeza de que me quer muito bem.

- No digo o contrrio. Experimente... E... a propsito... Sabe que o Crapina fez, outro dia, na cadeia um rolo danado? Estava como uma fera. Pensavam at que havia perdido o juizo.

Luzia sentiu percorrer-lhe o corpo intensa crispao de terror.

- Mas eu  continuou Raulino  disse logo que aquilo era cachaa.

- Quem sabe!... Talvez no  arriscou Luzia.

Haviam chegado ao renque de casas da Leonor, que terminava na casa mal-assombrada.

- E aqui  disse Raulino, indicando o pardieiro desengonado.  Abeiremos s pedras da fortaleza, Teresinha deve estar nos fundos.

Junto dos rochedos a prumo, havia uma latada de palhas de carnaba, recentemente construido para servir de abrigo ao burro, que ali estava de p, sonolento, espantando, devagar, com aoites da cauda pelada, as moscas que erravam sobre as chagas da sarnelha e das espduas, quase cicatrizadas numas manchas negras, lubrificadas com azeite de carrapato. Mais adiante, algum lavava roupa, com um lnguido bater cadenciado de pano molhado, algumas peas enxombradas, arrumadas, em tulha, sobre um lajedo mido.

- Teresinha!  chamou Luzia.

Cessou o rumor de lavagem, e Luzia insistiu. 

- Teresinha, sou eu, Luzia!...

E, avanando de jacto, deparou-se-lhe a amiga, que se erguera, seminua, com uma saia a tiracolo, molhada, colada ao corpo.

- Que  isto?  exclamou Luzia, passando-lhe o brao nos ombros.

- Nada  suspirou a amiga, baixando os olhos, quase opacos, de infinita tristeza.  Estou pagando as minhas culpas...

- Ingrata! E eu que esperei, que passei noites em claro, pensando em voc.

- Para que afligir os outros com a minha desgraa!

- Que desgraa! Deus teve pena de ns.

E,	com um meigo gesto de ternura, conchegou-lhe a cabea ao seio.

-	Sou amaldioada ...

-	Amaldioada? Que maluquice! E por isso est servindo de negra cativa? Como est voc mudada, magra! Como ficou outra em to poucos dias!...

- Teresa, deixe, minha filha; no te mates tanto  disse, dentro de casa, uma voz carinhosa.

- Quem ?  perguntou Luzia.

- ... ...  balbuciou Teresinha, com os olhos trmulos, rasos de lgrimas  ... minha me...

- Tua me?!

- Sim, ela mesma.

E contou como encontrara a famlia, contou as suas alegrias por se mais no achar s no mundo, desprezada e vilipendiada, alegrias que foram efmeras, desfeitas pela clera do pai que lhe recusara a bno, e a tratava como estranha  famlia. Os carinhos da me, o doce contacto da irmzinha, a suave Maria da Graa, que era um anjo de bondade, mal lhe leniam a rudez fulminante do golpe, que lhe lascara o corao, e o expusera, retalhado,  luz com as suas mculas, como chagas sangrentas, descascados. Desde aquele momento, horrorizada de si mesma, obrigada a baixar os olhos diante dos entes queridos, sabedores do seu grande crime, e evitando o frio olhar paterno, se consagrara inteira  redeno do passado nefando, pelo castigo cruel e merecido.

- Tive mpetos  concluiu ela, aos soluos  de trepar naquelas pedras e atirar-me de l de cabea para baixo, mas... no tive coragem de morrer...

- Deixa-te disso  acudiu Luzia, com ternura  Aqui estou eu para te ajudar, para te pagar o muito que me fizeste, porque se sou feliz, a ti  que devo e a Deus.

Vim atrs de ti. Iremos juntos para a serra, onde vamos trabalhar.

- No posso... E meu pai?

- Teu pai, me, irm iro mais ns. Alexandre encontrar meio de arrumar todos como uma famlia. No  possvel que, depois de vivermos como duas amigas, nos separemos, talvez para sempre.

- Se conseguisse isso, seria um alivio para mim. Pelo menos, deixaramos esta casa maldita, onde no se pode pregar olhos toda a noite. J vivo com o corpo modo; doem-me as cadeiras que, s vezes, no me atrevo a torcer-me; tenho nos ouvidos um besouro a zunir sem parar. Quando consigo passar por uma modorra, me vm sonhos agoniados; sonho que me caem os dentes, o Cazuza me arrasta pelos cabelos para me atirar num despenhadeiro, e acordo em meio da queda. Esta noite senti mos frias que me encalcavam o peito, mos de defunto a me sufocarem, e ouvi uma voz fanhosa a dizer coisas sem p nem cabea. Despertei com o corao a saltar pela goela. Vi, ento, um vulto branco que se desmanchava no ar, e com um gemido surdo e... gritei... Mame, que passa a noite a rezar, correu a ver o que era... Eu estava, como quem perdeu o juzo, apontando para o fundo escuro do quarto... Ah! Luzia! Nem pode imaginar o que tenho sofrido...

- Coitadinha!..

- Hoje de manh, quando mame contou o caso a meu pai, ele respondeu... Que foi que ele disse? Deixa ver se me lembro... Ah!... No se amofine, mulher;  o remorso. Depois, acrescentou com voz mais branda: Veja se arranja uma retirante limpa para certos servios, para que ela no se mate tanto... Dando casa e comida, no falta quem queira trabalhar.

O burro, num acesso de impacincia, orneou.

- Est pedindo milho  observou Teresinha  Este malvado  os meus pecados. Estava quase morto; no se dava nada por ele. Recobrou as foras, comendo da minha mo; e, quanto mais o trato, mais manhoso fica. Parece de propsito para judiar comigo. Se o ponho a andar, empaca; fica como uma pedra; no se mexe. Outro dia ao passar por ele, mordeu-me de furto... E  s comigo que ele implica.

- Tem pacincia, minha negra. O que ests padecendo  bem recompensado pela fortuna de haveres encontrado tua famlia.

Raulino, que estivera  parte, examinando o animal enfermo, com olhares magistrais de conhecedor, aproveitou o ensejo para encartar uma das suas anedotas sobre astcias e manhas de burros.

- Era por volta da era de sessenta. No me lembra bem o ano; s sei que eu era rapazote; pelo tope dos doze. Andava por estes sertes uma comisso de doutores, observando o cu com culos de alcance, muito complicados, tomando medida das cidades e povoaes e apanhando amostras de pedras, de barro, ervas e matos, que servem para meizinhas, borboletas, besouros e outros bichos.

Os maiorais dessa comisso eram homens de saber, Capanema, Gonalves Dias, Gabaglia, um tal de Freire Alemo, e um dout mdico chamado Lagos e outros. Andavam encoirados como ns vaqueiros; davam muita esmola e tiravam, de graa, o retrato da gente, com uma geringona, que parecia arte do demnio. Apontavam para a gente o culo de uma caixinha parecida gaita de foles e a cara da gente, o corpo e a vestimenta saam pintados, escarrados e cuspidos, num vidro esbranquiado como coalhada. Uma tarde, chegaram, ao pr-do-sol,  fazenda do velho. Iam no rumo da gruta do Ubajarra. Aboletaram-se no copiar, derrubando o comboio, que era um estandarte de malas, instrumentos, espingardas, na casa dos passageiros. Depois de jantarem um bom trassalho de carne de vaca gorda que parecia um leito, assada no espeto, algumas lingias e um chibarro aferventado com piro escaldado, armaram as redes nos esteios. Veio a noite, clara como dia, sem uma nuvem no cu, liso como um espelho. Convidava mesmo a gente a dormir na fresca do alpendre. Ali pelas sete horas, disse a eles o velho: "Achava melhor vossas senhorias passarem c para dentro, porque vem a um p d'gua de alagar." Ora, os doutores, que sabiam tudo e adivinhavam pelas estrelas as mudanas de tempo, zombaram do aviso; saram para o terreiro e olharam para o cu, sempre limpo e claro, para verem o que diziam as estrelas. O mais sbio deles, o dout Capanema, disse que o velho estava sonhando com chuva, mania de sertanejos, que no pensam noutra coisa. Teimaram em ficar no alpendre, embora o velho continuasse a assegurar que se arrependeriam. Quando estavam ferrados no sono, ali pelas onze horas, acordaram debaixo d'gua e correram com a rede nas costas, em procura de abrigo dentro de casa, todos admirados uns dos outros, como haviam mangado do velho. De manh, antes de deixarem o rancho, foram agradecer a hospedagem, e um deles perguntou ao velho: "Como  que vossa senhoria percebeu sinais de chuva, que escaparam a ns outros cientficos, envergonhados do quinau de mestre que nos deu?" O velho sorriu, e respondeu: " muito simples. Tenho ali, no cercado, um burro velho que, quando se est formando chuva, rincha de certo modo:  aquela certeza. A chuva vem sem demora. Foi por isso que avisei a vossa senhoria." O tal de Goncalves Dias, pequenino, muito ladino e esperto, comeou a bulir com os outros, dizendo a eles: "Estamos numa terra, onde burros sabem mais que astrnomos." Foi gargalhada geral. A est  concluiu Raulino  de quanto  capaz um burro velho. Ningum se fie em semelhante raa de bicho...

Dispunha-se a contar outras histrias, quando apareceram Clara e Maria da Graa, que j conheciam Luzia, por informaes de Teresinha.

- A Teresa  disse Clara com voz lenta e mega  quer muito bem  senhora e eu j lhe quero tambm muito pelas ausncias que ela lhe fez.

- Esta  a Luzia-Homem?  perguntou a ingnua Maria da Graa  Pois  bonita moa. No tem nada de homens... No , mame?...

-  apelido que lhe puseram, filhinha. No digas mais semelhante palavra.

- No faz mal  observou Luzia, visivelmente enleada   assim que me tratam.

- Perdoe  balbuciou a rapariga  Pensei que era mesmo o seu nome...

E, logo, houve palestra cordial, como se fossem conhecidas de longa data. O projeto da mudana para a Meruoca foi acolhido com entusistica alegria; mas faltava o essencial: o consentimento de Marcos. No ousando a mulher e a filha consult-lo, Raulino e Luzia resolveram procur-lo para saberem a sua opinio.

Marcos estava na sala da frente, sentado na rede branca, enfeitada a ponto de marca, com vistosas ramagens vermelhas e largas varandas franjadas, arrastando na esteira, onde ele deixara, em desalinho, um livro, As Misses Abreviadas marcado com os culos de oiro, o leno de ganga azul e uma caixa de rap de tartaruga, restos da abastana perdida. Com as largas mos descarnadas, eriadas de plos, sustendo a cabea, vergada ao peso das idias tristes que a povoavam, o velho meditava, baloiando-se lentamente.

Raulino chegou  porta; Luzia aps ele.

- D licena, seu capito Marcos  disse Raulino, cortesmente.

- Quem ?  respondeu o velho tomado de surpresa.

-  de paz.

- Queira entrar...

O velho ergueu-se; examinou-os com os pequenos olhos azuis e profundos; demorou-os sobre Luzia alguns instantes; e, indicando as malas que, com as redes, davam a moblia da sala, principiou, com uma pausa triste, a voz seca, penetrante e cava:

- Abanquem-se. No ignorem a desarrumao, pois somos com boieiros de passagem.

- Eu e esta moa somos muito camaradas de sua filha, dona Teresinha.

Marcos tornou-se lvido. Raulino continuou, com a desenvoltura de homem despachado e ladino:

- E sabemos que a vossa senhoria no se lhe daria de achar uma arrumao...

- Ainda tenho algumas migalhas  atalhou o velho  para no morrer  fome...

- Sabemos; mas, no seria mau ganhar alguma, ainda que s chegue para o prato.

- Contanto que seja servio ao alcance de minhas foras... Eu j no posso com trabalhos puxados...

- No h dvida.  servio nas posses de vossa senhoria, nas obras do Governo...

- Onde  isso?

- Na Meruoca...

- J l estive, h muitos anos, em compra de farinha.

- Ento est feito? Ns ficamos muito agradecidos a vossa senhoiria, que nos faz um favoro. Esta moa  sa Luzia-Homem. Ela, estava com acanhamento de falar.

- Eu no sou mau, dona  murmurou o velho, compungido.  Os desgostos me puseram assim. Era feliz, na minha fazenda, uma situao bem boa, que no me dava cabedais, mas produzia com que viver sem ser pesado a ningum. Entrou-me, um dia, de repente, a desgraa em casa e fugiu-me para sempre, o sossego. Vi... minha santa mulher envergonhada; ela e a filha caula a chorarem, escondidas pelos cantos para me no amargurarem. Eu mesmo, to ralado na vida, parecia oco, sem alma, como se me houvessem roubado o corao. E saa atrs dele,  toa pelo mato, como um desmiolado, em procura da filha ingrata, que o levara. Dias e noites, passei na aflio de sentir-me atolado na lama, estas barbas sujas, evitando os amigos e conhecidos, que me procuravam. Eu tinha vergonha de encarar nos prprios bichos, quanto mais em cristos, que conheciam a infmia... Pedi a Deus que me matasse, e Deus no me ouviu... Conservou-me a vida para castigo meu, para que eu ficasse no mundo como um condenado... Depois, o tempo foi roendo o que me restava de melindre. A negra chaga fechou por fora; mas continuou alastrando por dentro... Afinal, a gente se acostuma a tudo... Rezei por alma da ingrata e jurei que, dali em diante, s existiria para mim a filha mais moa, essa inocente que no tinha culpa da crueldade da outra...

A voz do velho rangia-lhe na garganta, em vibraes metlicas; tinha as modulaes pungentes do estertor de uma alma estrangulada pelo mais querido dos afetos.

- Moa  continuou ele, erguendo-se e dirigindo-se a Luzia, que o contemplava, comovida.  A senhora  mulher de bem; possui me, tem pai?... Conserve a sua honra; defendas mesmo a preo da prpria vida... H filhos que matam os pais... Pois h piores monstros da natureza  as filhas que os desonram... Os mortos deixam de sofrer; mas, os vivos, infamados de dor e vergonha, ficam com a alma enferma para sempre...

- Teresinha tambm tem sofrido tanto  observou, a medo, Luzia.

- No me falem nela, se querem que os acompanhe... Se a ela perdoasse, era capaz de matar-me outra vez - murmurou o velho, cujos olhos azuis fulgiram num relmpago de clera.

Clara ouvia de longe, atrs duma porta, esse doloroso colquio. No ousou entrar na sala para ajudar Luzia na defesa de Teresinha tanto conhecia as crises terrveis daquela mgoa inextinguvel; mas os seus lbios trmulos, lbios doloridos de me amantssima, nuns estos brandos de ternura, murmuravam, splices, desconsolados:

- Pobre da minha filhinha!...

Parece que aoitam diante de mim, a minha filha do corao.





XXVIII



O sol repontava no horizonte, como um rubro e enorme disco. Surgindo de um lago de oiro incandescente, quando o cortejo do xodo se ps em marcha, pela estrada da serra.

Luzia percorreu, com enternecimentos de saudade, os recantos da casa vazia, onde ficavam o pilo, o jirau da latada, a trempe de pedra, os ties extintos, enterrados sob tulhas mornas de cinza, tristes vestgios dos habitantes que a abandonavam. Contemplou, com lgrimas comovidas, o lar apagado, o terreiro, em torno, limpo, varrido, as rvores mortas, os mandacarus carcomidos at ao alcance dos dentes dos animais vorazes, a paisagem triste, coisas mudas e mestas, que se lhe afiguravam companheiros de infortnio, dos quais se despedia para sempre. E partiu, conduzindo,  cabeca, uma pequena troixa.

Seis possantes rapazes e Raulino iam  frente, revezando-se na conduo da tia Zefa, estirada na rede, amarrada a um caibro longo e flexvel. A bagagem, duas malas e os cacarecos de serventia domstica, foi levada na vspera por outros trabalhadores e Alexandre, que se adiantara para preparar a nova morada, o ninho da ventura sonhada. A famlia de Marcos tambm partira com ele.

Ao passar a rede pelas ltimas casas da Lagoa do Junco, perguntavam as mulheres debruadas sobre as janelas:

- Vai vivo ou morto?

- Bem viva, graas a Deus, respondia Raulino.

- Deus a conserve. Boa viagem!

Luzia lanou demorado olhar ao morro do curral do Aougue, onde comeava de alvejar, de reboco, a penitenciria, enleada na floresta de andaimes, quase pronta para receber a cumeeira. E ocorreu-lhe, como recordao piedosa, a triste sina dos condenados que ali ficavam, por toda a vida, encerrados, como em sepultura de pedra e cal. Dentre eles, surgia o espectro minaz de Crapina, cujos gritos terrveis de desespero ecoavam ainda no corao dela, por mais que se esforasse por varr-los da memria, e libertar-se da implacvel obsesso, que lhe toldava a serenidade do amor vitorioso.

Desviando os olhos do morro sinistro, que fora o seu Calvrio de vilipndio, compensado pela florescncia dos instintos sagrados e do afeto redentor de Luzia-Homem, ela resfolegou aliviada, como se dentro daquelas paredes macias, colossais, ficassem encarcerados o passado, as mgoas, os dissabores dos opressivos dias de misria.

A estrada coleava pelo terreno ondulado, cmoros calvos e vales cortados pelos sulcos dos regatos extintos, e alteando insensivelmente, ao passo que, com a montanha, se aproximavam, cada vez mais ntidos, o arvoredo, as manchas peladas dos roados estreis, as cintas de granito, os talhados a pique, em precipcios medonhos, e grotes sombrios, destacados, num esmalte bronzeado de nebrina vaporosa.

Madrugadores serranos desciam para a cidade, dirigindo comboios de farinha, de rapadura, o derradeiro produto da lavoira agonizante. Troteando  cadncia do ranger das cangalhas, eles saudavam aos viajantes, repetindo a pergunta caridosa: "Vai vivo ou morto?"  quando, tirando o chapu, se afastavam para darem passagem  rede da tia Zefa.

 margem da estrada, dentre moitas de mofumbos ressequidos e juremas desgrenhadas, uns fios de fumo azulado erguiam-se, em tnues espirais, dos ranchos de retirantes, acordados quela hora da manh, e pedindo, plangentes, uma esmolinha pelo amor de Deus.

Depois de duas horas de marcha, interrompida a espaos, para descanso dos carregadores, tornou-se o solo mais acidentado em sucessivas colinas e contrafortes tortuosos, dilatados, como raizes colossais pelo serto, partido em vales profundos, refrescados pelas filtraes da serrania, sombreados por vegetao da folhagem pardacenta, retorcido e crestada. Mais longe, uma descida ngreme, sobre estratificaes da piarra cortante, os levou ao sop da montanha, onde comeava a ladeira, e apareciam as primeiras rvores, os oitizeiros frondosos, cedros, paus-d'arco e angicos em florao estiolada, contornando o riacho da Mata-fresca, do qual restava intermitente fio d'gua a deslizar sobre lages, e gotejando de pedra em pedra, como vagarosa lgrima. O squito parou ao abrigo de grandes rochedos, rolados e amontoados em confuso, por esforo titnico. Forte aragem rumorejava encanada pelo boqueiro, com um rudo de mar longnquo.

- Estamos quase em casa!  exclamou Raulino.  Mas o rabo  o mais difcil de esfolar. Ainda temos um pedao de ladeira de suar topete. Se pudssemos ir pelo atalho, encurtaramos metade do caminho, mas a rede no pode passar na vereda cheia de voltas, troncos e barrancos que  mesmo uma escada de demnios.

- No h dvida, seu Raulino  observou um dos rapazes, limpando, com o dedo, o suor que lhe perolava a fronte.  Nem que fosse carga mais pesada; ns somos cabras de talento; vamos bater l num flego, quanto mais a tia Zefinha que  leviana como uma pena.

- Vocs so mas  uns prosas  tornou o sertanejo, ironicamente.  Vejam como esto melados! Com qualquer forcinha ficam botando a alma pela boca. Vamos ver se chegamos  Cova da Ona sem arriar. Um trago da branca est esperando a gente l em riba. Vosmec, sa Luzia, que  ligeira, v pelo atalho que  melhor. Quando chegar no primeiro cotovelo da ladeira, quebre a mo esquerda por uma vereda trilhada, que desce de cabea abaixo; chega no fundo da grota; passa entre dois muros de pedra; atravessa o riacho e sobe por dentro de um bananal. Chegando na lombada do oiteiro, avista logo a casinha no meio de laranjeiras.

- Voc j esteve aqui, seu Raulino?  inquiriu Luzia.

- Ora, ora, ora! Eu conheo o oco do mundo. Oh! Aqui vai a Teresinha. Veja o rasto dela, pequenino, delgado no meio que no toca no cho. Se apertar o passo ainda a pega, porque ela vai cansada. O rasto mido e encalcado mostra que vai devagar... Eu rastejo, como se lesse no cho, at por cima da pedra, folharal e at dentro d'gua...

E, voltando-se para os carregadores:

- Vambora! Pega de jeito; acerta o passo, cabroeira mofina!... Vamo, vamo, que  meio-dia... Agenta o balano! Aonde vocs botam o piro que comem? At daqui a um tiquinho, sa Luzia...

E seguiram, em festiva algazarra, estimulando-se com gritos, graolas que repercutiam, com fragor, nas quebradas do boqueiro. Raulino os tangia com ordens de comando, emitidas no tom gutural dos vaqueiros, voz retumbante, que ele pretendia fosse ouvida a lguas.

Luzia foi subindo aps eles, sem esforo, lentamente, at  primeira volta da ladeira, da em diante cavada na aresta das rochas, talhadas, a prumo, sobre o groto profundo. Desse stio agreste, descortinou o panorama do serto, cinzento de mormao, terminando no recorte azulado das serranias, ao nascente, avultando, erectos, denteados e finos, como agulhas de catedral gtica, os picos, que eriam as crateras extintas dos Olhos-d'gua do Paj. Uma facha verde-escuro, serpeando a perder-se no horizonte, assinalava o interminvel renque de oiticicas seculares, marcando o sulco do rio estanque; depois espelhavam ao sol glorioso daquele dia abrasador, a cidade em agrupamento informe, apenas esboado, as casas das fazendas abandonadas, ponteando, aqui e ali, a plancie devastada e quieta, como um imenso pntano.

Enternecida na contemplao daquele espetculo extraordinrio, na sua tristeza de paisagem morta, o serto devastado como a terra combusta do Profeta, ouvia o festivo alarido dos silvos das cigarras escondidas nos troncos vetustos, e hauria o ar fresco da montanha, embalsamado pelo capitoso perfume das imburanas, a descascarem, numa exuberncia magnfica de seiva.

Desse enlevo, arrancou-a o brado longnquo de Raulino, gritando aos carregadores da rede. Do outro lado do desfiladeiro, mais longe ainda, Alexandre, do terreiro da casinha, respondia, radiante de alegria pela aproximao dos entes queridos.

Obedecendo  indicao do sertanejo, Luzia desceu pela tortuosa ladeira, que ia no fundo da grota, e, sustendo-se nos arbustos das margens para no escorregar, colhendo flores silvestres, parando, a revezes, para desembaraar as vestes dos espinhos que a detinham, chegou  garganta, que Raulino designara por dois muros de pedra, duplo dique donde se despenhava, em catadupas, o riacho, quando Deus dava ao Cear chuvas benfazejas e fecundantes. Erguendo a saia, ela fruiu a delcia, havia muito no gozada, de imergir n'gua sussurrante, os ps pequeninos, as pernas rolias e musculosas, adornadas de aveludada pelcia negra. Com as vestes presas ao joelho, curvou-se, colheu aljfares cristalinos nas palmas cncavas das mos, e banhou o rosto e os cabelos, polvilhados pela poeira do caminho.

Interrompeu-a pavoroso grito, e uma voz, que ela, transida de terror, reconheceu, rugiu:

- Foi o diabo que te atravessou no meu caminho.  a ltima vez que me empatas, peitica do inferno!...

Luzia, na confuso da surpresa, tentou recuar, esconder-se nas fendas dos rochedos; mas, vencendo o impulso de cobardia, e avanando, cautelosa, deparou-se-lhe Teresinha, na outra margem da torrente, algemada de terror, agitando, frentica, os braos, presa a voz na garganta e as pernas paralisadas, chumbadas ao solo. Aqum, arquejava Crapina em estos de clera, tentando galgar as pedras que os separavam.

- Desta vez - grunhia o soldado - nem Deus te acode, ladra ordinria. Fugi, durante a faxina da madrugada, para vir lavar o meu peito... Ah!... Vais ver para quanto presto, cachorra!...

Em convulso de nervos enrijados, Teresinha estertorava agoniada, agitando, com uns acenos epilpticos, as mos desarticuladas.

- Deixe a rapariga, seu Crapina  bradou Luzia, avanando, resoluta e destemida.

O soldado voltou-se como um tigre, ferido pelas ccstas.

Diante da moa, em postura de firmeza impvida, magnfica de vigor e de beleza, o soldado empalideceu, fez-se lvido, e recuou, como se um prestgio sobre-humano lhe aplacasse os mpetos incoercveis de clera e de vingana.

- Luzia!  murmurou ele, quase splice  No lhe quero fazer mal... Sou um desgraado, um miservel... Pedi-lhe outro dia, pelo amor de Deus, um instantinho de ateno. No fez caso; no teve d de mim... Agora vai se decidir a minha sorte...

- Arrede-se; deixe-me passar!...  intimou Luzia, com fora, num tom imperativo, breve e seco.

- Escute-me, meu corao... Nenhum homem neste mundo lhe quer bem como eu.

- Deixe-me passar!...

- Passar!?...

Luzia avanou agressiva.

- Pensas  continuou Crapina, recuando, transfigurado o rosto por diablico sorriso  Pensas que tenho medo de Luzia-Homem? Desgraa pouca  bobage...

E atirou-se de um salto sobre Luzia, que, empolgando-o quase no ar, o torceu, e, atirando-o ao cho, subjugado, comprimiu-lhe o peito com os joelhos.

O squito parara na Cova da Ona, cerca de cem metros de altura, donde se viam, distintamente, os lutadores.

Crapina gemia, espumava de raiva, medonho, sob a presso inexorvel que o esmagava.

- Miservel, miservel!  gritava Luzia, rubra de pudor, de clera, procurando deter as mos crispadas do soldado a lhe rasgarem o vestido  Alexandre!... Raulino!...

A voz vibrante de angstia retumbou nas quebradas do boqueiro, como um clangor de clarim, e a de Raulino Uchoa respondeu como um eco:

- Agente; tenha mo nesse malvado, que j vou!...

Aproveitando um movimento da rapariga para compor o traje, Crapina ergueu-se, e recuou de salto. Arquejava de cansao, e da boca lhe borbulhava sangrenta espuma. Os olhos, injetados, fulgiam de volpia brutal, louca, fixando-se desvairados em Luzia, desgrenhada, o seio nu e as pernas esculturais a surgirem pelos rasges das saias, cadas em farrapos.

brio de luxria, exasperado pela invocao de Alexandre, o monstro, recobrado o alento, acometeu-a, rugindo.

Luzia conchegou ao peito as vestes dilaceradas, e, com a destra, tentou lhe garrotear o pescoo; mas, sentiu-se presa pelos cabelos e conchegada ao soldado que, em convulso horrenda, delirante, a ultrajava com uma voracidade comburente de beijos. Sbito, ela lhe cravou as unhas no rosto para afast-lo e evitar o contacto afrontoso.

Dois gritos medonhos restrugiram na grota. Crapina, louco de dor, embebera-lhe no peito a faca, e caa com o rosto mutilado, deforme, encharcado de sangue.

- Mezinha!...  balbuciou Luzia, abrindo os braos e caindo, de costas, sobre as lajes.

Raulino precipitara-se no despenhadeiro. Agarrando-se aos arbustos encravados nos interstcios dos rochedos, escorregando onde o penhasco se inclinava em rpido declive, saltando com energia indmita por sobre as fendas, pendurando-se nos cips que entreteciam a floresta, atufando-se nas frondes das rvores, passando de uma a outra com agilidade de smio, ou deslizando pelos troncos nodosos, enleados de orqudeas, chegou ao fundo da gruta.

L, em cima, se ouviam os brados dos carregadores e os grandes gemidos dilacerados da me angustiada:

- Meu Deus, Me Santssima, valei-a, salvai a minha filhinlia!...

Momentos depois, o sertanejo surgiu do matagal, perto das pedras do riacho, ofegante do esforo da fantstica descida, atassalhada a roupa, escoriados os braos e pernas pelos espinhos, as mos feridas, ensanguentadas.

Luzia, hirta e lvida, jazia seminua. Nos formosos olhos, muito abertos, parecia fulgir ainda o derradeiro alento. Os cabelos, numa desordem, escorriam pela rocha, forrada de lodo, e caam no regato, cuja gua, correndo em murmrio lmure, brincava com as pontas crespas das intonsas madeixas flutuantes. Na destra crispada, encastoado entre os dedos, encravado nas unhas, extirpado no esforo extremo da defesa, estava um dos olhos de Crapina, como enorme opala, esmaltada de sangue, entre filamentos coralinos dos msculos orbitais e os farrapos das plpebras dilaceradas. Sobre o seio, atravessado pelo golpe assassino, demoravam, tintos de sangue, como se reflorissem cheios de seiva, cheios de fragncia, os cravos murchos que lhe dera Alexandre.

Raulino recuou, cortado de terror, ante o cadver; e, num turbilho de clera, rugiu, arrepiado, apertando os dentes, e, com uns gestos, que eram crispaes medonhas de fera, esquadrinhou o terreno, buscando e rebuscando o criminoso.

Crapina, ganindo de dor, estorcia-se, erguia-se, nuns movimentos loucos, comprimido, sob as mos, o rosto mutilado; caa e erguia-se de novo, at que rolando de pedra em pedra, se sumiu no precpcio...

Voltando, ento, para junto do corpo de Luzia, Raulino curvou-se compungido; apalpou-lhe o peito, ainda morno; e, aproximando os lbios da divina cabea da herona, gemeu com intensa amargura, as palavras doloridas de uno aos moribundos:

- Jesus!... Jesus!... Seja contigo!... Jesus, Maria e Jos!...







FIM
